Mais de metade dos satélites estão nas mãos de um único homem. Este monopólio está a deixar o mundo preocupado
El karate
el Colt y el impostor (1974) - Lieh Lo, Yang Chiang
Milhões assistiam, mas poucos faziam ideia de que estavam a
observar o começo de uma revolução. Era o ano de 2015 e a SpaceX, de Elon Musk, acabava de fazer história ao aterrar
um foguetão pela primeira vez. Quatro anos depois, em 2019, esse mesmo modelo
de foguetão, o Falcon 9,
transportava para a órbita da terra os primeiros satélites do programa Starlink com uma promessa ambiciosa:
levar internet de alta velocidade a qualquer canto do planeta. Hoje é muito
mais do que isso. Para uns
representa uma nova esperança de acesso ao mundo, para outros é uma questão de
vida ou morte. E isso está a deixar muita gente nervosa, um pouco por
todo o mundo. E o perigo da dependência é real, com os especialistas a
alertarem que países inteiros correm “um risco muito elevado” de ficar
reféns da empresa de um homem que tem mais de metade dos satélites em órbita e
acaba de entrar no círculo restrito da política americana.
“É motivo para o mundo ficar preocupado, incluindo para nós
na Europa. O que é que acontece a uma sociedade se decidir investir tudo em
Elon Musk? É dar o poder a um indivíduo de cortar o sinal a uma nação com quem
ele não concorda politicamente. Hoje ele luta pela nossa causa e amanhã pode
lutar por outra causa”, alerta o especialista em cibersegurança Nuno
Mateus-Coelho, em entrevista à CNN Portugal.
É difícil minimizar a velocidade a que o domínio espacial de
Elon Musk se está a fazer sentir. Menos de cinco anos depois de ter lançado o primeiro satélite para o
espaço, a SpaceX colocou em órbita mais sete mil satélites, dez vezes mais do
que o seu principal rival, dominando 62% do mercado. Estes satélites
enviam um sinal de internet de alta velocidade para os terminais em terra. Em
média, a empresa avaliada em 255 mil milhões de dólares envia para o espaço
três satélites por dia e já opera em 102 países. Mas não quer ficar por aqui. O
plano de Musk antevê o envio de 42 mil satélites de baixa órbita nos próximos
anos para completar a rede, estando os competidores a uma distância
considerável.
Nos corredores de Bruxelas o receio tornou-se palpável.
Principalmente após a recente explosão de influência política do dono da SpaceX
nos Estados Unidos. Elon Musk, o homem mais rico do mundo, tornou-se um dos
principais doadores financeiros da campanha de Donald Trump e acabou por ser
nomeado pelo candidato republicano para chefiar um novo corpo do governo
destinado a “limpar” as regulações americanas: o Departamento para a Eficiência
Governamental.
Só que esta combinação de poder político com um monopólio da
economia espacial que depende de contratos bilionários com a NASA está a fazer
com que muitos na Europa temam que o multimilionário venha a ter poderes
comparados ao de um país. Ao mesmo tempo que a proximidade a Trump, a quem Elon
Musk doou mais de 134 milhões de euros para a sua campanha, levanta questões
acerca de um possível conflito de interesses que pode resultar num círculo
vicioso de favores políticos e vantagens regulatórias, os especialistas alertam para o perigo
da rede Starlink ser utilizada como ferramenta de política externa americana,
prejudicando países rivais ou críticos.
“O futuro mostra que a tecnologia de comunicações mais
robusta é a de satélite. Só que isso tem perigos e um deles é entregar tanto
poder para as mãos de uma só pessoa, que passa a ter o poder de bloquear o
acesso a uma nação inteira. Dezenas de países, exércitos e populações estão a
ficar dependentes desta tecnologia. O que acontece se Musk fechar a torneira?”, questiona o
especialista em cibersegurança Nuno Mateus-Coelho.
Quando
a Rússia invadiu a Ucrânia, no dia 24 de fevereiro de 2022, o exército de
Moscovo conseguiu interferir com sucesso na rede de comunicação dos militares
ucranianos, após um
gigantesco ciberataque contra o satélite da Viasat utilizado por Kiev.
Sem comunicações, qualquer coordenação militar era impossível e a Ucrânia
corria o risco de cair. A situação era dramática e o ministro da Transformação
Digital ucraniano, Mykhailo Fedorov, recorreu à rede social X, também
propriedade de Musk, para pedir ajuda à SpaceX. A resposta de Musk foi rápida e
uma lufada de esperança para a luta ucraniana. “O Starlink está agora ativo na Ucrânia. Mais terminais a
caminho”, respondeu o empresário. Desde então, mais de 42 mil
terminais Starlink foram enviados para a Ucrânia para ajudar no esforço de
guerra, desempenhando um papel fundamental para os soldados ucranianos.
