Ascensão e queda de Passos, versão 2.0
Esta é
a história digital dos bastidores da chegada de Passos Coelho ao poder e da
queda do Governo na rede. Onde se fala de manipulação de fóruns das rádios e
TV´s, de condicionamento de debates e se revela como Relvas tentou evitar o
pior em reuniões com bloguistas, na Presidência do Conselho de Ministros…
O ponto de partida é a sua tese de mestrado, nota 20, na
Universidade de Vigo (Galiza) sobre a importância da comunicação política digital na chegada de Pedro Passos
Coelho à liderança do PSD. Consultor de comunicação, Fernando Moreira de Sá, 40 anos,
regionalista ferrenho, foi um dos “voluntários” que, nos bastidores, trabalhou
a caminhada política do atual primeiro-ministro na blogosfera e nas redes
sociais, estratégia efetuada
com recurso a informação privilegiada e campanhas negras contra adversários.
Rosto das empresas Comunicatessen
e da Callaecia,
parceiro da Nextpower (a que estão ligados Rodrigo Moita de Deus, da
Comissão Política Nacional do PSD, e João Paixão Martins, filho de Luís Paixão Martins, da LPM),
Moreira de Sá vai mais longe e desvenda alguns segredos do caminho que levou
Passos Coelho ao Governo… e as razões pelas quais o estado de graça da maioria
nunca chegou a existir no Portugal digital.
A comunicação digital foi decisiva, na ascensão de
Pedro Passos Coelho?
Em 2009, o
PSD era o mais digital dos partidos. Nessa época, os blogues estavam
no auge, o Twitter já tinha alguma força e o Facebook engordava. Os principais
blogues de política tinham uma audiência média diária de 30 mil pessoas. Bloguistas
como Carlos Abreu Amorim ou Daniel Oliveira tinham saltado para as televisões e o PS e o PSD
começaram a credenciar bloguistas para os congressos. Tudo estava maduro para
se fazer o que se fez. Nos jantares de bloguistas que Passos promoveu na
campanha interna, dizia-se que tudo
o que viesse acima de 40% a 45% de votos era devido à malta dos blogues.
Ele teve 60 por cento.
Afirma, na tese que os bloguistas que apoiavam Passos
tinham como referência o blogue Corporações, próximo do Governo Sócrates…
porquê?
O Corporações,
que só peca pelo anonimato, era o braço armado de Sócrates, na blogosfera.
Tinha acesso a fontes privilegiadas e informações do
foro privado dos adversários.
Só podia funcionar dentro do gabinete da Presidência do
Conselho de Ministros…
Ligado ao ex-ministro Pedro Silva Pereira?
Toda a gente do meio sabia. Aliás, costumávamos dizer que o
Corporações “viajava” com o Sócrates e o Pedro Silva Pereira para a Venezuela
porque os posts diminuíam radicalmente nessa altura…
Mas em que medida foi inspirador para a estratégia de
Passos Coelho?
Ajudou a
derreter Manuela Ferreira Leite, então líder do PSD, e a Presidência
da República. Queríamos algo idêntico para a luta interna no PSD.
Quem definiu essa estratégia?
Não posso provar, mas desconfio que o mentor foi Miguel Relvas e tiro-lhe o chapéu. Mas ao
contrário do Corporações, não éramos anónimos. O António Nogueira Leite, o
Carlos Abreu Amorim, o Rodrigo Saraiva, o João Villalobos, o Fernando Moreira
de Sá, etc., assumiam as suas opiniões.
Havia um núcleo duro em Lisboa e outro mais voluntário
no Porto?
Sim, mas isso já muito mais próximo das eleições diretas no
PSD. O pré-diretas é a criação do blogue Albergue Espanhol.
O braço armado de Passos Coelho na blogosfera…
Braço armado, mas de cabeça descoberta. Pedro Correia, Luís Naves, Francisco Almeida Leite eram jornalistas no ativo. O António Nogueira Leite era administrador de um grande
grupo com interesses no Estado e também estava ali a dar a cara. Eu próprio
receei perder clientes e ser considerado persona non grata pelo Governo
Sócrates. O Rodrigo Saraiva e o João Villalobos, consultores de
comunicação, pensaram o mesmo. Mas ao contrário do que diz o Pacheco Pereira,
ninguém andou atrás de avenças do Estado. Pelo contrário: até perdi um cliente
por causa deste Governo.
Como é que entrou nisto?
