Carolina Loff. A mulher que traiu o partido mas morreu comunista
Morangos com açúcar - Beatriz Frazão
A
paixão entre uma militante comunista e um inspetor da PIDE nunca foi
compreendida em nenhum dos lados da barricada. O PCP não percebe o que se
passou, e as várias polícias secretas que atuavam no Ocidente nunca desvendaram
o enigma. Mas uma coisa parece certa: Carolina não deixou de ser comunista até
à morte
Como se tivesse atravessado um rio saltando de pedra em
pedra, Carolina chegava a Portugal com uma folha de revolucionária sem mancha.
O fracasso da guerra civil de Espanha, e a aliança entre Estaline e Hitler,
provocara mossas profundas no comunismo nacional, que parecia uma manta de
retalhos. O partido tenta arranjar-lhe local mais seguro do que as casas de
família. É Cunhal – uma estrela em ascensão e que tal como ela chegara nesse
ano ao Secretariado – quem fica com essa missão. Através de um anúncio no Jornal
de Notícias, aluga-lhe um quarto na casa de uma viúva na rua Pinheiro
Chagas, em Lisboa. Carolina passa por sua noiva, assume novo papel falso:
chama-se agora Maria Luísa e é órfã de um oficial do Exército.
Também a Cunhal, dois anos mais novo, a sua beleza não terá
sido estranha. Têm ambos em comum o mesmo idealismo, pureza de convicções e
incapacidade de virarem costas aos amores. Madalena Soares – a segunda mulher
de Ruben de Carvalho, que privaria com Carolina quando esta passava já pela
implacável marginalização típica da escola soviética – traça-lhe o perfil
amoroso: «Diz-se que teve uma relação amorosa
com o Álvaro. Eu intuo isso das conversas que tive com o Ruben e com o Ary dos
Santos. E ela, mesmo depois de tudo o que se passou, sempre falou
dele com muito respeito e afeto».
O PCP é uma organização mal oleada. A dupla não escapa
durante muito tempo à apertada vigilância da PIDE. Os delatores estão por todo
o lado. E, a 30 de maio de 1940, são ambos presos.
Sete anos depois da primeira prisão, a dirigente comunista
regressava à cadeia das Mónicas. Numa cela ínfima, fica 15 dias em isolamento
total. Sem dormir há dias, o medo e a obsessão de responder certo às mesmas
perguntas com que, para a apanharem em falso, diariamente a bombardeavam,
esgotam-lhe os nervos. As suas recentes experiências tinham-na dececionado. A
revolução espanhola fracassara, muitos dos seus antigos companheiros estavam
nas cadeias franquistas e outros tinha-se suicidado. Pior é a imagem da filha,
que deixara na URSS e que exerce sobre ela uma imensa pressão.
O AGENTE
QUE A INTERROGOU NA ANTÓNIO MARIA CARDOSO
Treze dias depois, começa o vaivém entre os calabouços e a
António Maria Cardoso, a sede da secreta. A dirigir os interrogatórios, estão José Catela, o secretário-geral da Polícia de
Vigilância e Defesa do Estado (PVDE), antecessora da PIDE, e o inspetor Júlio Almeida. O primeiro, saído das fileiras
dos oficiais do exército, era um brutamontes escolhido pelo regime salazarista
para dirigir os serviços e reprimir com violência a escalada do comunismo. Tem
prestígio nos serviços, onde é condecorado, mas zero de perspicácia para
enredar a combatente comunista. Júlio Almeida, esse, é perigoso. Como ela, é um
lutador – mas está do outro lado da barricada. Mediram-se. Entre eles, um mundo
a duas cores: o dela, que acredita na construção de um futuro perfeito, de
igualdade e democracia, através da ditadura do proletariado; e o dele, um fura-vidas, sem ideologia, apto apenas para lutar pela
sobrevivência.
Júlio de Almeida vinha de famílias sem teres nem haveres e
subira a pulso. De soldado raso chegara a cabo e daí a guarda do Aljube, onde
entrara em 1931. Até chegar àquela polícia, fora um pulo.
Na cadeia política, onde as torturas infligidas a membros do
Partido Comunista estão taco-a-taco às que viriam a ser utilizadas pela
Gestapo, anda à coca de um pequeno deslize dos prisioneiros para trepar na
carreira. Tem palestra, sabe insinuar-se e obter confidências.
