Festival de Berlim é acusado de ajudar a propagar o antissemitismo
The Possession (2012)
Acusações
surgiram após vários cineastas terem feito declarações sobre a guerra de Israel
contra o Hamas em Gaza durante a cerimónia de encerramento.
O Festival de Cinema de Berlim foi acusado, no domingo (25),
de ter servido de plataforma para vários cineastas que, na véspera,
fizeram declarações sobre a guerra de Israel contra o Hamas em Gaza que o presidente
da capital alemã considerou "antissemitas".
"O antissemitismo não tem espaço em Berlim e isso
também se aplica aos artistas", denunciou Kai Wegner, na plataforma X
(antigo Twitter).
"O que aconteceu ontem [sábado] na Berlinale significou
uma relativização insuportável", acrescentou, pedindo a prestação
de contas à direção da mostra.
O presidente da câmara referia-se, sobretudo, às opiniões
expressas durante a cerimónia de entrega dos prémios do festival, na noite de
sábado, por cineastas que acusaram Israel de "genocídio" pelos
seus bombardeamentos na Faixa de Gaza, que deixaram quase 30 mil mortos -
sobretudo civis -, segundo o ministério da Saúde do Hamas, no poder em Gaza.
Pelo contrário, estes realizadores omitiram que a ofensiva
israelita foi provocada por um ataque de milicianos do Hamas no sul de Israel a
7 de outubro, que provocou a morte de pelo menos 1160 pessoas, a maioria civis.
Um deles foi o realizador de cinema americano Ben Russell,
que usou um lenço palestiniano e acusou Israel de genocídio.
Por sua vez, o documentarista palestiniano Basel Adra, que
recebeu um prémio de Melhor Documentário por "No Other Land",
um filme sobre as expulsões de palestinianos na Cisjordânia ocupada, acusou
Israel de "massacrar" a população palestiniana e criticou as vendas
de armas da Alemanha para Israel.
As suas declarações foram aplaudidas pelo público presente
na sala.
Uma dirigente do Partido Social-democrata, do chefe de
governo, Olaf Scholz, Helge Lindh, qualificou de "chocante" o aplauso do público.
"Sinto vergonha de ver no
meu país pessoas que hoje aplaudem acusações de genocídio contra Israel",
declarou ao jornal Die Welt.
O Festival de Berlim é financiado, sobretudo, pelo Estado
alemão.
Até o momento, a direção do festival não reagiu oficialmente
à polémica, mas informou o jornal Die Welt que as declarações dos
cineastas durante a cerimónia eram "opiniões individuais e
independentes" do evento.
A Berlinale é "explicitamente contra a discriminação e
todas as formas de ódio", mas considera importante que exista "a
livre expressão de opiniões" dentro "dos limites da lei",
apontou o festival.
Fonte: Sapo Mag, 26 de fevereiro de 2024
“Uma turba israelita de direita foi ontem a casa da minha família à minha procura, ameaçando os familiares mais próximos que fugiram para outra cidade a meio da noite. Continuo a receber ameaças de morte e tive de cancelar o meu voo de regresso a casa. Isto aconteceu depois de os meios de comunicação israelitas e os políticos alemães terem rotulado absurdamente de "antissemita" o meu discurso de entrega dos prémios da Berlinale - em que apelava à igualdade entre israelitas e palestinianos, a um cessar-fogo e ao fim do apartheid.
O terrível uso indevido desta palavra pelos alemães, não só para silenciar os críticos palestinianos de Israel, mas também para silenciar israelitas como eu, que apoiam um cessar-fogo que ponha fim à matança em Gaza e permita a libertação dos reféns israelitas, esvazia a palavra "antissemitismo" de significado e, assim, põe em perigo os judeus de todo o mundo.
Como a minha avó nasceu num campo de concentração na Líbia e a maior parte da família do meu avô foi assassinada pelos alemães no holocausto, considero particularmente escandaloso que os políticos alemães em 2024 tenham a audácia de usar este termo contra mim de uma forma que pôs em perigo a minha família.
Mas, acima de tudo, este comportamento coloca em perigo a vida do codiretor palestiniano Basel Adra, que vive sob uma ocupação militar rodeado de colonatos violentos em Masafer Yatta. Ele está a correr muito mais perigo do que eu. Estou contente por o nosso filme premiado, No Other Land, estar a suscitar um importante debate internacional sobre esta questão - e espero que milhões de pessoas o vejam quando for lançado este ano. Foi por isso que fizemos o filme. É possível criticar duramente o que eu e o Basel dissemos em palco sem nos demonizar. Se é isso que estão a fazer com a vossa culpa pelo holocausto, eu não quero a vossa culpa.”
Yuval Abraham, co-realizador de No Other Land, 27 de fevereiro de 2024 no X
Um democrata não passa de um fascista que ainda não saiu do armário político.




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