Corrupção eleitoral: candidato presidencial da extrema-direita romena alvo de buscas

Danger Force – Dana Heath, Terrence Little Gardenhigh

As autoridades judiciais romenas efetuaram buscas domiciliárias na manhã deste sábado, um dia após o Tribunal Constitucional ter anulado as eleições presidenciais devido a suspeitas de interferência russa a favor do candidato de extrema-direita

As autoridades judiciais romenas efetuaram buscas hoje de manhã, em casas, um dia após o Tribunal Constitucional ter anulado as eleições presidenciais devido a suspeitas de interferência russa a favor do candidato de extrema-direita.

"Três casas na cidade de Brasov (centro) foram revistadas em ligação com crimes de corrupção eleitoral, branqueamento de capitais e falsificação informática", segundo um comunicado do Ministério Público, que afirma suspeitar de violação da lei relativa à proibição de organizações e símbolos de caráter fascista, racista e xenófobo.

A operação visa, em particular, uma pessoa "possivelmente envolvida no financiamento ilegal da campanha eleitoral de um candidato presidencial", afirmou o Ministério Público, sem referir o nome do candidato ultranacionalista Calin Georgescu.

A investigação foi aberta esta semana após a desclassificação de documentos dos serviços secretos que sustentam as acusações do papel do TikTok na campanha, com a Rússia na linha de fogo.

Citando "múltiplas irregularidades e violações da lei eleitoral que distorceram" a votação e "a igualdade de oportunidades para os candidatos", o Tribunal Constitucional anulou na sexta-feira as eleições, para "garantir a validade e legalidade" da votação.

O Tribunal Constitucional decidiu que "todo o processo eleitoral" deve ser repetido, deixando o país da Europa de Leste em estado de choque com esta decisão sem precedentes.

Na União Europeia (UE), a última grande votação anulada pelos tribunais foi em 2016: a segunda volta das eleições presidenciais austríacas teve de ser repetida devido a irregularidades na contagem dos votos, sem que tenha sido identificada qualquer fraude.

Os serviços secretos romenos traçaram paralelos com os anteriores esforços de interferência eleitoral russa na Europa e identificaram "25 000 contas TikTok" diretamente associadas à campanha de Georgescu, que se tornaram "extremamente ativas duas semanas antes do dia das eleições".

Também mencionaram uma conta pertencente a Bogdan Peshir, que fez pagamentos de 381 000 dólares (361 000 euros) entre 24 de outubro e 24 de novembro a utilizadores da Internet que ajudaram a promover o candidato.

A origem da fortuna do homem, que trabalhou em empresas ligadas às criptomoedas, não é clara. Segundo as autoridades romenas, o "estilo de vida não corresponde" às suas atividades atuais. Anónimo até há pouco tempo, comparou o seu apoio a Calin Georgescu com o apoio de Elon Musk a Donald Trump.

Na rede social X (antigo Twitter), Donald Trump Jr, filho do próximo presidente dos Estados Unidos, condenou a anulação e considerou-a como "mais uma tentativa de manipular as eleições".

O governo norte-americano reafirmou a "confiança nas instituições" da Roménia e apelou a "um processo democrático pacífico", pedindo às partes que "mantenham a ordem constitucional".

A equipa de campanha de Georgescu recusou-se a comentar as buscas no sábado.

Vindo do nada, Georgescu venceu surpreendentemente a primeira volta, em 24 de novembro, afastando os favoritos dos partidos do governo.

A sua mensagem, "A Roménia Primeiro", tornou-se viral, apelando a uma parte da população cansada dos partidos tradicionais, considerados corruptos, e que enfrenta dificuldades económicas num dos países mais pobres da Europa.

Crítico da UE e da Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO), o ex-alto funcionário público, de 62 anos, voltou na sexta-feira a declarar nos meios de comunicação social que era a favor da suspensão total da ajuda militar à vizinha Ucrânia.

Georgeuscu denunciou também uma forma de "golpe de Estado" depois de ter sido anunciada a anulação das eleições.

No próximo domingo, Georgescu deveria enfrentar na segunda volta das presidenciais a centrista pró-europeia Elena Lasconi, que estava a subir nas sondagens e a ganhar apoio.