Dois anos após a sua entrada ao serviço, já acumulara o seu
terceiro louvor e chama a atenção da secreta que tutela as prisões políticas e
gaba o seu desempenho: «Soube tomar as medidas certas que levaram a que se
efetuasse a prisão de um perigoso agitador que sabia interessar a esta polícia
apesar de não ser missão de que estivesse encarregado.»
Em 1933, é chefe de guardas. Mas tem demasiada pressa.
Casara e ganhara progenitura, e, para aliviar a economia familiar, utiliza os
subordinados para levarem a sua casa ou ao emprego do pai, operário dos
caminhos de ferro, refeições que desvia da
cantina.
CORTEJAR
AS MULHERES DOS PRESOS
Sabe tirar partido da ‘legalidade’ do regime – e, sempre que
pode, arranja esquemas para aumentar o fraco ordenado. Num meio
concentracionário, o sucesso causa cobiça e é desmascarado. Em 1936, uma série
de denúncias chegam ao topo. Um dos colegas, ouvido num processo disciplinar
que lhe é movido, revela-lhe as manhas: «Quando no Aljube se realizaram obras,
tirou para si um ou dois cestos que um dos operários ali tinha guardados para
os vender juntamente com outros.»
Os expedientes do chefe de guardas não ficam por aqui. As mulheres exercem nele um fascínio tão poderoso como o
dinheiro, e sabe tirar proveito das fragilidades dos familiares dos
presos. O mesmo denunciante revela-lhe o caráter: «Nós, às vezes, tínhamos
ordens para não deixar as visitas levarem fruta ou outras comidas aos presos
mas, quando aparecia uma senhora nova e bonita, ele revogava a ordem. Também
foi muito reparado entre os guardas o seu porte menos correto com algumas
senhoras porque, em vez de as atender com respeito, fazia-lhes galanteios.
Muitas não gostaram, como foi o caso da mulher do preso Bogarim, que me disse a
mim, e a outros guardas, que nunca mais ia ao gabinete do Almeida porque ele se
tinha portado incorretamente com ela.»
Para a PVDE, que detém o poder disciplinar, o comportamento
do chefe dos guardas merece apenas uma repreensão: «Decide-se punir o chefe de
guardas com repreensão averbada por nem sempre ter mantido o aprumo e a linha
de conduta correspondente à sua situação oficial, tomando por vezes atitudes
que, não sendo bem apreendidas pelos seus subordinados, os levaram a tirar
ilações menos justas e lisonjeiras. Não é severamente punido atendendo a que se
trata de um funcionário que possui excelentes qualidades profissionais e aos
serviços que tem prestado e ao seu bom comportamento anterior.»
Defeitos destes, naquele meio, são qualidades. À inteligência e ganância, Almeida aliara a sedução, uma
arma fortíssima naquela área. E, apesar da punição, dois anos
depois, chega a agente da PVDE, e mais tarde a inspetor.
UMA PAIXÃO
IMPROVÁVEL
Quando Carolina é presa, é este homem que tem pela frente
nos interrogatórios na sede da PVDE, na António Maria Cardoso. São da mesma
idade. Ele é alto, moreno, muito aprumado. Um galã tipo Cary Grant.
Ao medirem-se, ambos sentem um impulso incontornável.
Habituados a não brincar com o fogo, acabam por
se apaixonar desviando-se
completamente das suas rotas. Madalena Soares, a segunda mulher de Ruben de
Carvalho, que viria a cruzar-se com ela mais tarde, faz a resenha da tragédia
shakespeariana: «Foi uma grande história de amor,
viveram juntos 10 anos. Para nós, pode ser completamente incompreensível. É
difícil aceitar que uma pessoa como ela, com o seu passado, tenha tido um
relacionamento amoroso com alguém sem os seus princípios básicos.»
Parecia que as promessas que a tinham enchido de fé na
juventude se desmoronavam. Ou até se pervertiam. Debaixo de um interrogatório
cerrado, resiste um mês. Com a sensação que a tinham esvaziado por dentro,
deixa que lhe arranquem nomes, endereços. Entrega
Cunhal e pela primeira vez assume ter estado na URSS. Retrata-se.
«Depois de ter entrado ilegalmente no país e com medo de vir a ser presa, vi-me
obrigada a reatar ligações que não desejava nem desejo continuar a manter.
