A Ucrânia é "um Estado inventado" e a NATO não serve. Se Georgescu (voltar a) ganhar na Roménia, será "o líder mais antidemocrático" da Europa
Tropiques criminels - Béatrice de la Boulaye, Sonia Rolland,
Ricky Tribord
E num instante, tudo mudou. A segunda volta das contestadas
eleições presidenciais na Roménia, que estava marcada para este domingo, já não
vai acontecer. Na sexta-feira, a dois dias da votação, o Tribunal
Constitucional anulou os resultados do primeiro turno, que tinham firmado a vitória-surpresa de Călin Georgescu, candidato
independente com ligações à extrema-direita a quem as sondagens pré-ida às urnas apontavam um
resultado de apenas um dígito.
Houve quem, no rescaldo dessa primeira volta, a 24 de
novembro, se referisse ao vencedor como uma figura política “relativamente
desconhecida”, mas não é bem esse o caso. Em 2022, no mesmo ano em que lançou a
sua conta de TikTok (que conta hoje com mais de 400 mil seguidores), Georgescu ganhou fama entre os romenos com uma
polémica entrevista ao programa televisivo Realitatea Plus, na qual se disse
admirador de Vladimir Putin e defendeu que “a Ucrânia é um Estado inventado”, negando,
contudo, qualquer relação direta com o Kremlin
À data, aquele que descreve como um herói nacional e um
“mártir” Ion Antonescu, líder da Roménia durante a II Guerra Mundial condenado
à morte pelo seu papel no Holocausto romeno, era tido como o provável candidato
presidencial da Aliança para a União dos Romenos (AUR). A relação com o
principal partido de extrema-direita romeno azedou por essa altura, levando-o a
candidatar-se às presidenciais deste ano como independente. E muito aconteceu
desde que a Roménia e a Europa foram surpreendidas pela sua vitória na primeira
volta.
Na sequência de uma série de queixas apresentadas contra
Georgescu no rescaldo da votação, o Tribunal Constitucional ordenou uma
recontagem dos 9,4 milhões de votos depositados nas urnas, que conduziu à
validação dos resultados, com o segundo turno eleitoral a ser disputado entre o
nacionalista, que conquistou 22,9% dos votos, e a liberal reformista Elena
Lasconi, da União para Salvar a Roménia (USR), que angariou 19,2%.
Dias depois, os serviços secretos da Roménia divulgaram documentos a comprovar que Georgescu
beneficiou de uma campanha de desinformação no TikTok e noutras redes sociais
ao estilo das que a Rússia tem levado a cabo na Ucrânia e, mais recentemente,
na Moldova, no contexto de eleições e de um referendo sobre a adesão daquele
país à UE.
“Os
documentos romenos desclassificados alegam que influenciadores pagos, a par de
membros de grupos de extrema-direita e pessoas com ligações ao crime
organizado, promoveram a candidatura de Georgescu na internet”,
noticiou o Politico na quinta-feira. “Os documentos não afirmam
diretamente que a Rússia tentou influenciar as eleições, mas sugerem-no
fortemente.”
Um dia depois, os juízes do Supremo reuniram-se para
analisar quatro novas queixas que deram entrada naquele tribunal, tomando a
decisão de anular os resultados da primeira volta a dois dias da segunda. “O
processo para a eleição do presidente da Roménia vai agora recomeçar na
totalidade, com o Governo a cargo de definir uma nova data, bem como um
calendário para todas as ações necessárias”, adiantou a instância judicial em
comunicado. Logo a seguir, o consultor político Adi Zăbavă explicava à CNN
Portugal: “Um novo calendário para as eleições significa que só terão lugar
daqui a um par de meses. É agora claro que não vamos ter eleições antes de
fevereiro-março.”
Uma aliança pró-UE
A proximidade de Georgescu à Rússia de Putin é conhecida e parece estar comprovado que beneficiou
do apoio do Kremlin no
contexto das presidenciais agora anuladas. Mas isso não é a única explicação
para a vitória do extremista, explica Zăbavă. “Não pode ser exclusivamente
atribuída a operações de influência eleitoral coordenadas pelo Kremlin ou por
outros atores internos ou externos, tem também origem numa insatisfação social crónica e numa falta de
confiança generalizada na atual classe política.”
Nos últimos anos, "acumularam-se tensões sociais
significativas, motivadas pela pandemia, pela guerra na Ucrânia e pela
inflação, que agora eclodiram" nas urnas, adianta o especialista.