Lasconi afirmou que "a votação deveria ter tido lugar" e condenou uma "decisão ilegal" de um "Estado romeno que despreza a democracia".

O presidente romeno, Klaus Iohannis, que se regozijou com a decisão face às acusações "muito graves", manter-se-á em funções até à eleição do seu sucessor.

A data das novas eleições será fixada pelo futuro governo que sair das recentes eleições legislativas, que produziram um parlamento fragmentado, com um terço dos votos a favor dos partidos de extrema-direita.

Quatro partidos pró-europeus com maioria no parlamento assinaram esta semana um acordo para uma coligação de "unidade nacional", mas este ainda não foi posto em prática.

Entretanto, o social-democrata Marcel Ciolacu continua a ser o primeiro-ministro responsável pelos assuntos correntes.

Fonte: Expresso, 7 de dezembro de 2024

Humorista Zelensky é eleito presidente da Ucrânia com discurso antissistema

O ator de 41 anos, sem nenhuma experiência na política, derrota o veterano Poroshenko

E o ator tornou-se presidente. A Ucrânia decidiu neste domingo entregar as rédeas do país a Volodymyr Zelensky, um cómico sem nenhuma experiência política. Com uma campanha centrada na luta contra a corrupção, um fardo que pesa sobre o país, e contra o sistema, Zelensky, de 41 anos, arrebatou a presidência do veterano Petro Poroshenko. Com 42% dos votos apurados, tinha mais de 70% da preferência do eleitorado. O ator, que soube enganchar os eleitores ao ritmo e ao tom de espetáculo de sua campanha, tirou vantagem desse barulho e se fez com o voto do desencanto com a elite política e a oligarquia ucraniana. Zelensky liderará o último país em guerra da Europa, um país estratégico geograficamente, marcado pela tensão com a Rússia.

O descontentamento pela situação económica, os constantes escândalos de corrupção que Poroshenko não encarou em seus cinco anos de Governo e a angústia pelo conflito no Leste, que já custou a vida de cerca de 13 000 pessoas, empurraram o ator ao poder. E, se as sondagens de boca de urna estão certas, a Ucrânia passa a engrossar a lista de países que entregaram as rédeas a líderes alheios à política em um momento de agitação política em todo mundo, com o Brexit no Reino Unido, a eleição do magnata Donald Trump nos Estados Unidos ou o Movimento 5 Estrelas na Itália.

Zelensky, que interpreta exatamente um honrado professor numa série, que depois de se converter em uma estrela nas redes sociais, ganha as eleições, já vaticinou na última sexta-feira quando, no estádio olímpico de Kiev, em um debate eleitoral inédito, avisou Poroshenko: “Não sou teu oponente, sou tua sentença”. O atual presidente, magnata dos doces — conhecido assim porque fez a sua fortuna com suas empresas de chocolate— tinha uma tarefa difícil pela frente para se reeleger. Já na primeira volta teve a metade dos votos do humorista. Ainda que tivesse todas as pesquisas prévias na contramão de um resultado favorável, Poroshenko confiava no voto oculto e nos indecisos até o final.

Não conseguiu se sobrepor à raiva de uma cidadania faminta por mudanças. Para esses, havia o nome de Volodymyr Zelensky. Anna Tomak, de 25 anos, foi uma das que apostou no humorista para dirigir seu país. O seu foi um voto contra o sistema. “Precisamos de uma mudança, o país merece, temos que lutar por isso”, afirmou a jovem num colégio eleitoral de Kiev. Só 9% dos ucranianos acreditam nos seus governantes. Uma cifra que contrasta com a média dos países pós-soviéticos, que está em 48%. A média global se situa em 56%.

O humorista já acordou vencedor. Antes de votar, rodeado por um 'enxame' de jornalistas, contou que tinha comido ovos ao pequeno-almoço e que sua esposa, Yelena, tinha colocado uma canção do rapper Eminem para motivá-lo. Muito conforme com a personagem que cultivou durante toda a campanha. “Unimos a Ucrânia, não importa o que aconteça, será uma vitória para os ucranianos”, insistiu Zelensky, vestindo uma camisola branca, casaco azul e óculos de sol. Dentro, para as dezenas de câmaras que o esperavam, o ator mostrou-se sorridente com o seu boletim de voto. E isso custou-lhe uma multa de uns 170 euros, quando a polícia foi até onde se encontrava três horas depois. Na Ucrânia está proibido mostrar os boletins de voto. Um capítulo a mais para a cronologia de umas eleições complexas, cheias de picos de tensão e que foram um completo espetáculo.