Verifico hoje que não sou uma revolucionária e estou disposta a retirar-me da
atividade política, suceda o que suceder.»
A DESGRAÇA
DE FALAR NA PRISÃO
Carlos Brito, que conheceu também as prisões salazaristas –
com a diferença de nunca ter claudicado –, avalia os estragos que a dirigente
comunista provoca no partido: «O auto que me mostrou dá conta de amplas
declarações sobre o exterior, algumas talvez inventadas para se dar
importância. Outras graves, sobre a localização de camaradas, com os respetivos
nomes, países, processos e métodos de trabalho. Mais graves, ainda, parece-me,
são as declarações que faz sobre o funcionamento do partido no interior, pelas
armas que forneceu à PIDE. Nomes, localização, tarefas, métodos. Não se percebe
se meteu algum camarada na cadeia. Vários estavam já presos. Mas outros,
provavelmente, não e ficaram mais expostos. Imagino, como a conheci, o drama
que depois viveu porque ela nunca deixou de ser comunista. A tortura e prisão
tornam as pessoas muito frágeis. Deixou de ser ela. Conheci uma camarada que
também falou quando esteve presa. Depois, quase se suicidou como pessoa. Gerou
dramas tremendos. A tortura, a dor passam, a traição fica.»
Já que não podia ser a heroína perfeita, restava-lhe ser a cobarde absoluta. Carolina
tinha considerado ser lógica e ideologicamente acertada a decisão levar a filha
para a URSS. Como sobreviver agora aos sentimentos de culpa, de abandono, de
traição, de vergonha? Tinha, pela primeira vez, uma missão pessoal: «Continuo
sem notícias da minha filha, o que muito me pesa, embora me reconheça a culpada
por uma situação que desejo, custe o que custar, liquidar».
CUNHAL
APONTA O EXEMPLO (NEGATIVO) DE CAROLINA
Um ano depois, em 1941, está em liberdade. Mas no PCP, que
definha, é a sua derrocada. Cunhal não tolera quebras humanas. As feridas
abertas no partido pelas consecutivas traições de funcionários ou elementos da
direção levam ao extremar de posições. No manual sobre o comportamento que se
devia ter nas prisões, o Se Fores Preso Camarada, escrito por ele nos
anos cinquenta, relembrando o caso amoroso que Carolina tem com Júlio Almeida,
dá-a como um dos exemplos a não seguir: «Lembra-te
com horror daquelas miseráveis – Helena Faria e Carolina Loff – que, aceitando
tais amabilidades, acabaram por trair o Partido e se tornaram amantes de
polícias de informação, sendo hoje seres desprezíveis.»
Por cada vaga de prisões, são planos que se teciam e
desteciam. E Carolina, para quem o partido até aí representara o papel
tradicional da família, é expulsa. Enquanto o Comité Central trata de tapar a
brecha aberta por ela, em 1941 sai da prisão e
passa a viver com Júlio Almeida.
Estivera apenas um ano presa. Suspeita-se que a indulgência
da secreta para com ela se devera a um ‘negócio’, uma transação, a conquista da
liberdade em troca de revelações sobre o partido. A ela são atribuídos diversos
tramas de espionagem. Um espião encaixa-se bem em qualquer papel. Em 1946, com
os nazis KO, um agente da CIA sediado na Florida
lança a suspeita: «Tenho informação digna de crédito que Carolina
Loff é uma agente entre o fascismo espanhol e o português. Vai muito a Espanha
e recentemente esteve lá.» E a Legião Portuguesa, convicta de que as
fragilidades da antiga revolucionária podem reverter a seu favor, tenta tirar
partido da situação: «Neste princípio, poderá ser que, ou mantendo a sua antiga
simpatia, ou forçada pela situação da filha, prestar-se a um certo número de
incumbências que nos sejam favoráveis.»
‘ELE
AMOU-A LOUCAMENTE’
A sorte não se movia a favor da ex-dirigente comunista.
Estava à mercê das vontades erráticas da história. O conflito mundial não tem
fim à vista, o pacto germano-soviético e a visão estratégica de Estaline saíam
furados. A Rússia fora invadida, e a filha está em parte incerta. Magda
Fonseca, a prima que acompanhou esses momentos de angústia, guarda a impressão
digital dessa dor: «Estivemos muito tempo sem saber da menina. Com as tropas
alemãs às portas de Moscovo, eles remeteram as crianças para o interior, para
uma República qualquer, em que ninguém sabia delas. Felizmente, foram assim
salvas da guerra, porque eles eram todos filhos de republicanos, sobretudo os
que tinham combatido na guerra civil de Espanha».
