Montenegro vai a Belém já com Governo na carteira
Marina Machete, miss Portugal 2023. Líder novo, mulher nova no
Portugal do crescimento
Montenegro começou a trabalhar num Governo diferente do que
tinha imaginado. Agora, é preciso formar uma equipa capaz de ultrapassar o
rubicão. E o primeiro teste é não partilhar as suas escolhas antes de falar
com Marcelo.
Desde a madrugada do dia 11 de março, no final de uma noite
eleitoral como há muito não se via, que Luís Montenegro não se avista. A
indefinição de resultados que tornou difícil apurar o vencedor logo na noite
eleitoral, trouxe uma vitória à tangente que agora é preciso saber
gerir. Depois de anunciar ao país que espera ser convidado para formar Governo,
o líder da AD fechou-se em casa a preparar o que pode ser a estrutura do
seu Executivo.
A vitória por margem muito curta obriga a um realinhamento
de estratégia, um Governo com prazo de validade imprevisível precisa de ser um Governo
preparado para enfrentar eleições a qualquer instante, se e quando isso
acontecer, Montenegro quer mostrar ao país que o projeto de mudança a que se
propôs estava em marcha e foi interrompido por oportunismo político.
Para conseguir o objetivo, o líder da Aliança Democrática
tem de conseguir formar um Governo politicamente muito forte e não pode
desperdiçar nenhuma oportunidade. Nem sequer nestes tempos que antecedem o
convite do Presidente da República e o anúncio das suas escolhas governativas.
Este é o grande motivo pelo qual Montenegro optou pelo
recato. Nem o seu
círculo mais próximo, vice-presidentes e secretário-geral incluídos, sabem o
que vai neste momento na sua cabeça, nem quais vão ser ao certo as
suas escolhas. O
líder do PSD está a seguir em tudo a cartilha de Cavaco Silva, que também em 1985 teve que governar em situação
muito semelhante. Foi um Governo de sucesso que lhe abriu a porta para a
conquista de duas maiorias absolutas e 10 anos à frente do Governo.
O segredo é a chave do
sucesso
Nesta tentativa de seguir a inspiração daquele que
Montenegro diz ser a sua grande referência na política, a primeira lição está
em prática, ninguém sabe ao certo quais são as escolhas ou o desenho de Governo
em que Luís Montenegro está a trabalhar.
O recato da São Caetano à Lapa tem permitido ao líder
trabalhar discretamente longe do centro político e das muitas especulações que
circulam sobre os nomes dos futuros governantes.
Ao que sabemos, o puzzle de Montenegro está a ser composto
com vários nomes para as diversas posições, mas ninguém pode dar nenhum lugar
por garantido. Para esta operação minuciosa, o líder social-democrata terá
pedido sugestões de nomes para várias áreas, e até sondagens sobre hipotéticas
disponibilidades, mas não há nenhum convite feito.
Tal como Cavaco Silva,
que em 1985 também se recolheu para fechar os seu primeiro Governo em absoluto
sigilo, também Montenegro está a fazer o mesmo. Só depois da indigitação do
Presidente da República para formar Governo é que Montenegro fará convites, e
espera fazê-los num muito curto espaço de tempo, para controlar todo o processo
no máximo sigilo até os nomes chegarem ao Palácio de Belém.
Também aqui Montenegro quer dar um primeiro sinal de
mudança, depois de tempos muito conturbados politicamente, em que os nomes dos
ministros e o próprio elenco do Governo de António Costa foram anunciados pelo Nascer
do SOL e pelo i antes de chegarem a Belém. Da última vez, em 2022, Marcelo
Rebelo de Sousa chegou a dispensar o primeiro-ministro da audiência em que lhe
devia dar conta da composição de um Governo que já estava todo plasmado na
comunicação social.
Montenegro está a tomar todas as cautelas para que desta vez
não seja assim e o Nascer do SOL sabe que o sigilo vale para todos.
Nem os mais próximos têm informações seguras, apenas
aspirações e/ou preocupações.
«Não tenho dúvidas de que o Luís já tem um Governo na
cabeça, mas não o partilha com ninguém», garantiu-nos um dirigente social
democrata, «ele ouve muitas pessoas e aconselha-se, mas é muito solitário no
momento da decisão e num tema como este, não me espanta que fique tudo fechado
a sete chaves até à hora do anúncio público», acrescenta.
Peças chave de um Governo de
combate
Com todas as dúvidas sobre nomes, há um cenário que é
consensual, depois de conhecidos os resultados no dia 10, ficou claro que a
composição do Governo teria de ser adaptada às novas circunstâncias políticas.
Uma opinião é consensual, este vai ter de ser um Governo
muito mais político do que técnico e as peças chave para que as coisas
possam correr bem serão o ministro(a) dos Assuntos Parlamentares, o líder
parlamentar do PSD e o ministro(a) da Presidência do Conselho de Ministros. Por
estas três figuras passará a gestão mais difícil: negociar permanentemente com
as diversas forças parlamentares medidas e orçamento.
Com a Iniciativa Liberal de fora, Montenegro quer que o seu
Governo tenha capacidade de negociação de banda larga, da esquerda à direita. O
Chega não vai ficar de fora, mas IL, PS e Livre também não. O Governo da AD
quer levar às várias mesas de negociação temas, que, pela sua própria natureza,
dificilmente possam ser rejeitados pelos diversos partidos.
«Vai ser um Governo de pista preta, ou gelo fino», diz-nos
alguém muito próximo da liderança da AD, numa referência às pistas mais
perigosas do ski alpino.
«É um caminho difícil, mas não impossível, mas é preciso não
fazer nenhum erro».
De acordo com várias vozes ouvidas nos últimos dias pelo Nascer
do SOL, logo nos primeiros dias de governo há várias decisões que têm que
ser tomadas, como a eventual apresentação de um orçamento retificativo.
Se José Pedro Aguiar-Branco é dado como certo na
presidência da Assembleia da República, e nomes como o de Teresa Morais
terão de ficar para outros planos, Miguel Pinto Luz é apontado à
liderança da bancada caso não assuma uma pasta ministerial (como a das
Infraestruturas). Hugo Soares, Miguel Poiares Maduro, Gonçalo
Matias, Leitão Amaro, Marques Guedes, Nuno Melo, Margarida
Balseiro Lopes, Ana Paula Martins, Pedro Reis ou Miranda
Sarmento são outros ministeriáveis. Já Paulo Rangel é aventado como
provável comissário europeu, se não for para as Necessidades.
Fonte: Sol, 15 de março de 2024



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