A força mais poderosa do universo: a regressão para a média



Shetland (2013) – Ashley Jensen, Steven Miller, Nina Toussaint-White

A regressão para a média está em todo o lado: no jogo, na astronomia, na economia, na sociologia, nas relações, até na forma como nos sentimos. Todos nós temos bons e maus momentos: sentimo-nos felizes e infelizes em várias alturas da nossa vida, com ou sem razão para tal

Imagine que lança um dado 3 vezes seguidas. A probabilidade de ter sempre 6 é de 0,463%, ou cerca de 1 em cada 200 vezes que o faça. É um acontecimento improvável, mas que pode acontecer. Se acontecer, não fique demasiado convencido que isso deriva de alguma característica especial sua ou de ter muita sorte. Se continuar a lançar o dado, e o fizer 30 vezes, a probabilidade de calhar 6 em todos os lançamentos desce para 0,000000000000000000000000049%. Isto significa que alguém que lance um dado a cada cinco segundos, teria de esperar, em média, mais de 3 quintilhões de anos (é um 3 com 18 zeros) até tal lhe acontecer.

Uma pessoa até pode ter a sorte de, no início do seu jogo de lançamento de dados, ter um valor extraordinário, mas à medida que lança o dado mais vezes, a média dos valores de lançamento tenderá para 3,5 inevitavelmente. À sorte de ter vários 6s consecutivamente seguir-se-á alguns azares seguidos só com 1s. Na verdade, a probabilidade de a média dos lançamentos ser superior a 4 é já muito baixa. Após algumas dezenas de lançamentos, é praticamente impossível a média dos lançamentos não estar entre 3 e 4. Não há como fugir a isto: a convergência para a média é uma das forças mais poderosas do universo.

Com o tempo, até as coisas mais extraordinárias boas e más regressam à média. A senhora sortuda que ganhou dinheiro em duas raspadinhas seguidas, fica a perder depois de apostar na sua sorte e comprar mais 20. O jovem casal apaixonado na lua de mel cairá na rotina mais ano, menos ano. O day trader com resultados excelentes num ano, eventualmente irá ficar em linha com o mercado (menos as comissões das corretoras que prometem que day trading é receita para ganhar muito dinheiro a partir de casa). Um partido que esteja demasiado tempo no poder, mesmo um que apareça em circunstâncias genuinamente virtuosas, acabará por cair nas malhas do nepotismo e corrupção (veja-se o ANC de Nelson Mandela na África do Sul). O Facebook é hoje dominado por pessoas com idade para serem avós do seu público-alvo inicial, o Instagram dominado pelos pais desse público-alvo e dificilmente o reduto para onde escaparam os mais jovens, o TikTok, não percorrerá o mesmo caminho a seu tempo.

A regressão para a média está em todo o lado: no jogo, na astronomia, na economia, na sociologia, nas relações, até na forma como nos sentimos. Todos nós temos bons e maus momentos: sentimo-nos felizes e infelizes em várias alturas da nossa vida, com ou sem razão para tal. Quase todos sem exceção sonham um dia ganhar muito dinheiro e temem a possibilidade de um dia sofrerem um acidente que cause uma lesão incapacitante. Antecipamos que após ganharmos muito dinheiro (no Euromilhões, por exemplo) seremos felizes para sempre e que se um dia sofrermos uma lesão incapacitante (que nos retire a possibilidade de ver ou andar) seremos infelizes para sempre. Um dia alguém se lembrou de estudar isso e foi analisar pessoas que passaram por estes eventos extraordinários. Concluíram que as pessoas que ganhavam a lotaria tinham um acrescento imenso de felicidade nos momentos a seguir, mas ao fim de algum tempo, não havia qualquer mudança no seu sentimento de felicidade. Algo simétrico acontecia com pessoas que tinham um acidente grave incapacitantes: sentiam-se infelizes nos momentos a seguir ao acidente, mas ao fim de algum tempo voltavam ao seu estado normal de variação entre momentos de felicidade e infelicidade. Os autores do estudo publicado no Journal of Personality and Social Psychology concluíram mesmo que ao fim de algum tempo após a ocorrência não havia diferença significativa nos níveis de felicidade reportada entre vencedores de lotaria e vítimas de acidentes. Ambos tinham um novo patamar e era a variação dentro desse patamar que os fazia sentir felizes ou infelizes.

Tudo pode ser diferente e extraordinário, mas apenas temporariamente. Com o tempo, a regressão para a média é inevitável. A Laurinha na música do Miguel Araújo transforma-se inevitavelmente na Dona Laura, sua mãe. O casal apaixonado em lua de mel um dia passará as refeições a olhar para o telemóvel. A start-up com mesas de ping-pong, puffs coloridos e publicidade arrojada, um dia será uma empresa com horários e burocracias, publicidade banal, e onde alguns lambe-botas incompetentes conseguem chegar longe. A única forma de escapar à normalização que o tempo exerce sobre tudo, à força imensa da regressão para a média, é buscar sempre coisas novas, saltar de projeto em projeto, passando o máximo de tempo da sua vida naquele período estimulante em que a regressão para a média ainda não teve tempo para mostrar o seu poder de banalização. Nunca se entregar à melancolia. A não ser que goste dela, claro.

Carlos Guimarães Pinto

Fonte: NOVO, 29 de maio de 2024

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