Os netos são a sobremesa dos avós
A maior arrelia de um pai é ver a filha casada e bem casada, que ela não caia entre mãos rudes e nodosas que lhe provoquem violência doméstica. Morrer, sabendo que ela, no nectáreo tálamo, preservará o nome da família com um rancho de netinhos. A
aspiração de perpetuar o nome, de assegurar que o sangue da família reverberará
pelas gerações, cita Marx, quando este observa que "a tradição de todas as
gerações mortas oprime como um pesadelo o cérebro dos vivos". Nesta
herança de costumes e afetos, os netos tornar-se-iam assim a materialização do
que Gramsci chamaria de "futuro construído no presente", uma ligação
inquebrantável entre o ontem e o amanhã.
Alegria dos vovôs, os netinhos, companheiros buliçosos para jogarem à
bola no jardim municipal, irem a Sintra comer gelados ao Dona Estefânia, a uma
matiné de desenhos animados, ao circo, a um jogo de futebol. Se não em vivo, no
céu, Camilo Mortágua vigilará por estas satisfações da velhice.

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