A
tecnologia de satélites de baixa órbita demonstrou ser bastante resiliente em
contexto de guerra. Frustrados com a incapacidade de quebrar as
comunicações ucranianas, o exército russo começou a tentar interferir
diretamente com os satélites americanos recorrendo a equipamentos cada vez mais
fortes e sofisticados. Só que
o elevado número de satélites que formam a constelação da Starlink tornam este
serviço bastante capaz de resistir a interferência. Quando um
satélite individual é interrompido, o terminal em terra conecta-se de imediato
com outro satélite da rede.
E o receio de que Elon Musk possa utilizar o monopólio que
criou para influenciar os destinos de países inteiros revelou-se durante a
guerra na Ucrânia. O empresário restringiu pessoalmente a capacidade da Ucrânia
de aceder à rede do Starlink para desempenhar operações militares que
considerava perigosas e que podiam escalar o conflito. O principal caso aconteceu em 2023,
quando o empresário decidiu recusar um pedido de urgência para a Ucrânia
conseguir operar na península ocupada da Crimeia, que tinha como
objetivo atacar com drones navais uma aglomeração de navios militares da frota
do Mar Negro. Musk terá dito aos líderes ucranianos que o ataque, que descreveu
como “um mini Pearl Harbor”, ia “longe demais” e poderia causar “uma derrota estratégica”
do Kremlin, podendo levar a uma forte retaliação.
Mais tarde, durante
a contraofensiva ucraniana que recuperou uma vasta quantidade de território na
região de Kharkiv, outra medida tomada por Elon Musk foi paga com vidas de
soldados ucranianos. Isto porque Musk decidiu impor um sistema de geofencing
que limitava o acesso do Starlink aos locais ocupados pelos militares
ucranianos. Isso acabou por fazer com que, à medida que as unidades mais
avançadas do exército ucraniano progrediam, ficavam completamente sem acesso à
rede de comunicação. Estas restrições só são possíveis porque a SpaceX tem
acesso à localização, movimento e altitude de todos os seus terminais. O
contacto só foi reposto depois da intervenção do ministro Mikhailo Fedorov, que
pediu para que o serviço fosse reposto.
“Elon Musk não pode ser odiado pelo problema que criou na
Crimeia, até porque quem salvou a Ucrânia no início da guerra foi ele. Esta
dependência cria riscos, mas, neste momento, não há alternativa”, diz à CNN
Portugal o major-general Arnaut Moreira, especialista em geoestratégia, que
recentemente publicou o trabalho "Desafios Tecnológicos à Segurança no Sec
XXI" no centro de estudos EuroDefense.
Apesar de ter protestado, a Ucrânia pouco pode fazer. Elon
Musk tem a última palavra. Só que o coro de críticas cresceu quando se tornou
público que o empresário
manteve contacto regular por telefone com o presidente russo durante
os últimos dois anos. Numa dessas conversas, Vladimir Putin terá apelado ao dono da SpaceX para que
não ativasse a cobertura da rede Starlink no arquipélago de Taiwan,
de forma a não provocar o aliado russo, Xi Jinping. Durante meses, o governo de
Taiwan tentou obter acesso a este serviço, mas sem sucesso.
Só que para o arquipélago, que convive com a constante
ameaça iminente de um bloqueio naval da China, uma rede de satélites de baixa
órbita pode ser ainda mais crucial do que para a Ucrânia. Pequim reclama a
soberania de Taiwan e prometeu anexar este território, até mesmo pela via
militar. A liderança militar taiwanesa teme que, em caso de invasão, os cabos
subaquáticos que fornecem as comunicações ao arquipélago sejam um dos primeiros
alvos de Pequim, deixando a ilha às escuras. Em resposta à intransigência de
Musk, que tem na China a maior fábrica de outra das suas empresas, o governo de Taipé optou por construir
a sua própria rede de satélites.
Só que o domínio da SpaceX, particularmente no campo do
transporte de foguetões reutilizáveis, fez com que a empresa reduzisse
drasticamente o preço por lançamento. Mesmo as empresas que tentam competir pelo mercado dos satélites de
órbita baixa são obrigadas a recorrer ao serviço de lançamento da SpaceX.
Além disso, existem poucas pessoas que conseguem competir com a capacidade de
Elon Musk em financiar o projeto da SpaceX através de outras empresas como a
Tesla, X, Neuralink ou a Boring Company, que juntas fazem dele o homem mais
rico do mundo e lhe dão uma avaliação em bolsa de 323 mil milhões de dólares.
“É preocupante existir uma cobertura espacial com uma
dimensão tão grande. Quando falamos destes valores, a capacidade de outras
empresas aparecerem e competirem neste mercado reduz-se significativamente. O
domínio absoluto do mercado vai dificultar muito a entrada de novas empresas”,
avisa o major-general Arnaut Moreira.