"Além disso, a fraqueza dos outros candidatos, a maioria dos quais obteve
menos votos do que os seus respetivos partidos nas legislativas, foi outra
razão pela qual Georgescu teve um percurso favorável – foi visto como o verdadeiro candidato
antissistema, o que constituiu um fator muito importante para o seu
sucesso.”
Uma semana depois da primeira volta, no domingo passado, os
eleitores voltaram a ser chamados às urnas para eleições legislativas que injetaram alguma esperança entre
romenos progressistas e entre aliados europeus e da NATO, que tem
atualmente no país a sua maior base militar. Contabilizados os votos, o PSD
(centro-esquerda) de Marcel Ciolacu estacionou nos 22%, à frente dos 18% da AUR
(em conjunto com outros dois partidos menores, a extrema-direita obteve 35% dos
votos).
No discurso da vitória, o primeiro-ministro invocou “um
sinal importante que os romenos estão a enviar à classe política”, para que “continue a desenvolver o país com
dinheiro europeu, protegendo
ao mesmo tempo a sua identidade, valores nacionais e fé”. Sem maioria
absoluta e ainda na iminência da segunda volta presidencial, o PSD acabou por
negociar uma coligação pró-UE e euroatlântica com o Partido Nacional Liberal
(PNL, centro-direita), que integrava o anterior Governo, e também com a USR de
Lasconi, na tentativa de convencer o eleitorado a votar nela contra Georgescu.
Mas isto poderá não ter peso quando o processo das presidenciais for retomado.
“O facto de os partidos parlamentares pró-europeus terem
assinado um acordo para formar governo é, sem dúvida, um fator importante para
o resultado das eleições presidenciais, porque antes de mais dá uma perspetiva
às estruturas partidárias locais do PSD e do PNL quanto à manutenção dos seus
partidos no poder – um aspeto extremamente importante para os dois partidos
que, em conjunto, detêm mais de 2700 presidentes de câmara num total de menos
de 3 mil", refere Zăbavă. "Mas não posso calcular o impacto eleitoral
deste acontecimento – e seguramente não sabemos se será suficiente para fazer
pender a balança a favor de Lasconi”, adiantava antes da decisão do
Constitucional.
"Sinal de alarme"
na Europa
Com o tabuleiro do jogo baralhado, as atenções continuam
focadas no papel das redes
sociais na vitória de Georgescu, ao final de anos de campanhas de desinformação
alimentadas pela Rússia de Putin para influenciar os resultados de
várias eleições a nível mundial.
Quando
Georgescu venceu a primeira votação, um conjunto de eurodeputados convocou o CEO do TikTok a prestar
esclarecimentos em Bruxelas sobre a campanha online do candidato presidencial
romeno, alegadamente baseada em centenas de contas falsas que
espalharam desinformação pró-Moscovo num país agastado por décadas de corrupção
e que, em 2023, ficou em último lugar no Índice de Democracias da revista Economist
entre os 27 Estados-membros da União Europeia (UE).
“Apelamos ao diretor executivo do TikTok para que venha
falar nesta casa e garanta que a sua plataforma não cometeu qualquer infração
ao abrigo do DSA”, disse Valérie Hayer, presidente do grupo liberal Renew
Europe, numa conferência de imprensa no final de novembro, referindo-se ao
Regulamento dos Serviços Digitais da UE. “A Roménia é um sinal de alarme de que a radicalização e a
desinformação podem ocorrer em toda a Europa com consequências nefastas”,
acrescentou Hayer, aliada
do presidente francês Emmanuel Macron.
Na semana seguinte, durante uma audição de executivos da
empresa chinesa conduzida pelos eurodeputados, foram zero os esclarecimentos ou
garantias de que os processos eleitorais estão a ser protegidos e a
desinformação combatida na plataforma. Na reta final da audição parlamentar, num tom visivelmente frustrado,
a eurodeputada sueca de centro-direita Arba Kokalari falou por muitos ao
declarar: “Muito honestamente, estamos a ficar fartos dos documentos e
promessas ocas.”
Irregularidades,
nacionalismos e teorias da conspiração
Por agora, não é certo se a candidatura de Georgescu vai ser
validada pela Comissão Nacional Eleitoral para a repetição das presidenciais.
Com milhares de romenos mobilizados em Bucareste numa manifestação pró-UE na
quinta à noite, os média locais desdobraram-se em artigos sobre a possibilidade
de o mandato de Georgescu vir a ser invalidado caso vencesse na segunda volta,
perante suspeitas de irregularidades financeiras na campanha.