Fui convidado para o primeiro jantar de bloguistas. O Passos
fazia uma coisa sem rede, sem assessores, sem papéis. Respondia a todas as
perguntas, inclusive as mais complicadas, vindas do Paulo Guinote, do blogue A Educação do Meu Umbigo ou da Ana Matos Pires, do Jugular, sobre questões
fraturantes da esquerda. Eu e outros aderimos, porque acreditávamos. Mas o Pacheco Pereira tem razão numa coisa: fomos o
braço armado para, dentro do PSD, e através do digital, desgastar Manuela
Ferreira Leite e os adversários do Passos. Até fizemos de bombeiros do Aguiar Branco.
Queríamos que ele fosse até ao fim…
Albergue, estratégia digital, projeto político. Como
funcionava, no dia-a-dia?
Por exemplo: existia um mail acessível a um grupo fechado,
através do qual recebíamos informações, linhas gerais, provenientes de quem
estava a preparar o programa do Passos. No início, nem sabíamos quantos éramos.
Cada um desenvolvia aquilo, nas redes sociais e na blogosfera, à sua maneira.
Utilizávamos isso no Fórum da TSF, no Parlamento Global, da SIC, no Twitter,
etc. No último confronto
televisivo entre os três candidatos à liderança [Passos, Aguiar Branco e
Rangel], condicionámos o debate. Só eu tinha três computadores à minha frente,
em casa, além do telemóvel. Antes do debate, já tínhamos tweets preparados para
complicar a vida ao Rangel. Nos primeiros minutos, começámos a “tuitar” como se não houvesse amanhã,
dizendo que o Rangel estava nervoso e mais fraco do que o esperado. Criou-se um
ambiente negativo que se propagou rapidamente. Ao fim de cinco minutos, ríamos
até às lágrimas! Até opinion makers repetiam o que dizíamos! E o debate
tinha apenas começado…
Como se “vendeu” Passos ao PSD?
Nas diretas, o universo era de 60 mil militantes, muitos
deles difíceis de convencer. Mas compraram a ideia de que o Passos era o único
capaz de ganhar a Sócrates. A
equipa do Sócrates ajudou, sem querer: batiam no Rangel e ignoravam
o Passos, que também ia ganhando pontos ao abordar questões fraturantes da
esquerda. Num jantar de bloguistas, quiseram saber a opinião dele sobre a
adoção de crianças por casais homossexuais. “Se os interesses da criança
estiverem mais defendidos com um casal homossexual, sou a favor.” Ao dizer
isso, ele abriu uma janela importante na blogosfera de esquerda. O próprio
eleitorado do PSD percebeu que não eram só os “da corda” a defendê-lo: até os
adversários o respeitavam. À esquerda convenceram-se de que ele representava a
direita tolerante.
Conquistado o PSD, o que seguiu?
As coisas melhoraram. O leque de bloguistas foi alargado.
Nas diretas, tinha havido um call center, que quase todos os partidos
usam, para telefonar aos militantes, em Lisboa. Para as legislativas, foi no
Porto. Nessa altura, o
Nogueira Leite torna-se muito influente no Facebook e o Carlos Abreu Amorim no Twitter. Havia
voluntários a defender as posições do Passos, mas sobretudo a atacar o Governo
PS, no Fórum da TSF, na Antena Aberta, da RDP, e nos debates dos canais por
cabo. Alargou-se a influência mediática. Os outros partidos também fazem isto.
E bem.
O mail “fechado” manteve-se?
Sim. Com mais força e mais filet-mignon informativo.
Quem fazia chegar essas informações?
Não vou dizer. Essa pessoa também não diz quem lhe fazia
chegar a ela. Mas não sou parvo: por trás disto tinha de estar Miguel Relvas, um visionário quanto
à importância das redes sociais para levar o Passos aonde chegou. Não éramos
anjinhos. Sabíamos bem ao que íamos.
Como se trabalhou a campanha contra Sócrates?
A contrainformação era a praia do grupo à volta de Sócrates.
Tínhamos nick names para as redes sociais, perfis falsos no Facebook e
por aí adiante, mas éramos uns meninos do coro comparados com os tipos dele.
Não há virgens nisto: em qualquer campanha eleitoral, existem centenas de
perfis falsos, mas perfis com “vida”, que incluem fotografias de “família”,
“clube de futebol”, “gostos”, etc. O segredo é ir pedindo “amizade” a pessoas
da política e alargar os círculos de “amigos”. Se deixarmos uma informação sobre o caso Freeport num
perfil falso e ele for sendo partilhado, daqui a pouco já estão pessoas reais a
fazer daquilo uma coisa do outro mundo.
Os fóruns da rádio e da televisão são facilmente
manipuláveis?
Completamente. Se for preciso, provo. Existem equipas só
para isso, nos partidos e nas consultoras de comunicação que fazem assessoria
política. As juventudes partidárias são uma boa base de recrutamento. Em 2011,
o Sócrates foi ao Fórum da TSF. Decidimos entalá-lo e descredibilizar a coisa, exagerando nos elogios.
