Ex-ministro Aguiar-Branco impôs advogado para terminar negócio milionário na Defesa. A meio contratou-o para advogado pessoal
Kinjite:
Forbidden Subjects (1989) - Nicole Eggert
Nas muitas pastas e dossiers que compõem o processo
arquivado no cofre do ministério da Defesa sobre a compra abortada de dez helicópteros NH90 há uma que se destaca: uma
pasta com um post-it que a identifica como o "caso da prof.ª Fernanda Paula".
Este é talvez um episódio caricato do apoio jurídico externo contratado entre 2012 e 2014 para
ajudar a Direção-Geral de Armamento e Infraestruturas de Defesa a terminar com um negócio ruinoso
para as Forças Armadas que se arrastava há demasiado tempo, numa altura em que
o Estado, com falta de dinheiro, sofria com a intervenção da troika.
A meio de 2012 o então ministro da Defesa, Aguiar-Branco - hoje presidente da
Assembleia da República - foi ao Parlamento e anunciou a saída do negócio e do
consórcio europeu onde o país
já tinha gastado cerca de 90 milhões de euros.
Agora, nas respostas por escrito enviadas ao Exclusivo
da TVI (do mesmo grupo da CNN Portugal), Aguiar-Branco recorda que
"existiam dois fatores que justificavam a saída: o mais importante é que
não existia cabimento orçamental para os encargos previstos em 2012, superiores
a 50 milhões de euros. E não era expectável que o país tivesse condições para
cumprir os pagamentos nos anos seguintes".
Por outro lado, o NH90 estava atrasadíssimo: "NH90 significa NATO Helicopter 1990.
Estávamos em 2012 e ainda
não havia helicóptero. O contrato, como muitos outros dossiers
problemáticos, foi revisto e, neste caso, resolvido", refere
Aguiar-Branco.
O resultado final foi
"5-0"
Para sair do negócio, ao fim de mais de dois anos de
negociações, Portugal pagou mais 37 milhões de indemnização e o ex-ministro
sublinha que foi um excelente resultado pois a indústria pedia muito mais (200
milhões). "O país poupou 500 milhões de euros em encargos futuros num
programa que levantava as maiores dúvidas", acrescenta, referindo-se a alguns países que, entretanto,
receberam NH90 e já anunciaram a sua 'aposentação' devido a vários problemas.
Que se saiba, porém, nenhum gastou tanto dinheiro e no final
não recebeu nada, além das despesas com pilotos, engenheiros e mecânicos que se
arrastaram durante anos e anos.
Um antigo general do Exército, num artigo de análise
publicado em 2014 na Revista Militar, fazia o resumo: "O resultado
final de todo o processo de aquisição dos helicópteros NH90 é de 5-0. Despenderam-se verbas correspondentes
à aquisição de cinco aeronaves e ficámos com zero".
Pagar ou pedir uma
indemnização milionária?
As opiniões sobre o fim do negócio dos NH90 não são
unânimes, apesar de todas as fontes contactadas pelo Exclusivo da TVI
defenderem que o negócio tinha problemas de base e seria sempre ruinoso para
Portugal - as despesas futuras seriam incomportáveis para o orçamento de um
Exército como o português.
Porém, algumas dessas fontes que estavam na altura no ministério
da Defesa acreditam que a saída podia ter sido negociada de forma diferente,
poupando dinheiro ao Estado, pelo menos na indemnização de 37 milhões, algo que
o ex-ministro contesta.
Além das respostas de Aguiar-Branco por escrito, ninguém
aceitou ser entrevistado sobre aquilo que presenciou e se discutiu entre o
anúncio da saída do programa de compra dos helicópteros, em 2012, e o acordo
final de 2014 que terminou com uma compra decidida, inicialmente, em 2001.
Para esclarecer dúvidas, a TVI pediu acesso a todos os
documentos arquivados no ministério da Defesa sobre o caso. Ao fim de um mês o
pedido foi aprovado e durante as visitas foi possível ler inúmeros dossiers,
mas várias pastas tinham a
classificação de confidencial e não puderam ser abertas.
Porém, um dos documentos sem classificação disponível para
consulta faz contas completamente diferentes daquelas que foram o resultado
final deste negócio: por
causa dos muitos atrasos na fabricação do NH90, o documento defende que o país
devia pedir à indústria uma indemnização de 735 milhões de euros.