Os anos seguintes foram para Carolina um período negro que
teria querido apagar, não só da sua memória mas da realidade. Aparentemente,
perdera a coerência. Entre os seus, tornara-se uma pária. Magda tira a
temperatura à época: «Quando ela foi expulsa, houve muita gente, até da
família, que deixou de lhe falar. Até eu sofri pressões para não me encontrar
com ela. Vi o Júlio Almeida ainda algumas vezes, mas nunca o achei
interessante. Confesso que sempre tive um parti-pris em relação a ele.
Mas ele amou-a loucamente.»
Seria Carolina – que, pelos seus ideais, correra desde a
adolescência toda a espécie de riscos em Portugal, na Rússia e na Guerra Civil
de Espanha – uma impostora ou, no meio do seu desespero para recuperar a filha,
terá apenas utilizado o ex-inspetor da secreta para a tentar reaver? Carlos
Brito, sem uma visão maniqueísta da história, tem a sua leitura: «Esta história
é única. Algo que não se imaginava que pudesse acontecer. Afinal, o monstro
podia amar e a heroína também. O Júlio Almeida
teve de ter um impacto grande nela. Acho que ela era uma mulher muito física.
Talvez esse lado a tenha dominado. O que é espantoso porque, mais tarde, ela
volta para o campo da oposição, e da oposição avançada.»
INSPETOR
ABANDONA A PIDE
O peso que cada um deles terá tido no destino do outro não é
fácil de deslindar. Também a vida de Almeida, um homem orientado até aí apenas
pelo dinheiro, sofrera uma volta de 180 graus. Carolina tornara-se na sua única
referência. Num país clerical, intolerável e intolerante, que conhecia bem, o inspetor abandona a família e a secreta.
A nove de setembro de 1945, com os festejos da derrota de
Hitler, quebra o vínculo com a PIDE, através de um airoso requerimento: «Tendo
eu a necessidade de tratar com urgência de um assunto de ordem particular e
interesse familiar que é incompatível com a função que desempenha e além disso,
encontrando-se muito abalado do sistema nervoso, que exige um […] tratamento
regular, vem muito respeitosamente requerer a vossa excelência que se digne
conceder-lhe licença ilimitada.»
Almeida aprendera a reconhecer os reflexos éticos, a
corrigir a história. O regime passa a ter razões para desconfiar dele. Para a
CIA, o espião fascista durante a II Guerra passara a trabalhar para os Aliados.
Em 1946, o agente sediado na Flórida deixava claro a influência que Carolina
exercera sobre ele desde que saíra da prisão, cinco anos antes. Estava do lado
dos Aliados: «Durante os anos 42, 43 e 44, Júlio Almeida foi muitas vezes
convidado pelos alemães para trabalhar para os seus serviços, mas penso que
nunca aceitou, pelo contrário. Em 1943/944, favoreceu o serviço de Mr. Rene de
Reitenbaxh e Mr. Gray, fornecendo-lhes elementos sobre os sul-americanos e os
do Eixo [nazis]. Consta que é amigo de Mr. Porto da firma pró-americana e de
outros americanos da secção comercial americana.»
OS PIORES
ANOS DA SUA VIDA
Os anos que se seguiram, apesar de Carolina já ter vivido
tempos terríveis, foram os piores da sua vida. Dotada de um estranho sentido da
realidade que a fazia passar das ideias mais românticas às decisões mais
firmes, reativa os seus contactos. Com o seu percurso, conhecia naturalmente
muita gente.
Durante a II Guerra, Salazar, que fazia jogo duplo, dá
guarida a muitos refugiados. Para Portugal são enviados espiões de todo o
mundo. É junto da comunidade judaica, em Lisboa,
que Carolina estabelece ligações que a levam ao paradeiro da filha.
Entre eles o casal Spitz – suspeito, pela Gestapo e pela PIDE, de pertencerem à
Rote Kapelle ou Orquestra Vermelha, uma rede soviética a operar na Europa
Ocidental ocupada pela Alemanha.
