Venda da Efacec custa pelo menos 113 milhões ao Estado
A proposta do fundo alemão Mutares para a compra da Efacec
pressupõe uma perda para o Estado de, pelo menos, 112,8 milhões de euros que
injetou na empresa. Segundo o documento a que o ECO teve acesso, e que levou ao
adiamento da assembleia de obrigacionistas da empresa industrial para setembro,
a Parpública aceita a perda total deste montante, enquanto os bancos aceitam
perder 80% da dívida. Já aos obrigacionistas é pedido um corte de 50% e
é nas suas mãos que reside o futuro deste negócio. No total, a proposta da Mutares tem subjacente um
perdão de dívida de quase 182 milhões de euro.
O objetivo deste documento, entregue a 21 de julho, é
definir as possibilidades de recuperação do investimento feito pelos
obrigacionistas no caso de um “cenário conceptual” de liquidação da Efacec. Uma
informação complementar na qual se detalha a situação da empresa e se tenta
demonstrar que os obrigacionistas têm mais a perder se insistirem no
braço-de-ferro de não aceitar o haircut da dívida que vence em 2024.
Em cima da mesa está um perdão de dívida de 29 milhões de euros por parte dos
obrigacionistas, de 40,12 milhões pelos bancos e 112,8 milhões pela Parpública,
que correspondem aos empréstimos feitos pelo acionista Estado. Assim, a
proposta da Mutares tem subjacente um perdão de dívida de quase 182 milhões de
euros e, de acordo com o comunicado da associação Maxyield, que reúne alguns
dos obrigacionistas da Efacec, a injeção de 15 milhões de euros na Efacec.
Já no que diz respeito à banca, que já terá revelado
estar disposta a aceitar o corte de dívida proposto e a “trabalhar com a
Mutares para o futuro da empresa”, numa base “construtiva”, como o ECO escreveu
na semana passada. Aliás, o documento confirma essa perspetiva futura ao explicar
que, “para além da reestruturação da dívida, está a ser pedido um esforço
adicional aos bancos no que diz respeito a manter o seu atual nível de
exposição à Efacec em apoio ao financiamento comercial (garantias
bancárias) que ascendem, presentemente, a mais de 120 milhões de euros”.
Os bancos aceitam perder 32,12 milhões de euros de dívida
totalmente sem garantia, num corte de 80%, e 7,34 milhões da parte não
garantida da dívida com garantias estatais (neste caso o corte é de 50%,
idêntico ao proposto aos obrigacionistas).
Prejuízos agravam-se 50,9% e ascendem a 21,4 milhões até
abril
No documento é ainda apresentado o mais recente balanço das
contas da Efacec (detalhado por cada empresa do grupo). Os prejuízos
consolidados até abril deste ano ascendem a 21,48 milhões de euros, um aumento
de 50,9% face ao mesmo período do ano passado. Isto resulta de um
agravamento das perdas de 48% nos resultados operacionais, negativos em 20,27
milhões de euros até abril. A empresa fechou o ano de 2022 com um resultado operacional
negativo de 104,98 milhões de euros.
Esta exposição detalhada das contas por parte da Efacec
serve para demonstrar aos obrigacionistas que, caso a empresa acabe num
processo de insolvência, as suas possibilidades de recuperar as verbas
investidas são nulas.
Não só porque apenas uma parte dos ativos da Efacec são
considerados recuperáveis (os ativos por impostos diferidos e os ativos
intangíveis não são classificados como tal), mas porque na hierarquia de
créditos estão entre os credores comuns, atrás dos trabalhadores, do Fisco e da
Segurança Social (cuja dívida ascende a seis milhões de euros), a Parpública
(cujos empréstimos já ascendem a 130 milhões e que o documento assume que
deverão ser consideradas ajudas de Estado o processo de reprivatização e,
portanto, seriam equiparados aos restantes créditos que o Estado viesse a
reclamar sobre a Efacec) e as garantias estatais de 85 milhões, asseguradas
pela Norgarante, por exemplo.
A empresa, embora ressalve que estas contas não estão
auditadas e como tal pede aos obrigacionistas que façam os seus próprios
cálculos com base nas informações públicas, revela ainda que tem 425 milhões de
euros de pagamentos em atraso (até abril) que ainda não foram executados.
O exercício de simulação não considera os custos
relacionados com um eventual processo de liquidação, porque estes dependem de
vários fatores como a duração do processo – estimado num mínimo de cinco anos
–, que poderia deteriorar ainda mais a recuperabilidade dos créditos.
Fonte: Eco, 3 de agosto de 2023
Que o Estado perca dinheiro com a venda de empresas antes lucrativas, é tão surpreendente, que todos ficam surpreendidos.

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