"Portugal sai derrotado
e sem helicópteros"
O documento não tem data, nem assinatura ou cabeçalho, mas é
detalhado o suficiente, com inúmeros pormenores dos custos, contratos e leis
aplicáveis, para se perceber que deu bastante trabalho a quem o fez.
A indemnização milionária a pedir teria origem não apenas
nas despesas já feitas sem qualquer retorno, mas também no dano reputacional
para Portugal devido aos muitos atrasos na construção dos helicópteros.
"As imagens do Exército e do Governo português ficam
afetadas. Dez anos depois,
Portugal sai derrotado e sem helicópteros, de mãos vazias do maior consórcio
das indústrias europeias de aviação", pode ler-se no
documento.
Surpreendido, Aguiar-Branco responde agora que "o papel
aceita tudo o que lá escrevermos" e que "um ex-ministro não consegue
comentar uma opinião que desconhece, pela qual ninguém se quis ou quer
responsabilizar", num "valor tão absurdo, que ninguém se lembrou de
pedir nas diferentes negociações de recalendarização do programa (aceites pelo
Estado português) anteriores a 2011".
O valor apurado a pedir de indemnização é difícil de
compreender, de facto, para quem não conhece os detalhes do negócio e do acordo
com os restantes países envolvidos na parceria da NATO, mas a TVI apurou que o
documento foi feito pela Divisão de Projetos, Indústria e Investigação e
Desenvolvimento da Direção-Geral de Armamento, apesar de segundo a resposta de
Aguiar-Branco nunca lhe ter chegado às mãos.
Ex-ministro justifica
contratação de advogado
A vasta documentação consultada pelo Exclusivo
permitiu ainda perceber que o apoio jurídico externo imposto pelo então
ministro da Defesa não foi pacífico na Direção-Geral de Armamento.
Para
assessorar esta direção-geral na saída dos NH90, Aguiar-Branco levou os
serviços a contratarem Castanheira Neves, um experiente advogado de Coimbra, com 40 anos
de profissão, mas que fontes na altura envolvidas no processo dizem à TVI que
não era um especialista nesta área do Direito.
O ex-ministro responde e justifica a escolha, dizendo que
"Castanheira Neves é
autor de várias publicações e comunicações, tem um escritório com o seu nome e
uma equipa de advogados e era, à data, membro do Conselho Superior do
Ministério Público", tendo sido "contratado para prestar
assessoria jurídica a uma negociação com várias valências".
"Acresce outra dificuldade que justifica a
escolha", acrescenta Aguiar-Branco: "Do consórcio NH90 faziam parte países parceiros e aliados
de Portugal dos quais também dependíamos financeiramente. Como Alemanha,
França, Holanda ou Itália. Garantir a aprovação destes países exigia
experiência, tato e tempo."
Faturas devolvidas por não
existir contrato
A relação de Castanheira Neves com a Direção-Geral de
Armamento foi tendo dificuldades. Os documentos consultados revelam que por
duas vezes, em 2012 e 2014, houve faturas mensais apresentadas pelo seu escritório devolvidas por
ainda não existir contrato assinado.
Em 2014, por exemplo, o apoio jurídico estava em curso desde
janeiro, na continuação do trabalho dos anos anteriores, mas o contrato só
seria assinado em novembro, com o adjunto do ministro a insistir por e-mail com
os serviços, em maio, que deviam trabalhar com Castanheira Neves.
"Reforço que se torna absolutamente indispensável, à
boa consideração do senhor ministro, a apreciação do dr. Castanheira Neves aos
documentos apresentados", diz o adjunto, Gonçalo Sampaio, que
acrescentava: "Por diversas vezes e em distintos momentos, solicitou este
gabinete que fosse solicitado esse contributo".
Aguiar-Branco, nas respostas à TVI, reitera que, "tendo
em conta a impopularidade da decisão nas chefias do Exército, o objetivo foi,
assumidamente, trazer alguém com uma vasta experiência em negociações, mas que
não tivesse ligações a instituições e ou empresas na área da defesa".
Advogado do ministério e
advogado pessoal do ministro
Por outro lado, quando o processo dos NH90 ainda estava a
meio, a TVI apurou, após consulta ao processo que correu no DIAP de Lisboa, que
em 2013 o ex-ministro
escolheu para seu advogado pessoal o advogado que tinha imposto e continuava a insistir que
trabalhasse com a Direção-Geral de Armamento.