O seu líder, Leopoldo Trepper, um judeu polaco, aliara a uma
grande eficiência uma simplicidade notável. Destacava-se pela habilidade
excecional na arte de quebrar a vigilância daqueles que os seguiam, e pelo
recrutamento dos seus membros: na maioria hebreus, porque, segundo ele
explicou, tinham uma conta especial a regular com os nazis.
É este grupo quem arranja emprego a Carolina como secretária
nas minas da Borralha, uma exploração de volfrâmio, o metal que temperava a
guerra, nas mãos de franceses. Mas só no final da guerra, em 1947, a
ex-dirigente comunista consegue localizar a filha. Numa viagem imóvel ao
passado, Magda explica como: «Ela só se reencontra com a filha quando a Helena
tem 14 anos. Foi de comboio até Paris e daí para Amesterdão para contactar com
pessoas que estiveram cá refugiadas. Quem a colocou em contacto com a filha foi
um judeu holandês que regressara à capital. No fundo, a vítima de tudo isto foi
a filha, que acabou por ficar sem mãe e pai, internada num instituto. Fez uma
vida muito razoável na URSS, onde acabou por casar e ter filhos, mas não deixou
de estar exilada.»
OS DOIS
SOB VIGILÂNCIA
E para o amante de Carolina a vida também não está fácil.
Perdera a confiança do regime e não encontra trabalho. Parecia sair com alívio
da ambiguidade em que vivia. Depois de 10 anos de vida em comum, em 1958, decide aceitar um trabalho numa empresa em Angola.
A separação não esmorece a relação entre ambos. Volta e meia, o ex-inspetor da
PVDE regressa à casa que partilham.
Em plena ‘Guerra Fria’, as duas grandes potências disputam
as zonas de influência sem entrar em confronto direto. O percurso de Carolina e
Júlio Almeida levanta as suspeitas da CIA, que entende que a Rote Kapelle, que
nunca fora completamente destruída, tinha sido reativada em Portugal. Com a
secreta portuguesa, numa ação conjunta, os americanos tentam desmantelar a rede
soviética.
Carolina e Almeida passam a estar sob vigilância cerrada.
Entre os vários suspeitos, a ex-dirigente comunista passa a ter como nome de
código Expectador-6. O responsável da investigação da CIA pede todas as
informações na posse da secreta portuguesa: «Enviem todos os elementos que
existam nos vossos ficheiros dos vários expectadores nomeadamente do Júlio
Almeida. Ao Expectador-6 deve intercetar-se-lhe o correio e vigiar-se
discretamente o ex-funcionário visitante de Luanda.»
Com a filha entrincheirada na memória, Carolina tenta
colocá-la em Portugal. Restabelecera a relação com Helena, agora com 25 anos e
formada em engenharia nuclear – e, através dos franceses das minas da Borralha,
passa a enviar-lhe bens de primeira necessidade. Já só tem soluções práticas
para a sua vida. Continua a jogar. Utiliza o seu passado conforme os seus
interesses. Junto do ministro dos Negócios Estrangeiros, move influências. Pede
que facilitem a entrada da filha em Portugal. Conseguira-lhe um passaporte
soviético, mas faltava o mais importante. E requer: «Que o ministério
intervenha junto das autoridades francesas para que à sua filha não seja negado
o visto de entrada em França, onde permanecerá apenas alguns dias; e que o
consulado em Paris lhe conceda um passaporte português para entrada no país.»
REGRESSO À
URSS PARA VER A FILHA
Nada feito. Naquele meio, sabe-se demais. A correspondência
é intercetada pela CIA. Mas Carolina não perdera as antigas qualidades.
Continua a ser uma mulher muito calma, segura de si e dribla as secretas.
As vagas de purgas mantinham-se na Rússia. Antigos companheiros de Estaline morriam com uma bala na
nuca, ou nos campos de detenção e de trabalhos forçados. Carolina
que, com o seu passado, representaria um risco a eliminar, tem porta aberta
para a pátria do socialismo. Com a sabedoria tirada da sua longa experiência,
apanha boleias de amigos ou familiares fora da mira do regime que a levam de
carro até Paris – e, daqui, através de velhas cumplicidades, chega a Moscovo.