"Existe um artigo na lei eleitoral que diz que 'os
candidatos declarados eleitos não podem ver os seus mandatos validados se o
relatório detalhado das receitas e despesas eleitorais de cada partido político
ou candidato independente não tiver sido apresentado nos termos da lei' – e
Georgescu declarou 0 RON, a nossa moeda, gastos antes da primeira volta, quando
documentos revelam que foram utilizadas somas importantes para a sua
campanha", explica Adi Zăbavă.
Pelo contrário, é mais do que certa a proximidade de
Georgescu a Putin, que antes e durante a campanha presidencial definiu o presidente
russo como um dos poucos “verdadeiros líderes” mundiais da atualidade e
criticou o apoio da Roménia à Ucrânia, prometendo fechar a torneira de apoios
aos vizinhos.
Como destaca o analista político romeno à CNN, “existem provas substanciais das suas ligações diretas ao
regime russo, não só face a declarações proferidas no passado, mas também
através das suas observações mais recentes, em que questiona os benefícios da
adesão da Roménia à UE e à NATO”. E esse não é o único fator de risco associado
ao nacionalista.
Pouco antes da primeira volta, numa publicação estilo
podcast no TikTok que angariou mais de 3,1 milhões de visualizações e mais de
85 mil likes, Georgescu disse que o povo romeno enfrentou a 24 de novembro uma
escolha “sobre o lado da História em que vai estar”. E atiçado a elaborar essa
ideia, citou o escritor e filósofo alemão Johann Wolfgang von Goethe, dizendo que “o escravo perfeito
acredita que é livre” – os romenos vivem “numa prisão” e precisam de
acordar para se libertar.
Classificando
o feminismo como
“um lixo absoluto”, num dos vídeos partilhado na sua conta oficial
do TikTok e por inúmeras outras associadas ao seu nome, diz que “só um homem
pode fazer isto”, sendo “isto” tornar-se chefe de Estado. E ao jeito de outros
populistas, propaga teorias
da conspiração sem
base factual “há anos”, adianta Zăbavă, que vão desde a aterragem lunar, à
composição química da água e às substâncias utilizadas em tratamentos de
quimioterapia.
“Para além disso, tem defendido figuras fascistas da
História da Roménia e, nesta campanha, foi acompanhado por indivíduos que,
através das suas organizações, promovem mensagens e ações legionárias, ou
fascistas, a juntar a questões sobre a sua relação histórica com o regime
comunista antes de 1989.”
Há ainda a ter em conta as suas propostas económicas, incluindo “abandonar os
empréstimos externos, demonizar as multinacionais e propor que todas as
empresas sejam detidas a 51% pelo Estado” – o que, “aliado a outros fatores, me
leva a afirmar que não pode ser comparado a qualquer outro líder da extrema-direita
de qualquer outro país europeu da atualidade”, ressalta o analista.
"Não há comparação"
com Georgescu
Quando a aliança parlamentar ainda não tinha sido anunciada,
nem se antecipava que a corrida presidencial ia voltar à estaca zero, Elena Lasconi invocou uma espécie de
reza num
derradeiro apelo aos eleitores, lembrando que Moscovo "nunca fez nada de
bom" pelos romenos. "Que Deus abençoe a Roménia na UE e na
NATO, unidos podemos
fazer milagres. Se estivermos unidos, os bots russos no TikTok não podem
destruir a nossa democracia."
A grande questão é se o futuro reserva algum milagre, numa
altura em que, por um lado, o supremo tribunal pôs um tampão às suspeitas de
“guerra híbrida” da Rússia num Estado da NATO, mas, por outro, as autoridades
do país ficam sujeitas a acusações de interferência nos processos democráticos,
com tudo o que isso pode vir a gerar na sociedade até à próxima ida às urnas.
Como a própria Lasconi disse numa entrevista à rádio romena,
horas antes da decisão do Constitucional, “cancelar a primeira eleição leva a
um terrível estado de tensão na sociedade” – “os romenos devem poder escolher”
quem querem como presidente.
“É evidente que a democracia romena tem muito a perder neste
período, independentemente de quem for presidente, mas ainda assim há
diferenças enormes” entre outros candidatos e Georgescu, “sobretudo no que toca
à adesão da Roménia a um caminho democrático”, ressalta Zăbavă.
“Penso que nenhum dos dirigentes de extrema-direita atual
que chegaram ao poder ou que se aproximaram do poder em vários países europeus
pode ser comparado a Georgescu. Não creio que nenhum país da UE tenha tido um
líder tão antidemocrático como Călin Georgescu parece estar preparado para
ser.”
Fonte: CNN Portugal, 7 de dezembro de 2024

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