Em causa, nesse processo pessoal do então governante, estava
uma queixa que Aguiar-Branco
entregou por difamação
contra Ana Gomes e que se arrastou durante vários anos.
O ex-ministro não encontra qualquer conflito de interesses
entre os dois factos e responde que, "pelo contrário, foram, também, os
extraordinários resultados conseguidos pelo dr. Castanheira Neves neste
processo que o recomendaram para meu advogado pessoal".
"O caso da
professora"
No apoio jurídico externo ao fim do negócio dos NH90, o
"caso da prof.ª Fernanda Paula" - como surge identificado numa pasta
arquivada no Ministério - é aquele que suscita mais dúvidas legais aos peritos
em Direito Administrativo contactados.
Os documentos consultados revelam que no final de 2013 o gabinete do ministro, por sugestão
do advogado Castanheira Neves, pediu um parecer a uma professora da Faculdade
de Direito da Universidade de Coimbra, Fernanda Paula Oliveira.
O objetivo era perceber se a indemnização a pagar por
Portugal para abandonar o contrato dos NH90 podia ser convertida numa compra
futura de outras aeronaves.
Em cerca de três ou quatro meses o parecer estava concluído,
mas durante muitos meses a seguir a professora teve de insistir com o adjunto de Aguiar-Branco para que o
parecer fosse pago -
não tinha sido assinado qualquer contrato.
Uma solução ilegal?
Quando analisaram o caso, os serviços da Direção-Geral de
Armamento chegaram à conclusão que não havia forma de pagar à professora pois já estava em curso um
processo para fazer um contrato de apoio jurídico sobre os NH90, para o ano de
2014, com o advogado Castanheira Neves indicado pelo ministro.
"Os especialistas em contratação pública que
contactei", indica uma jurista da direção-geral num e-mail, "são
unânimes em referir que é jurídica e materialmente impossível celebrar dois
ajustes diretos pela mesma entidade adjudicante com o mesmo objeto".
Depois de um outro parecer interno da direção-geral para
encontrar uma solução, a
opção foi incluir no futuro contrato de Castanheira Neves o valor a pagar à
professora, numa opção que Paulo Veiga e Moura, especialista em Direito
Administrativo, diz ser de duvidosa legalidade, apesar de outras fontes dizerem
que é comum noutros contratos com escritórios de advogados, sendo que aqui, a
grande diferença, é que o parecer tinha sido pedido pelo próprio ministério
junto da professora quase um ano antes.
Alguns especialistas na área dos contratos públicos
contactados, que preferem manter o anonimato, têm dúvidas sobre a legalidade
desta forma de pagamento, mas Veiga e Moura é mais contundente na análise:
"Aquilo que se encontrou foi uma solução ilegal, a meu ver, para pagar
aquilo que era devido à professora."
O advogado defende que, na prática, foi encontrado uma
espécie de "testa de ferro" para o Estado poder pagar o parecer, numa
solução que permite, em tese, "que se contrate qualquer pessoa que não
pode ser contratada", recordando que há uma série de impedimentos
previstos no Código dos Contratos Públicos".
Parecer de 20 mil euros
custou, afinal, 45 mil
A meio de novembro de 2014, com efeitos retroativos para
todo esse ano, Castanheira Neves acabou por assinar um contrato com o Estado
para fazer consultadoria neste ano ao processo dos NH90, no valor máximo de quase 80 mil
euros, cuja execução e valor final dependeria das horas de facto
trabalhadas.
A seguir, a fatura entregue pelo escritório de Castanheira Neves à
Direção-Geral de Armamento para justificar o pagamento do parecer da professora
da Faculdade de Direito foi de 45 mil euros, bem acima do valor referido em
cinco e-mails e documentos internos lidos pela TVI no ministério da Defesa,
pois durante meses a direção-geral esteve convencida que o parecer iria custar
20 mil euros.
O portal da transparência dos contratos públicos revela,
aliás, que todos os pareceres feitos por Fernanda Paula Oliveira para o Estado
foram sempre muito mais baratos que 45 mil euros - o mais caro tinha sido,
curiosamente, 20 mil euros -, mas a própria explica
ao Exclusivo da TVI que "estava em causa uma questão muito complexa que
mobilizou muitas horas/meses de trabalho, com a análise de
documentação (quase toda em língua estrangeira) e muito técnica".
