"Há o receio de que a intenção russa seja um ataque a Portugal": Putin está a ameaçar as ex-colónias portuguesas, mas o "alvo" pode ser o ex-colonizador e "país da NATO"
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Hitchcock Presents / Summer Shade - Julie Adams, James Franciscus, John Hoyt
O tenente-general Marco Serronha
fala numa situação “preocupante”, lembrando o que aconteceu recentemente
nas ex-colónias francesas em África, quando “a Rússia começou a fazer acordos
de cooperação no domínio da defesa e da segurança” naquelas regiões. “Há aqui
uma comparação relativamente àquilo que tem sucedido na África francófona”,
estabelece o especialista
militar em assuntos do continente africano, traçando o “modus operandi” da Wagner que,
uma vez instalada nestas regiões, começa a desenvolver ali “operações de desinformação” - no caso,
para “atacar a França colonialista”, e que terminaram com a “expulsão das
forças francesas” das ex-colónias.
“A França foi sucessivamente hostilizada e corrida - com
embaixadores franceses a serem inclusivamente expulsos - e criou-se uma relação
de tensão entre os países da África francófona e a França”, observa o
especialista, acrescentando que “isto aconteceu numa série de locais - na
República Centro-Africana, no Mali, no Burkina Faso, no Níger”, sendo que hoje
em dia Paris mantém relações apenas com “dois ou três países da África
francófona”.
Neste contexto, argumenta Marco Serronha, “é esse receio que pode estar em cima
da mesa” agora em Portugal: “É de que por
detrás da intenção russa do acordo de defesa [nas ex-colónias portuguesas]
esteja um ataque a Portugal como ex-potência colonial, como país da NATO.”
E Portugal, tal como a França, foi apanhado “completamente
de surpresa” com estes acordos entre a Rússia e as ex-colónias em África. “A França também não sabia destes
acordos, foi confrontada com eles e logo com operações de contrainformação e de
desinformação” contra Paris, diz, que, de mãos atadas, “não
conseguiu fazer nada”. “Pura e simplesmente teve de sair desses países todos”,
recorda, referindo-se às empresas francesas e outros interesses económicos que
se viram impotentes perante a influência russa.
Sendo assim, o mesmo pode acontecer agora em Portugal,
entende o especialista, destacando que é assim que funciona o “modus operandi” do Wagner African
Playbook, um manual que estabelece a atuação do grupo paramilitar no
continente africano. “Podemos
começar a perceber, já dentro de pouco tempo, que aparecem nos jornais da
Guiné-Bissau e de São Tomé e Príncipe coisas contra Portugal, a dizer que
Portugal é um país colonialista, que é preciso expulsá-los [aos portugueses e
empresas portuguesas], começam a ser organizadas manifestações em frente às
embaixadas de Portugal”, enumera.
Se isso acontecer, “vamos ter uma situação muito parecida
com aquilo que se passou com a França”, antevê Marco Serronha. “E aí vamos ter problemas”, adverte. É que se Putin “meter na cabeça que o próximo alvo é Portugal
e as ex-colónias portuguesas, vamos começar a assistir a isto”,
reforça, admitindo que “acredita perfeitamente” que tal possa vir a acontecer,
tendo em conta a posição portuguesa sobre o conflito na Ucrânia. Na perspetiva
russa, diz, Portugal pode ter sido assim “identificado como um alvo” para o
Kremlin, ameaçando-o assim com as ex-colónias portuguesas em África.
"Portugal está a ser
vítima de si próprio"
Neste assunto, “Portugal está a ser vítima de si próprio”,
argumenta Tiago André Lopes,
especialista em Relações
Internacionais e em Diplomacia, referindo-se ao “desinvestimento” do
Governo português nos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP) e
na Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), com quem mantém uma
estratégia de “promessas vagas” que não interessam aos parceiros, que querem
“ajuda concreta”.
Exemplo
disso mesmo é a discussão sobre a reparação às ex-colónias,
espoletada pelo próprio
Presidente da República, que sugeriu que Portugal “liderasse” nesta
questão. Esta discussão “rapidamente foi politizada pelos partidos e não está a
ser uma discussão séria e eficaz sobre o que é que é reparação colonial”, critica o especialista. “Só isso já é sintomático de um país
que ainda não fez a digestão do seu império colonial”, argumenta
Tiago André Lopes, acrescentado também a ausência de uma “definição clara” do
que é, efetivamente, a CPLP. “Enquanto não houver clareza e instrumentos
eficazes para a CPLP funcionar como
funciona, por exemplo, a Commonwealth, não podemos achar que ela vai
produzir efeitos se não há investimento, isso não é possível”, defende.