Deu um bruaá enorme. O diretor da TSF teve de explicar-se por causa das
críticas dos ouvintes, que consideraram aquilo uma coisa do tipo Deus no céu e
Sócrates na terra. Deu-nos um gozo tremendo!
E o jornalismo? Também está mais permeável?
Os
jornalistas agem nas redes sociais sem se protegerem, esquecendo que aquilo é
também uma ferramenta de trabalho. Mas há outro problema para vocês:
quando as redações são vítimas da concentração mediática, da situação económica
e de licenciaturas arcaicas na área do digital, é óbvio que, perante este mundo
novo e perigosíssimo, o jornalismo está mais manipulável. E Portugal é um
caldinho jeitoso para isto: há cerca de cinco milhões de pessoas no Facebook.
O que aconteceu quando o PSD ganhou as legislativas?
Primeiro, acabou o Albergue Espanhol e foi criado o Forte Apache. Sabíamos que
o ambiente ia ser hostil, mas nunca imaginámos que fosse tão hostil nas redes
sociais. Aí, o estado de graça do primeiro-ministro quase não existiu. Como os bloguistas tinham sido
muito importantes para a chegada ao poder, chamaram alguns para o Governo e
suas imediações. Foi um erro.
Nomes?
Álvaro
Santos Pereira, do Desmitos, foi para ministro da Economia; Carlos Sá Carneiro entrou para adjunto do
primeiro-ministro; Pedro
Correia foi
para o gabinete do Relvas; Luís
Naves também,
mais tarde; João Villalobos para a secretaria de Estado da
Cultura; Carlos Abreu Amorim para
deputado e vice-presidente do grupo parlamentar; António Figueira, do Cinco Dias, e de
esquerda, foi trabalhar com o Relvas; Francisco Almeida Leite para o Instituto Camões; Vasco Campilho
foi para algo ligado aos Negócios Estrangeiros; José Aguiar para o AICEP; Pedro Froufe para a comissão de extinção
das freguesias; o CDS também recrutou no 31 da Armada. Houve outros. Só em
ministros, secretários de Estado e assessores foi uma razia em blogues como o
Albergue Espanhol, o 31 da Armada, Delito de Opinião, O Insurgente, o Blasfémias,
etc. Apenas o Aventar
ficou imune. Ora, quando
o Governo começou a levar porrada nas redes sociais, só tinha o Forte Apache
para o defender. Às primeiras medidas duras, a página de Passos no
Facebook foi invadida por críticas e insultos. Um desastre. No fundo, Passos
foi responsável pelo auge da política no digital, mas também pela sua queda.
O “cérebro” Relvas não tentou atenuar danos?
Sim, ainda fui a um encontro de bloguistas “da corda”, na
Presidência do Conselho de Ministros. O ministro ouviu das boas, batemos
desalmadamente na estratégia de comunicação do Governo! Dissemos que o
primeiro-ministro era bom a dar as más notícias e péssimo a dar as boas. Mas continuava a haver um grupo
disponível, ainda que amputado, para adoçar as medidas más, nas redes sociais e
nos blogues, desde que a informação fosse enviada com antecedência. Com
o Relvas, ainda foi chegando alguma coisa, às vezes 24 horas antes, mas depois
nunca mais isso foi feito. Com a saída dele, a estratégia, que já era má,
desmoronou-se. Depois, fomos sabendo que a gestão interna da informação dentro
do Governo também não era fácil.
Porquê?
Não se pode ter uma estratégia de comunicação do gabinete do
primeiro-ministro, outra da Presidência do Conselho de Ministros e outra ainda
do gabinete de Portas, que é o oposto das duas. Não se podem ter responsáveis
de comunicação de cada área em guerra. Não funciona, como está à vista. Para cúmulo, o primeiro-ministro
parece imbuído de uma missão especial qualquer e diz “que se lixem as
eleições”.
Passos descuidou a estratégia de comunicação?
A estratégia de comunicação não existe. Enquanto lá esteve,
Relvas ainda foi o bombeiro, mas quando vi os briefings ia morrendo. Pacheco
Pereira diz que as grandes consultoras de comunicação estão no Governo. A Cunha
Vaz e a LPM estão onde?! Estão em empresas públicas? Ah! Isso é outra coisa. Se
estivessem no Governo, notava-se.
A imagem do Governo ainda é recuperável?
É muito difícil, mas com este PS, ainda acredito. Mas era
preciso e ele que me desculpe fazer uma lavagem ao cérebro do primeiro-ministro
sobre a estratégia de comunicação. Nisso, o CDS é muito melhor.
Fonte: Visão, 21 de novembro de 2023

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