Poroshenko ainda confiava numa reviravolta nas urnas. Colocando todas as fichas numa ativa campanha nos últimos dias, na qual pediu perdão por seus “erros” e na qual tratou de se mostrar bem mais próximo, esperava que o voto oculto e os indecisos revertessem a situação. Ou ao menos que não fosse um resultado tão catastrófico como parecia. Não aconteceu. Para muitos, a eleição deste domingo foi um referendo contra ele e contra o seu Governo. “Acho firmemente que durante estas eleições devemos fazer todo o possível para que o nosso progresso europeu — e o que é mais importante, a integração na NATO — não se paralise”, confiou depois de votar. “Não permitiremos que ninguém atrase o caminho das reformas”, insistiu Poroshenko, rodeado de pessoas vestidas com as tradicionais camisas bordadas Vushyvanky, que se tornaram um emblema nacional.

O magnata dos doces centrou a sua mensagem no lema “Idioma, Exército, Religião”, potenciando a língua ucraniana sobre o resto — a russa e outras minoritárias que também se falam no país, como o húngaro, o polaco ou o romano—, sinalizando aumentar o orçamento para o Exército e pressionando para separar a igreja ortodoxa ucraniana da russa.

Mas esses elementos não parecem ter convencido o eleitorado de um dos países mais pobres da Europa, onde o salário médio é de 300 euros mensais e milhões de pessoas saíram para o exterior em busca de melhores oportunidades. Em 2018, os trabalhadores no exterior enviaram para casa quase 13 mil milhões de euros em 2018, segundo o Banco Mundial, ou 11% do PIB do país.

As eleições da Ucrânia são chave para todo o espaço pós-soviético, que observa com muita atenção a concorrência política aberta inédita noutros países. Em plena tensão com a Rússia, que em 2014 anexou a península ucraniana da Crimeia, e com um conflito latente no Donbass com os separatistas apoiados pelo Kremlin, este país de 44 milhões de habitantes é um ponto estratégico para a Europa e todo o Ocidente.

A guerra no Leste foi o que motivou Ira Garkusha a votar em Poroshenko. Originária de Donetsk, ela conta que ainda tem ali grande parte de sua família a quem não pode ver. “Precisamos de um presidente, um para valer, e esse é Poroshenko”, disse depois de entregar ao filho, de três anos, o boletim de voto para que o menino a colocasse na urna. Também se preocupa com os vínculos de Zelensky com o oligarca Igor Kholomoiski, que vive autoexilado em Israel depois de um escândalo bancário na Ucrânia, e proprietário de 1+1 e outros canais de televisão, onde é transmitida a série protagonizada por Zelensky, e que lhe serviu como minutos de ouro de propaganda eleitoral. Vínculos que o ator afirma que são só profissionais e que se negou a aprofundar.

Mas este é um tema que não preocupa Vladislav, que votou na mesma mesa de voto que Zelensky, uma academia naval num bairro de altas torres, de estética comunista muito perto do rio Dnieper. "É melhor ter esperança em algo novo. O pior que poderia acontecer é que estejamos em mãos de outro oligarca, como agora. Vale a pena arriscar", disse.

Os analistas afirmam que Zelensky encontrou apoios em muitos grupos sociais: jovens, idosos, homens e mulheres; cidadãos fluentes na língua ucraniana e russa. E que conta com um eleitorado bem mais variado que o de Poroshenko. Mas o seu programa eleitoral é muito vago e o ator mal deu explicações do que pretende fazer com o Governo. Algo que, no entanto, parece ter lhe dado pontos. Ao não prometer muitas coisas em concreto, deixou que os eleitores recheiem esses vazios com suas próprias expectativas.

Fonte. El País, 22 de abril de 2019

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