Um admirador das contas de Salazar e um nome familiar do PSD. Os rostos do programa macroeconómico do Chega
Across the
Wide Missouri (1951) - Clark Gable, Alan Napier, Adolphe Menjou, John Hodiak,
George Chandler, Henri Letondal
Eduardo
Teixeira e Pedro Arroja são dois dos “rostos” do programa macroeconómico do
Chega que pretende tornar o país "mais competitivo" e "aumentar
o rendimento das famílias".
O programa eleitoral foi um trabalho feito por todos, feito
em equipa”, garantiu ao ECO um dos novos rostos do Chega, mas familiar entre os
deputados da bancada do PSD. Eduardo Teixeira, eleito pelo círculo de Viana do Castelo,
regressa ao Parlamento, dois anos mais tarde, mas desta vez como membro da
equipa de André Ventura.
Ao ECO, o deputado garante ser “um homem livre” e que
a mudança de equipa não se deveu nem a “motivos pessoais”, nem por “melhores
oportunidades dentro do [novo] partido”, tendo sido apenas motivada pela
“necessidade de participar numa mudança da direita”. “Há que construir essa
alternativa”, explicou.
Mas dentro do PSD — mais concretamente da parte do ex-líder
Rui Rio — a saída de
Eduardo Teixeira para o Chega foi até encarada como um favor. “Já
não sabíamos como nos havíamos de ver livres do dr. Eduardo Teixeira e o Chega
levou-o, prestaram-nos um enorme serviço”, disse o ex-presidente do PSD, citado
pela Sábado. O partido retirou-lhe a confiança.
Além de ser um dos 48 deputados do Chega, tendo sido eleito
com 26 635 votos, é também um dos economistas ouvidos pelo partido
aquando da elaboração do programa macroeconómico. Fonte oficial do Chega
confirma-o ao ECO, mas Eduardo Teixeira refugia-se na modéstia. “Quem fez o
programa foi o Chega, enquanto partido. Foi um trabalho feito por todos, feito
em equipa. Eu apenas e só fui o rosto da apresentação do programa na
convenção”, diz-nos, o também diretor bancário de 51 anos, formado em
Economia e Gestão Financeira.
Mas antes de chegar ao Parlamento, Eduardo Teixeira também foi
vereador da Câmara Municipal de Viana do Castelo, vice-presidente do
International Club of Portugal (ICPT) e membro do Conselho Diretivo do
Sindicato Nacional dos Quadros e Técnicos Bancários.
Na altura da apresentação do programa durante a convenção do
partido, em janeiro último, precisamente em Vila Real, que Eduardo Teixeira revelou
ser “amigo de longa data” de Ventura, tendo assistido de perto (e da
bancada ao lado) às intervenções do líder do partido, desde do tempo em que era
apenas o único deputado. “Sou admirador de Sá Carneiro, sou admirador de
André Ventura”, afirmou perante os militantes.
Outros dos rostos do programa macroeconómico do Chega é José
Pedro de Almeida de Arroja, mais conhecido por Pedro Arroja, que
voltou a ser um dos autores da estratégia macroeconómica do partido depois de o
ter feito, em 2021.
Outrora professor na Universidade do Porto, cronista no
Jornal de Notícias e comentador no Vida Económica, programa da rádio TSF,
Arroja nunca se acanhou de partilhar opiniões polémicas. Em 2015, enquanto
comentador regular no Porto Canal, considerou as deputadas do Bloco de
Esquerda como “meninas esganiçadas”, e isso valeu-lhe uma queixa à Entidade
Reguladora para a Comunicação Social.
Mas a sua voz polémica não começou aqui. No passado, Arroja
já tinha saltado para a ribalta quando partilhou visões ultraconservadoras
sobre o papel da mulher, a adoção homossexual e a própria existência de
Deus. E, numa entrevista à Visão, em 2007, chegou mesmo a admitir que “o
Portugal de Salazar, a Espanha de Franco e o Chile de Pinochet foram exemplos
de milagres económicos”.
Mesmo envolto em polémicas, o economista de 70 anos,
nascido em Lisboa — formado pela Faculdade de Economia da Universidade do Porto
(1977), de Ottawa (1979) e doutorado pela Universidade de Carleton (1986) onde
mais tarde foi docente — foi apelativo para o partido de André Ventura. Numa
entrevista à Visão, em 2021, o também gestor de ativos, admitiu nunca se ter
sentido “tão próximo de um partido”, admitindo tornar-se militante.
Deixar de crescer
“poucochinho”
Feitas as apresentações, olhemos para o programa
macroeconómico do Chega.
A proposta coloca a redução da carga fiscal, combate
ao desperdício orçamental e fiscalização da economia paralela como
três das principais prioridades da próxima legislatura. Segundo o programa, as
medidas inscritas permitiriam tornar o país “mais competitivo” e alcançar um
crescimento do produto interno bruto (PIB) anual superior a 3%. A meta é
superior àquela traçada pela Aliança Democrática, que prevê um crescimento de
3,4% até ao final da legislatura e do PS (2%).
Eduardo Teixeira explica que a ambição prende-se com a
necessidade de “meter o país a crescer mais”. “O país tem que deixar de crescer
poucochinho. Tem que ter um crescimento robusto”, explica ao ECO o deputado.
A peça chave é, no entanto, o combate à economia paralela,
algo que, segundo Eduardo Teixeira, permitiria o país crescer ainda mais do que
os 3% anuais previstos. A estratégia, indica o plano, passa por uma
simplificação fiscal e de um aumento “significativo da fiscalização”, com o objetivo de recuperar
20% por ano. Segundo as contas do partido, serão cerca de 89 mil
milhões de euros ano.
De que forma? “Não é muito difícil, há estudos
que apontam para milhares de milhões de euros perdidos na economia paralela. É
preciso fiscalização e uma vontade absoluta”, explica Eduardo Teixeira,
recusando fazer uma avaliação sobre o que foi feito nesta matéria em
legislaturas anteriores. “Estamos focados no presente e no futuro”, disse.
Em sede de carga fiscal, o Chega propõe que a redução passe
pelo desagravamento da taxa de IRC para 15% nas empresas com sede social
nos concelhos do interior e por um aumento do limite de isenção de IVA para
Trabalhadores Independentes e Empresários em Nome Individual (ENI). Ademais,
propõe ainda o desagravamento fiscal das “empresas que utilizam o lucro gerado
para o reinvestimento no negócio e para a criação de emprego”. Tudo isto,
afirmam, permitira aumentar o investimento e crescimento do tecido empresarial.
Sobre a redução da dívida — tanto PS como AD projetam
um rácio próximo dos 80% do PIB em 2028, nos seus programas eleitorais — o
Chega não tem nenhuma meta prevista, tendo apenas inscrito o objetivo de a
reduzir “em montante face ao PIB”, explica Eduardo Teixeira. “Com os governos
socialistas, a dívida ultrapassou os 120%. Há neste momento uma redução da
dívida percentual, face ao PIB, mas não em montante. Essa é a nossa meta”,
garante.
Fonte: Eco, 14 de março de 2024


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