PSP já tem 16 sindicatos e 36 mil dias de folga para os dirigentes
Alfred
Hitchcock Presents / Self Defense - George Nader, Jesslyn Fax
São os
próprios sindicatos a dizer que é "uma vergonha" o que se passa na
polícia. Três sindicatos têm mais dirigentes que sócios
Há um "Vertical",
outro "Independente",
outro "Autónomo",
outro "Livre"
e até um dos "Polícias
do Porto". Já resta pouca imaginação para dar
nomes a tantos sindicatos na PSP, que atingem o número recorde,
inigualável noutro setor, de 16. O mais recente - Organização
Sindical dos Polícias - nasceu em fevereiro e conta com 459 dirigentes e
delegados para 451 associados. Uma nova lei para alterar o sistema
está no Parlamento há um ano, mas PS e PSD não se entendem e são precisos dois
terços de deputados para a aprovar.
Segundo o regime em vigor, cada dirigente tem direito a quatro folgas por mês para
atividade sindical. Os delegados têm 12 horas. Tudo somado, de
acordo com os dados da Direção Nacional da PSP, em 2017 o total de 3680
dirigentes e delegados tiveram mais de 36 mil dias de folga. O impacto na gestão das
patrulhas e na marcação das escalas é um facto assumido por comandantes ouvidos
pelo DN. "Numa altura em que a falta de efetivos é uma realidade,
um que se ausente causa sempre perturbações nas equipas que estão
formadas", explica um desses comandantes, da zona de Lisboa.
O presidente do primeiro sindicato a ser criado e o mais
representativo, a Associação
Sindical dos Profissionais de Polícia (ASPP), lamenta o "impasse político" e
lamenta "mais ainda" que "os mais de 20 anos de luta para que a
PSP tivesse sindicatos sejam agora os próprios polícias a fazer que, ignorando
totalmente o interesse do coletivo, essa luta e essa credibilidade sejam
destruídas". "É pena que os dois maiores partidos não pensem nisto,
já para não falar dos problemas na gestão de recursos humanos que tudo isto
causa. Só posso dizer que é uma vergonha!", salienta Paulo Rodrigues.
Há cerca de um ano, a ex-ministra da Administração Interna Constança Urbano de Sousa foi a primeira governante a
avançar com uma proposta de lei para alterar o regime sindical da PSP, cujo
objetivo era condicionar o número de dirigentes sindicais à representatividade
da estrutura, tal como acontece noutros setores. O problema foi que, sem dar
conhecimento aos partidos que formam a maioria de esquerda, aproveitou para
criar novas limitações à atividade sindical, proibindo que os dirigentes se
pronunciassem sobre várias questões relacionadas com as condições de trabalho.
A lei da
rolha teve de
imediato a oposição, não só do PCP e do BE mas também do CDS. O PSD, por sua
vez, aproveitou a "onda" para sugerir que aquelas novas regras fossem
estendidas aos sindicatos de outros setores e o diploma ficou na gaveta.
Quem ganha com esta proliferação de sindicatos? "Já
ninguém ganha. Todos perdem. Numa fase inicial, podíamos compreender que o
dividir para reinar seria conveniente, mas nesta altura chegou-se a um limite
que já ninguém reina e impede qualquer processo sério de negociações",
sublinha Paulo Rodrigues.
No próximo dia 21, a ASPP vai dedicar a esta polémica a
comemoração do dia histórico do sindicalismo policial - os "Secos e
Molhados" - e quer voltar a inscrever o tema na agenda.
No ano passado, os sindicatos conseguiram limitar um pouco
os créditos, diminuindo estas folgas em 1284 dias, relativamente a 2016. A
Direção da PSP vê aqui um sinal de uma "atitude mais responsável" por
parte de algumas estruturas "usando os créditos apenas em efetiva
atividade sindical que pudessem apresentar/mostrar".
Com um novo presidente no PSD, que defende uma oposição
"construtiva", a esperança de um acordo com o PS reacendeu-se.
Contactados pelo DN, porém, nem socialistas nem sociais-democratas abriram o
jogo. "O PS ficou de encontrar uma solução com o governo para que a
proposta ficasse em condições de ser votada. A nós compete-nos esperar e
insistir", diz Carlos Peixoto, vice-presidente da bancada
social-democrata.
Do governo, o gabinete de Eduardo Cabrita não respondeu ao
DN. A deputada socialista Susana Amador, que tem esta "pasta",
revelou que o PS vai reunir-se com "o novo interlocutor do PSD para a
Segurança Interna, Matos Correia". Questionado sobre qual seria a nova
posição do PSD, Matos Correia não quis fazer declarações.
Factos e números
O maior sindicato. A ASPP é o sindicato com maior número de associados (7392) e que tem também a menor
percentagem de dirigentes (1,5%). Foi o primeiro a ser criado depois da lei
sindical ser sido aprovada, em 2002.
O mais
pequeno. O
Sindicado dos Polícias do Porto é o que tem
um número mais reduzido de associados: apenas 24, sendo todos dirigentes e aos
que se somam mais 12 delegados. No total, este sindicato tem mais
dirigentes e delegados do que sócios.
Mais dirigentes. O novo sindicato, criado em fevereiro -
Organização Sindical dos Polícias (OSP)- tem, juntamente com o Sindicato
Independente Livre da Polícia (SILP), a maior percentagem de dirigentes, tendo
em conta o número de sócios. Na OSP há 70% de dirigentes, no SILP há 70,4%.
O que pode mudar. Se for aprovada a proposta que o governo
apresentou há um ano, só na parte que diz respeito à limitação dos créditos
sindicais, a redução dos dirigentes poderá cair para quase 10% do que existe
atualmente, pois passa a ser proporcional ao número de associados (por exemplo,
até 200 sócios só um dirigente). A diminuição dos dirigentes terá impacto
direto no volume de folgas sindicais, o que poderá levar ao afastamento de
muitos dirigentes dos sindicatos mais pequenos
Fonte: Diário de Notícias, 4 de abril de 2018


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