Era luxemburguês, ganhou a maratona nos Jogos Olímpicos de 1900, mas suspeita-se que apanhou o metro

Michel Theato (à direita, número 3) no início da maratona

Há um véu de suspeição sobre o triunfo de Michel Theato, o luxemburguês que correu pela França.

Paris disse adeus aos Jogos Olímpicos de verão recentemente. Mas esta não foi a primeira vez que a capital francesa acolheu o evento desportivo. Em 1900 e 1924 as olimpíadas também se realizaram naquela cidade francesa.

Comecemos, então, por retroceder a 19 de julho de 1900. Michel Theato cruza a linha de chegada em primeiro lugar na maratona de 40,260 quilómetros, à frente de Emile Champion, de França, e de Ernst Fast, da Suécia. Theato, luxemburguês que nasceu 1878, emigrou para Paris com os pais aos seis anos e aí desenvolveu o seu talento como maratonista.

A vitória de Theato foi posta em causa pouco depois da corrida. O atleta de Saint-Mandé, um subúrbio de Paris, tinha de facto sido autor de uma das melhores performances olímpicas. Num calor de 39 graus (os jornais franceses falavam de uma "chaleur sénégalienne" [calor senegalês]), Theato foi o único a terminar a prova abaixo das três horas, com um tempo de 2 59'45". Champion ficou-se pelos 3.04’17’’, enquanto Fast chegou à meta meia hora depois. Estas são diferenças substanciais na história das maratonas olímpicas.

Michel Theato na linha de chegada da maratona

Queixas dos norte-americanos

Pouco depois do evento, começaram a chegar as queixas dos norte-americanos. Arthur Newton (quinto com 4 04'12") afirmou ter assumido a liderança pouco depois da metade da prova e não ter sido ultrapassado desde então. Dick Grant (também dos EUA, sétimo) acusou os organizadores de o terem orientado para a secção errada do percurso. Falou-se ainda de atalhos que Theato teria alegadamente utilizado, mas não havia provas.

Porém, os espetadores notaram que Theato e Champion ainda estavam com energia após o esforço e que as suas camisolas nem sequer apresentavam sinais de sujidade. Este era um facto estranho, já que os atletas teriam de percorrer estradas com poeira, onde circulavam carruagens, carros e vários animais.

No Journal des Sports, o jornalista Géo Lefèvre descreveu a sua jornada, em que acompanhou a maratona de carro. “Na Porte Maillot, paro por um momento e observo os sucessivos atletas a passarem. Quatrocentos metros atrás de Champion [o líder], segue a esperança dos americanos, Newton. Mais atrás seguem Marchais, Pool, Randall e Dick Grant.

Nesta descrição não se fala de Theato. Quer isto dizer que ele estaria atrasado logo numa fase inicial. Mas o luxemburguês aparece um pouco mais à frente na reportagem. Quando Lefèvre estava na Porte de Vincennes, a 12 quilómetros da meta, avistou-o a preparar-se para ultrapassar Emile Champion. “Theato está notavelmente fresco”, notou.

De metro até à Porte de Vincennes?

Uma hipótese, que não pode ser provada devido à falta de documentos, mas que foi apontada, é que Theato terá abandonado a corrida perto da Porte Maillot e apanhado o metro para a Porte de Vincennes. A partir daí, terá continuado a corrida. Mas a alegada fraude nunca foi reconhecida, pelo menos oficialmente.

No dia anterior à maratona, o metro de Paris começou a funcionar. A linha principal circulava a cada dez minutos entre as estações de Porte Maillot e Porte de Vincennes. A viagem demorava pouco mais de meia hora. Theato vivia na altura em Saint-Mandé, perto da Porte de Vincennes, e tinha pedido a dois colegas do seu clube que o acompanhassem nos últimos 12 quilómetros, o que era permitido na altura.

E Emile Champion, o segundo classificado? Este atleta tinha um irmão gémeo de nome Francis, que também era maratonista. Embora haja poucas imagens da maratona, as do início mostram Champion com calças de corrida bastante mais curtas do que as usadas pelo atleta que terminou a corrida com o seu dorsal nas costas. Questiona-se, por isso, se ambos terão dividido a prova.

Estas questões não foram investigadas na altura, provavelmente pelo clima nacionalista que se vivia - não só na política, mas também no desporto. Em 1900, os americanos mostravam superioridade no atletismo e a vitória francesa na maratona chegou na altura certa.

França ou Luxemburgo?

No portal do Comité Olímpico Internacional (COI), Michel Theato figura como campeão olímpico francês. Na realidade, Theato, que nasceu na Cidade do Luxemburgo a 22 de março de 1878 e emigrou para Paris com os pais aos seis anos, manteve sempre a nacionalidade luxemburguesa. No seu retrato no COI, ele não é mencionado como francês, mas sim como parte da "Equipa de França".

Sabe-se que Theato fez toda a sua carreira desportiva em clubes franceses. Na altura, não existiam clubes de atletismo no Luxemburgo - o primeiro foi fundado em 1907. Deduz-se, por isso, que Theato não representava o movimento desportivo luxemburguês em 1900, uma vez que o atletismo organizado ainda não existia no país. A interpretação do COI sobre a "Equipa de França" é contrariada pelo facto de as regras estabelecidas na Revue Olympique estipularem que os atletas não representam a sua equipa, mas sim o seu país. O Grão-Ducado luta ainda hoje pelo reconhecimento dessa medalha em 1900.

Fonte: Contacto, 17 de agosto de 2024

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