Volta e meia é apanhada. Ninguém sabe o que se passaria no mais íntimo dos
serviços secretos portugueses. Curiosamente, nunca é presa. Em 1960, a polícia
do Estado regista: «Armando de Figueiredo, agente de segunda classe, viajou no
Sud Express procedente de Paris. Foi informado pela nacional Carolina Loff da
Fonseca, que tinha ido de visita à URSS com a finalidade de visitar a sua
filha. A referenciada era portadora de passaporte emitido pelo Governo Civil de
Lisboa e nele constava o movimento das autoridades soviéticas. A mesma declarou
que a sua intenção, no dia seguinte à chegada a Lisboa, seria apresentar-se
nesta direção a explicar a sua ida à URSS.»
Carlos Brito, para quem estas movimentações são pouco
ortodoxas, decifra: «Era difícil, sabendo que ela traiu, continuar a ter boas
relações com ela. Só se compreendem estas viagens se ela estivesse ligada ao
aparelho dos serviços secretos soviéticos. Há aí uma zona obscura que não se
consegue decifrar.»
O medo e o instinto de sobrevivência são a essência da
condição humana. Mas Carolina nunca se colocaria no papel da vítima. Traiu,
nada o faria prever, e arcaria com as consequências. Enquanto o partido se
dedica a liquidá-la da sua história e memória, ela continua a viver cada minuto
e cada ação como uma verdadeira comunista.
CATARINA
LEVA ARY E RUBEN PARA O PCP
Nos anos setenta, chegam às mãos de Carlos Brito,
responsável da Direção da Organização Regional de Lisboa (DORL), novos recrutas
– e espanta-se com a mentora que os arrebanha: «Começo a receber uma série de
intelectuais que foram muito influenciados por ela e que queriam aderir ao
partido: o Ruben de
Carvalho, o Ary dos Santos, o Rogério Vieira (ator), Augusto Sobral (ator e
dramaturgo), entre outros. Começo por reagir com desconfiança. As
informações que tinha até aí eram horríveis. Ela tinha sido uma militante
destacada, com atividade internacional, uma revolucionária romântica mas fora
presa com Álvaro Cunhal e traíra. Entretanto, tinha-se passado muito tempo e
nunca mais ouvira falar nela. E pergunto-me: ‘Por que é que esta mulher está a
influenciar estes jovens?’».
Carlos Brito – que, no diálogo com a História, é um homem
inquieto – decide investigar. Na primavera de 1972, num encontro em Paris com
Álvaro Cunhal e Francisco Ramos da Costa para articularem estratégias contra
Marcello Caetano, tenta esclarecer a situação. Mas cai doente. Em conversa com
Cunhal, este percebe que o amigo não está bem. «Tens os olhos em brasa, vou
comprar um termómetro.» Carlos Brito tinha mais de quarenta graus de febre.
«Ele conseguiu que eu fosse visto por um camarada que era desertor e trabalhava
num hospital. Lá me deu um antibiótico, mas tive de ficar na casa do Álvaro uma
semana. Conversámos muito nesses dias e foi aí que lhe coloquei as minhas
questões sobre a Carolina. Ele foi muito breve. Disse-me apenas que ela tinha
sido uma grande militante.»
Por mais que corresse, o passado conseguia sempre
ultrapassá-la. Mas a ex-dirigente comunista, agora vista como uma antirrevolucionária,
não enveredara por um caminho de autodestruição. As várias incursões da PIDE
pelo PCP dentro convidavam a tomar todos os cuidados. Carlos Brito recupera o
fio da história: «Como dirigente, primeiro reajo com desconfiança: por que
seria que aquela mulher estava a influenciar os jovens? Começo a falar com as
pessoas. Uma delas foi o Ruben. E pela sua conversa percebi que ela tinha uma
visão muito correta da luta de classes, da União Soviética. Duvido que fosse
estalinista, porque as pessoas que nos chegavam influenciadas por ela não
tinham esse cariz.»
ALMEIDA
MORRE EM ANGOLA
Júlio Almeida, entretanto,
com apenas 53 anos, vítima de paludismo, morrera em Angola. Carolina
visitara-o até à despedida. Mas o amor não era a sua única referência. No
decorrer da sua luta de comunista marginalizada, mantém a velha inquietação. A
sua atividade é sobretudo cultural. É tu-cá-tu-lá com Natália Correia,
frequenta o Botequim. Convive com surrealistas, como o poeta Mário Cesariny.