"O parecer, embora assinado por mim, foi elaborado com a colaboração de uma
colega", como está referido no documento, conta a professora
que garante, igualmente, que não percebe de onde surgiu a ideia que este
custaria 20 mil euros pois sempre terá indicado 45 mil.
Sobre este caso, Fernanda Paula Oliveira diz que recorda,
dez anos mais tarde, acima de tudo, "uma situação que se tornou totalmente desagradável", em que fez o trabalho "que foi solicitado"
e depois teve "de 'regatear' o respetivo pagamento".
"Nós temos
verdadeiramente trabalho!"
Os e-mails consultados pela TVI no ministério revelam
igualmente o desconforto dos serviços jurídicos da Direção-Geral de Armamento
com a contratação do referido parecer para estudar uma possibilidade para o fim
do negócio dos NH90.
Leia-se, nomeadamente, uma mensagem da principal jurista da
direção-geral onde esta refere que a professora que fez o parecer "é especialista em Direito do Urbanismo e não em
contratação pública".
Uma pesquisa na internet permite confirmar que a grande
maioria dos contratos públicos da professora Fernanda Paula Oliveira se
centram, de facto, na área do urbanismo. A própria responde ao Exclusivo
agradecendo que "a considerem especialista em direito do urbanismo (área
de que gosto particularmente)", mas sublinhando que é "professora da Faculdade de
Direito desde 1990, tendo desde aí lecionado na área de direito
público", avançando como exemplos as cadeiras de direito internacional
público e direito administrativo.
Noutro e-mail interno do ministério, em comentário a um
e-mail do adjunto do ministro Aguiar-Branco, a jurista da Direção-Geral de
Armamento desabafa dizendo que "não me pronuncio sobre os contributos do
dr. Castanheira Neves (ou sobre a valia do parecer da professora) ou a falta
deles, sobre os quais o dr. Gonçalo Sampaio [adjunto do ministro] tanto
fala".
"Lamento o transtorno que nos estão a causar, pois
modéstia a parte, em termos muito simples, nós temos verdadeiramente
trabalho!", concluía Fátima Diogo, que quando saiu do serviço, ainda em
2014, teve direito a um louvor do diretor-geral de armamento, escrito em Diário
da República, pelo seu trabalho, inclusive no processo de saída do programa
NH90.
Advogado de Aguiar-Branco no
Conselho Superior da Magistratura
O
antigo adjunto de Aguiar-Branco, Gonçalo Sampaio, que fez os contactos
com a Direção-Geral de Armamento por causa de Castanheira Neves e do pagamento
à professora de Direito da Universidade de Coimbra, surgiu na imprensa há
poucos meses: o Diário de Notícias contava que enquanto administrador de
uma empresa municipal de Lisboa assinou um contrato com o escritório de
advogados fundado por Aguiar-Branco. Gonçalo Sampaio é agora chefe de gabinete do ministro da economia,
Pedro Reis.
Castanheira
Neves, o advogado indicado pelo ex-ministro para tratar da saída dos
NH90 entre 2012 e 2014, foi
este ano escolhido para vogal do Conselho Superior de Magistratura, o
órgão de fiscalização dos juízes, indicado pelo PSD como cabeça da lista votada
na Assembleia da República.
Apesar da insistência, o gabinete do atual ministro da
Defesa, Nuno Melo,
está há dois meses para responder quanto recebeu ao todo Castanheira Neves em
contratos por causa dos NH90. O portal da transparência não tem todos os
contratos públicos a envolver este advogado e o processo dos helicópteros,
sendo também preciso ter acesso ao total das faturas com o trabalho
efetivamente realizado - o valor pago depende das horas de serviço dedicadas ao
processo.
Castanheira Neves, ao telefone, recusou fazer qualquer
comentário ou busca no seu escritório para obter mais detalhes, dizendo que já
passaram dez anos e está, como sempre, de consciência tranquila.
Fonte: CNN Portugal, 27 de setembro de 2024
Uma lastimável perda por causa de advogados a embolsar bom dinheiro. Geopoliticamente rebatizados, os NH90 poderiam ser oferecidos à Ucrânia como os Kamov. Assim, o dinheiro não teria sido desperdiçado; dinheiro gasto na defesa da democracia, retorna a casa do pai como um bom filho.

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