"Quando cortam o clitóris deixam-no secar por um ou dois meses." Misticismo impulsiona o comércio órgãos genitais mutilados na Costa de Marfim
Alfred
Hitchcock Presents / The Big Kick - Brian G. Hutton, Anne Helm
Durante
três anos, o marfinense Moussa Diallo usou diariamente uma pomada feita a
partir de glande de clitóris de mulheres mutiladas, convencido de que ganharia
mais "poder"
"Tinha muita vontade de ser um poderoso chefe",
disse à AFP o homem de 50 anos, cujo nome foi alterado, lembrando o
período, há uma década, no qual trabalhava como curandeiro em Touba, noroeste
da Costa do Marfim.
Em muitas regiões deste país do oeste da África, "este órgão é utilizado para preparar poções do amor, ganhar
dinheiro ou ter acesso a cargos políticos", explica Labe
Gneble, diretor da Organização Nacional para Infância, Mulheres e Famílias
(Onef).
Embora a mutilação genital feminina seja proibida no país
desde 1998, a AFP constatou o seu tráfico ilegal, entrevistando curandeiros,
mutiladores, pesquisadores e assistentes sociais.
O órgão é vendido no mercado
clandestino por suas supostas propriedades místicas por até 75 mil francos CFA,
o salário mínimo na Costa do Marfim.
A magnitude deste comércio é difícil de estimar. Fontes
locais o consideram um dos principais obstáculos à luta contra a mutilação
genital feminina que, segundo dados da OCDE, afetou uma em cada cinco mulheres
no país.
Esta mutilação, normalmente praticada entre a infância e a
adolescência, é considerada como rito de passagem para a idade adulta ou uma
forma de reprimir a sexualidade das meninas, explica a Unicef.
Praticada durante séculos por diferentes religiões no oeste
da África, constitui uma violação dos direitos fundamentais, segundo a Unesco.
Além da dor física e psicológica, as consequências podem ser graves: morte,
esterilidade, complicações no parto, infeções, hemorragias...
"Tráfico de órgãos"
Quando era curandeiro em Touba, Diallo era procurado por
mutiladores de clitóris para se protegerem de espíritos malignos.
Na floresta ou uma casa, Diallo acompanhava-os a um local
sagrado para realizar o procedimento. Por se aproximar de mulheres que seriam
mutiladas, também conseguiu o famoso pó daquele órgão.
"Quando cortam o clitóris, deixam secar por um ou dois meses" e depois "esmagam com pedras", explica. O que resta é um "pó preto"
(Neste momento dispara o alerta de racismo estrutural. Se o clitóris fosse de mulher branca, o pó seria branco? Se num órgão insignificante não há igualdade, então deduz-se que no resto do corpo, e no espírito, também não. Os ativistas sociais têm de ultrapassar os slogans e penetrar mais fundo para estripar o mundo do horrendo racismo)
que misturam com "folhas, raízes, cascas ou manteiga de karité",
ingrediente popular na culinária africana.
O pó é vendido, em média, por "100 mil francos CFA se a mulher for
virgem" ou "65 mil se já tiver filhos", explica
Diallo, que agora critica a mutilação.
Segundo o ex-curandeiro, o tráfico continua e recentemente
comprou na sua cidade, uma mistura de pó clitoriano e plantas que mostrou à AFP.
Dependendo do local, esses órgãos são enterrados, jogados no
rio ou entregues aos pais, segundo pessoas que se dedicam à prática. Também
existem usos ocultos, como "feitiços", confirma uma delas.
A legislação do país considera o comércio como "tráfico
de órgãos", que pode ser punido com multas e vários anos de prisão,
explica a advogada Marie Laurence Didier Zezé.
Mas a esquadra da polícia de Odienné, responsável por cinco
regiões do noroeste, nunca indiciou este crime.
"As pessoas não dão informações sobre coisas
sagradas", justifica o tenente N'Guessan Yosso.
"É absurdo"
A ginecologista Jacqueline Chanine, que trabalha em Abidjan,
a maior cidade do país, explica que "o clitóris não traz poderes". "É um absurdo",
disse.
O antropólogo social Dieudonné Kouadio confirmou que a
prática persiste em diversas regiões, num estudo na cidade de Odienné.
"Recebi um recipiente que continha este órgão mutilado,
seco, em forma de pó preto", explica o académico da Universidade de
Bouaké.
Kouadio compartilhou esta conclusão num estudo realizado com
a Fundação Djigui, que luta contra a mutilação genital feminina no país.
O ministério da Mulher, que não validou as conclusões deste
relatório publicado em 2021, não respondeu aos contactos da AFP.
Membro da Fundação Djigui, Nouho Konaté estuda a prática há
16 anos. Segundo ele, agricultores "misturam o pó com sementes para
melhorar a produção dos seus campos" em Odienné.
No centro-oeste, mulheres o utilizam como afrodisíacos,
explica a especialista Safie Roseline N'da, coautora de um artigo sobre
mutilação publicado em 2023.
Para a Fundação Djigui, o comércio é "uma das razões da
sobrevivência das mutilações genitais femininas" no país.
Fonte: Sapo 24, 9 de setembro de 2024
Ainda em 2024, o preto é o fardo do homem branco. O homem branco, superior, de evoluída cultura, ensinou a vestir, a falar, a comer com gafo e faca e até o beijo francês, agora tem o dever moral de ensinar os pretos a viverem de acordo com a ciência. A não embarcarem em crendices, a não praticarem atos contra os direitos humanos, a respeitarem a democracia e os valores.





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