“E aí a Rússia é muito pragmática”, compara o especialista,
afirmando que estes acordos de cooperação militar e de defesa firmados com os
países africanos assumem várias parcerias que interessam sobretudo às regiões
que se confrontam permanentemente com a eclosão de conflitos. “Obviamente que a
Rússia está a tentar ganhar parceiros novos [em África], só este ano já ganhou
vários parceiros em solo africano - o Senegal, o Mali, o Burkina Faso, o Chade,
a República Centro-Africana”, enumera.
“Não é por acaso que a Rússia convidou Umaro Sissoco Embaló
para ir ao Dia da Vitória na Rússia e para estar do seu lado na Praça Vermelha.
Foi obviamente uma operação de charme” por parte de Moscovo, sublinha Tiago
André Lopes, que vai mais longe: “Se a Guiné-Bissau assinar o acordo, fica
aberta a porta para, eventualmente, ser a próxima aposta da Rússia”, antecipa o especialista,
sublinhando que a Wagner pode
“ajudar líderes autoritários a impor [na Guiné-Bissau] uma ordem de valores que
não é uma ordem democrática nem uma ordem legal”. “E isso Portugal
não consegue fazer”, ressalva.
E o mesmo
pode acontecer em Moçambique, sugere o especialista, que não exclui
que a Rússia procure reforçar também ali a cooperação bilateral com o país, nos
mesmos moldes de São Tomé e Príncipe. Isto porque “Moçambique tem a questão da
insurgência islâmica no Sahel africano e, portanto, tem uma necessidade
securitária premente que não está resolvida, sobretudo a norte”, justifica
Tiago André Lopes, lembrando que há forças russas a
combater ativamente em Moçambique, nomeadamente para erradicar
células do Estado Islâmico e da Jihad que ainda continuam no norte do país.
“Por isso é que eu acho que Moçambique é um alvo fácil para estas ofensivas”
russas, insiste.
O mesmo já
não deverá acontecer em Angola, diz Tiago André Lopes, sublinhando
que a retórica de Luanda este ano “tem sido muito pró-Washington”, procurando
assim demarcar-se da posição do ex-presidente angolano, José Eduardo dos
Santos, que “estava muito conotado com a Rússia e com a União Soviética”. No
entender do especialista, “a Angola vai resistir um pouco mais a esta ofensiva de charme que a Rússia e o
Irão - que
também está mais ativo nessa região, - estão a tentar fazer.”
Perante estas ameaças russas nas ex-colónias, o Governo
português - que já está a ser pressionado pelos partidos, nomeadamente pela IL, para
que não se deixe ficar “surdo e mudo” neste contexto - “não pode fazer nada
porque são escolhas soberanas dos Estados”, segundo Tiago André Lopes,
reduzindo a ação do executivo a “sorrir e aceitar” estes acordos.
Numa perspetiva a longo prazo, pelo contrário, “poderíamos
tentar perceber em que áreas é que ainda podemos estabelecer uma cooperação
eficaz e repensar a parceria com estes Estados”, sugere Tiago André Lopes.
Questionado pela CNN Portugal sobre o acordo firmado entre a
Rússia e São Tomé e Príncipe, na quinta-feira, o Ministério dos Negócios
Estrangeiros sublinhou que não se pronuncia publicamente sobre "atos de
política externa", lembrando que "a CPLP é uma organização de Estados
soberanos”. Ainda assim, manifesta intenção de reforçar a cooperação com o arquipélago,
com "particular destaque para a segurança marítima no Golfo da
Guiné".
Fonte: CNN Portugal, 10 de maio de 2024
Acordo militar entre São Tomé
e Moscovo é um aviso a Portugal “para que corrija o seu rumo”
A
influência russa em África não é de hoje, mas tem vindo a intensificar-se, e
Moçambique e Guiné-Bissau (dois países da CPLP) podem ser os novos focos da
atenção do Kremlin, alertam os analistas, que falam em recado diretamente
dirigido a Portugal
A assinatura do acordo militar com a Rússia é “claramente
uma forma de São Tomé expressar o seu descontentamento em relação a Portugal”,
aponta Mathieu Gotteland, analista da IPSA (International Political Science
Association) e do instituto Open Diplomacy, onde trabalha em matérias africanas
e estratégias de influência, em declarações ao Expresso. “O lugar e o papel de
África estão a evoluir, e são, em grande parte, impulsionados pelo desejo de
crescimento económico e investimento.” O alerta parte também de Edem Selormey,
investigadora do Centro de Gana para o Desenvolvimento Democrático e analista
do Afrobarometer (uma rede de investigação que mede a perceção pública sobre
questões económicas, políticas e sociais em África). A 24 de abril, a Rússia e
São Tomé concordaram em aprofundar a cooperação na área da defesa, através da
intensificação do treino militar conjunto, do recrutamento de forças armadas,
bem como a utilização de armas e equipamento militar, havendo mais quem alerte.
No documento, também está prevista a presença de aviões e navios de guerra
russos na antiga colónia portuguesa.
Fonte: Expresso, 9 de maio de 2024

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