Como mulher, continua a impressionar. Boa parte
da sua vida está relacionada com o seu aspeto. Madalena Soares traça
o perfil da Mata Hari portuguesa: «Era muito enigmática, tinha um sorriso
fantástico. De certeza que no seu tempo fez parar o trânsito. Ela também
contribuiu para o mito. Homens e mulheres apaixonaram-se por ela. Acho que Augusto Sobral, um homossexual assumido, namorou
com ela. E a minha sogra tinha uns ciúmes horríveis dela, porque o
Ruben passava a vida na sua casa. Entre aquele grupo de jovens que a rodeavam
havia uma relação de duplicidade de âmbito sexual. Penso que aquilo que os
cativava era também a sua grande cultura. Dominava tudo, discutia sobre tudo. Uma vez, na casa dela, o Ary dos Santos, que era louco
por ela, fez-lhe um poema. Depois, fora dele, atirou-se ao chão, retirou-lhe as
sandálias e beijou-lhe os pés como se fosse uma diva. Ela ria-se
muito. Gostava de ser adulada e contribuiu para o mito. Mas isso de ela ser
espia soviética acho que é uma visão muito romântica da coisa.»
A sua história com Júlio Almeida e a traição ao partido
continuam atravessadas no seu caminho. Por mais que tentasse, não conseguia
emparedar o passado. Quem a rodeia evita deixar-se levar pela curiosidade. Para
Maria Adelaide, a primeira mulher de Ruben, esse era um capítulo encerrado: «O
grande mistério era o homem da PIDE mas não se falava sobre isso. Era um caso
embaraçoso, a arrumar. Ir atrás de um pide é mais do que a minha imaginação
alcança. Sabia que ela entrava e saía da União Soviética, o que não fazia muito
sentido depois do que fez. Mas ela falava muito pouco do passado. Eu nem sabia
que ela tinha uma filha; quando me contou, fiquei estarrecida.»
FILHA
RECUSA VIR DEPOIS DO 25 DE ABRIL
Mas a sua vida pessoal e a vida do seu país, conduzidas cada
uma delas ao seu ritmo próprio, acabam por confluir. Em 1974, abril trazia a liberdade. Essa, pelo menos, era
certa e o resto seria outra conversa. Carolina ultrapassava a etapa mais
crítica da sua vida. Pode agora ver a filha quando quer, e trazê-la, mesmo,
para Portugal. O que Helena, casada e com dois filhos, já não quer. Na verdade,
não tinha uma história agradável para lhe oferecer.
Magda, que permaneceu fiel à prima até à sua morte, em 1998,
faz a análise psicológica do drama: «A Helena esteve muitos anos sem ver a mãe.
Quando a reencontrou, tinha perdido a sua memória. Mas quando a mãe morreu,
estava cá. A Carolina estava a ver uma novela.
De repente, diz que está cansada, foi para a cama e morreu. Com a
neta é que ela conseguiu ter uma relação muito mais próxima, porque essa não
tinha nada para a culpar.»
No partido, continua a falar-se dela baixinho. O seu nome
foi retirado dos inventários históricos, das fotografias. A vida implica sempre
esperança, por mais ingénua que seja. No grupo de comunistas que, ao longo da
vida, Catarina continuou a levar para o PCP, esse sentimento era acalentado.
Maria Adelaide recorda: «O Ary, como era
homossexual e o partido era tão moralista como o resto da sociedade portuguesa,
só conseguiu entrar após o 25 de Abril. Nessa altura, como nunca
teve a noção de limites, meteu na cabeça que ela devia ser reintegrada. E
insistiu muito com a Carolina. Mas, apesar de ela ter sido sempre comunista,
nunca considerou essa hipótese.»
E, até morrer, ao contrário de outros que se tornaram
militantes noutros partidos, ela manteve-se completamente isolada da vida
política. Magda, que assistiu à conversa entre o poeta e a prima, recorda a sua
resposta: «Ainda não percebeste que, se eu fizesse parte do Comité Central,
também teria expulsado uma pessoa que se comportou como eu?».
Já Madalena Soares prefere lembrar o dia da sua insólita
despedida: «No funeral, na altura da cremação, ouve-se de repente uma salva de
tiros. Ficámos estupefactos. Era o enterro de um elemento da GNR. Podia ser um
bom homem, mas há sempre aquela conotação com a repressão. Que coincidência
contraditória da História!».
Fonte: Sol, 25 de dezembro de 2024



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