Um lesado do BES defendeu Salgado, outros nem por isso, a juíza fez humor, o advogado sentiu-se na Rússia e diz que ouviu um insulto: julgamento do BES - dia 1
Professor T - Moyo Akandé
Ricardo Salgado esteve pouco mais de uma hora no Campus de
Justiça, em Lisboa, no dia em que se iniciou o julgamento da derrocada do BES.
Chegou às 9:35: apoiado pelo
motorista, ao mesmo tempo que caminhava pé ante pé com os braços apoiados no advogado, Francisco
Proença de Carvalho, e na mulher, Maria João, fez o caminho até entrar no
edifício. Muito devagar, demorou
cerca de cinco minutos a chegar ao interior do Tribunal Judicial da Comarca de
Lisboa.
A tensão estava em crescendo quando o ex-banqueiro saiu do
carro. Antes, Amílcar Morais
Pires, tido como o braço direito de Salgado, foi recebido por uma
enchente de lesados que o esperaram à porta. Chamaram-no “gatuno” e “ladrão” e foi mesmo necessária a
intervenção da PSP para que o arguido, um dos primeiros a chegar, conseguisse
entrar no tribunal com o seu advogado.
Foi nesse clima que Salgado começou a sua caminhada até à
fachada do edifício. Sem
gravata, de camisola azul e com um olho a revelar um hematoma, não
disse nenhuma palavra e manteve o olhar sempre distante até se aproximar das
grades. Nesse momento, um dos lesados furou a fila de jornalistas para o
confrontar.
Mas aquilo que se antecipava ser um ataque barulhento contra
a principal figura do processo BES acabou até por se revelar uma manifestação de apoio. Amparado
pelos seus dois advogados, Ricardo Salgado quedou-se imóvel ao mesmo tempo que
Jorge Novo, 68 anos, lesado do papel comercial do BES, queixou-se de ter ficado
sem nada. “Sabemos que o senhor deixou uma provisão para os lesados, mas
ficámos sem nada. Essa provisão era para nos ser paga, mas o Novo Banco nada
fez. A nossa luta não é consigo”, “desejamos-lhe sucesso”.
Mas este desejo não era unânime. Perante esta manifestação
de apoio, atrás das câmaras outro grupo de lesados ia-se tornando cada vez mais
audível. “Ladrão”, começaram
a gritar, ao mesmo tempo que Jorge, de 65 anos, atirou que o estado
frágil e abatido com que o banqueiro se apresentava não o convencia. “A demência não afeta as pernas, a
minha mulher sofreu de demência, eu bem sei.”
Salgado foi o primeiro a ser chamado para se identificar
após uma curta intervenção da juíza Helena Susano. Levantou-se e caminhou até
ao púlpito da sala de julgamento e logo aí começaram a revelar-se alguns
problemas. O banqueiro disse ter nascido em Cascais, mas não se recorda da data
de nascimento. Disse também não saber em que morada vive. Às perguntas que a
juíza lhe fazia sobre, nomeadamente, se sabia onde estava e se sabia que estava
num julgamento, Salgado manteve-se em silêncio.
Silêncio esse que manteve quando a juíza lhe perguntou se
quereria que o julgamento avançasse sem que ele estivesse presente. Nesse
momento, o advogado, Francisco Proença de Carvalho, levantou-se e respondeu que
“sim” por ele. Foi então logo dispensado, ordenou a juíza, garantindo até
alguma confusão por parte do advogado. “Sem incorrer?”, perguntou Proença de
Carvalho no sentido de ter a certeza de que o seu arguido não seria prejudicado
se abandonasse. “Pode ir a
andar, não precisa de ir a correr”, retorquiu a juíza antes de a
confusão se desvanecer com alguns risos tímidos.
Helena Susano, a juíza de 61 anos que lidera este processo, tem tomado este primeiro dia de
julgamento com algum bom humor, recorrendo até a algumas piadas durante a fase de identificação dos arguidos. Uma aconteceu logo quando entrou
na sala de julgamento e apontou a alta temperatura por o ar condicionado
não estar a funcionar bem. “Não precisávamos de estar numa sauna.”
Outra
dessas piadas surgiu quando foi a vez de se identificar Pedro Cohen
Serra, subdiretor do núcleo financeiro do GES que foi responsável por criar o
negócio da Eurofin. O nome tinha-se seguido a outros vários arguidos que
indicaram à juíza que mudaram de estado civil para solteiro e mudaram também a
sua morada. A Serra, que não foi um destes casos, respondeu-lhe que é “um homem fiel à sua morada”.
Ricardo Salgado esteve cerca de sete minutos na sala de
julgamento antes de sair. Ao contrário da entrada, o banqueiro não se deixou
mostrar a sair do tribunal, deixando o local pelas traseiras do edifício. Já o
seu representante disse que tudo aquilo que se tinha passado foi uma
“humilhação”. “Talvez na
Rússia isso
seja uma coisa apreciada, aqui não.”
Francisco Proença de Carvalho afirmou também que durante a
identificação de Ricardo Salgado "todos reconfirmamos" a doença de
que sofre o ex-líder do BES. “Acho que percebemos que não tem consciência, tem
a doença que tem e os efeitos são os que são”. Essa humilhação, acrescentou,
“ou é intencional ou é desinformação”.
Questionado ainda sobre as acusações de liderar uma
associação criminosa dentro do BES, o advogado apontou que isso é “um insulto à
história do banco”: “O BES ajudou muitas pequenas e médias empresas e criou
muitos trabalhos. Mesmo entre os lesados, a responsabilidade de Ricardo Salgado
pela queda do BES não é unânime”, argumentou antes de apontar o dedo ao Estado
português: “Certamente existiram erros de gestão e erros de Ricardo Salgado,
mas também muitos erros do poder público. É muito fácil culpar uma pessoa em
vez de buscarmos a verdade”.
Fonte: TVI Notícias, 15 de outubro de 2024
O facto de a indústria do Ensino Superior produzir licenciados em Direito em excesso, impossíveis de absorver pelo mercado, quando lhes cai um job no colo não o largam nem que contornem as leis para continuar com emprego e vencimento gordo ao fim do mês.
Diz o princípio de Direito que supostamente aprendizaram (na academia faz-se mais que aprender) na Faculdade: Actus non facit reum nisi mens sit rae = a pessoa só é culpada de um ato se estiver ciente do mesmo.
Como existem juízes e advogados a mais não podem dispensar nenhum caso nem que o cliente fosse pobre. Tudo é dinheiro em caixa.


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