As únicas
alternativas estão
a ser encontradas a nível estatal ou em parcerias com os privados. Um desses casos é o da SpaceSail,
uma tentativa chinesa de rivalizar com a empresa americana. Sediada em Xangai e
lançada em 2023, conta
apenas com 36 satélites em órbita, embora o objetivo seja chegar aos 15 mil até 2030.
Em novembro, o governo brasileiro assinou um acordo de cooperação com esta
empresa para diminuir a dependência da Starlink, com quem o executivo de Lula
da Silva tem cultivado uma relação difícil.
Mas esta alternativa não agrada a todos. Na União Europeia, a China é cada vez
mais um rival estratégico e a ideia de trocar a dependência de um
sistema privado norte-americano por uma empresa estatal chinesa não é vista com
bons olhos. Não só as comunicações europeias por satélite poderiam ficar reféns
dos objetivos geopolíticos chineses, como poderiam deixar entreaberto um
alçapão a todas as comunicações militares, políticas e económicas que
utilizassem essa rede. Um raciocínio semelhante levou praticamente todos os
países europeus a colocar fortes restrições sobre os fabricantes chineses nos
equipamentos da tecnologia 5G. Só que a opção de não contar com o apoio de uma rede de satélites de baixa órbita, a operar a uma altitude
entre os 340 e os 1200 km
da terra, também coloca sérios riscos de segurança aos países
da União Europeia numa altura crítica.
No final de novembro, duas ligações cruciais de cabos submarinos que ligam a Suécia à
Lituânia e a Alemanha à Finlândia foram deliberadamente cortadas naquilo que os
investigadores consideram ter sido um ato de sabotagem russo. Quando os navios
militares da NATO chegaram ao local detetaram a presença de um navio cargueiro chinês, que
tinha partido de um porto russo e estava a operar com sistema de identificação
desligado, e que demonstrava sinais de ter utilizado a âncora da embarcação
para prender os cabos e danificá-los. De acordo com as autoridades, o navio arrastou a infraestrutura
durante mais de 160 quilómetros.
Em Portugal, por exemplo, este cenário seria particularmente
dramático. Nas águas
nacionais passam 14 cabos submarinos, incluindo o maior do mundo. O
seu corte pode fazer com que centenas de milhares de casas fiquem sem Internet,
telemóveis sem redes sociais, hospitais deixem de operar e economias entrem em
crise profunda. E existem indícios de que este cenário pode estar em cima da
mesa. O chefe do Estado Maior
da Armada, o almirante Gouveia e Melo, admitiu que dezenas de navios espiões
estão a estudar estas ligações. E o próprio vice-presidente do
Conselho de Segurança russo Dmitry Medvedev garante que a Rússia não terá
“constrangimentos morais” em destruir cabos de comunicação “inimigos”.
Este panorama, só veio reforçar na Europa a ideia de que é
necessário um sistema alternativo, mais robusto a este tipo de interferências. A
solução encontrada para quebrar a dependência da rede de Elon Musk é a IRIS² (Infrastructure for
Resilience, Interconnectivity and Security by Satellite). Este projeto de 6 mil
milhões de euros conta fazer o primeiro lançamento em 2025 e, em 2027, espera ter lançado 170
satélites de baixa órbita. O serviço pretende fornecer aos
Estados-membros ligações seguras para uso militar e internet “em todo o lado,
incluindo nas regiões mais recônditas da UE e de África”. Mas, acima de tudo,
deve permitir “mantê-la em caso de crash das infraestruturas terrestres”.
Ainda assim, este projeto não aproxima a União Europeia de
uma tecnologia fundamental para tornar a indústria espacial lucrativa: a
capacidade de reutilizar foguetões após o lançamento. Antes
de Elon Musk aparecer, a União Europeia dominava o mercado de lançamentos
espaciais. Só que a decisão da Agência Espacial Europeia de não desenvolver
tecnologia de foguetões reutilizáveis fez com que a Europa perdesse a sua
vantagem. Agora, o velho continente corre atrás do prejuízo, com
os planos para criar o Ariane
Next, um foguete reutilizável capaz de rivalizar com a tecnologia da
SpaceX. “É o nosso Falcon 9”, sugeriu o então ministro da Economia francês,
Bruno Le Maire. O objetivo do projeto é reduzir os custos para metade, só que
este sistema só deve estar pronto depois de 2030, mais de uma década depois do
primeiro sucesso do Falcon 9.
"Na Europa não temos nada igual. É utopia dizer que em
2027, com o lançamento dos primeiros satélites, vamos estar perto de competir.
É preciso infraestrutura para criar a infraestrutura. Os resultados só serão
visíveis a partir de 2030, mas por essa altura a SpaceX terá mais do dobro do
que tem hoje”, sublinha Nuno Mateus Coelho.
Fonte: CNN Portugal, 6 de dezembro de 2024


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