Como um dos países mais pobres do mundo está a usar uma tática do Kremlin para ocupar parte de um dos maiores países do mundo
Pirates of
the Caribbean: At World's End (2007) - Orlando Bloom, Naomie Harris
Um ditador africano tem um plano para redesenhar o mapa em
África pela força. Um grupo de rebeldes pouco conhecido, apelidado de M23, ocupou uma cidade com dois milhões de
habitantes, no leste da República Democrática do Congo, junto à fronteira com o
Ruanda, sendo estes dois dos países mais pobres do mundo, de acordo com o Fundo
Monetário Internacional (FMI). A origem do grupo é desconhecida para a maior
parte das pessoas, mas o seu propósito e as suas
operações são em semelhantes às ações de Vladimir Putin na região ucraniana do
Donbass, em 2014.
A República Democrática do Congo, o 11.º maior país do
mundo, conhece bem a guerra. Na província de Kivu do Norte, grupos armados e o
exército do Congo lutam uma violenta batalha que fez milhares de mortos e
deslocou mais de um milhão de pessoas. Este mês, o grupo rebelde M23 renovou
uma ofensiva relâmpago que apanhou as forças do regime congolês de surpresa,
capturando Goma, uma cidade com mais de dois milhões de habitantes. Estes rebeldes contam com o poderoso apoio da ditadura de
Paul Kagame, ditador do Ruanda.
A justificação do Ruanda para apoiar estes rebeldes está
ligada ao mais trágico evento da história do país, quando, entre abril e julho
de 1994, um grupo de extremistas da maioria étnica hutu massacrou mais de 800
mil pessoas da minoria tutsi. O extermínio no Ruanda só terminou quando o atual
líder do Ruanda, Paul Kagame, liderou um movimento armado para derrubar o
governo.
O Ruanda insiste que os seus interesses no Kivu do Norte
estão ligados com a necessidade de “erradicar” os responsáveis que fugiram para
a região após o genocídio de 1994. Mas acima de tudo, argumenta Paul Kagame,
para proteger a minoria tutsi, que foi vítima de uma das maiores matanças das
últimas décadas. E o seu plano para o fazer podia ter sido desenhado no
Kremlin.
Em 2014, em pleno continente
europeu, Vladimir Putin pôs em prática um plano semelhante. Através
de grupos armados separatistas, o Kremlin lançou uma ofensiva militar na região
do Donbass, com a justificação da proteção dos cidadãos de etnia russa que
habitavam na região. O presidente russo negou sempre qualquer envolvimento no
apoio através da utilização de “pequenos homens verdes”, militares russos
enviados para prestar apoio aos separatistas, mas que não utilizavam qualquer
insígnia militar nos seus camuflados.
Sete anos mais tarde, durante a sua habitual conferência
anual, Vladimir Putin admitiu que a Rússia tinha “pessoas” no leste da Ucrânia
que “resolviam certas questões”, incluindo “no campo militar”. Poucos sabiam,
mas nessa altura o Kremlin preparava-se para reconhecer a independência destas regiões,
anexá-las e lançar uma das maiores guerras desde o fim da Segunda Guerra
Mundial.
Algo muito semelhante foi
aplicado por Paul Kagame. Durante anos, os rebeldes do M23 foram
armados, treinados e dirigidos por homens do regime do Ruanda. O regime de Kagame assenta numa ditadura militar
musculada, com uma das forças armadas mais disciplinadas e mais
preparadas do continente. Estes militares foram cruciais na preparação e na
eficácia dos ataques do movimento armado. Na verdade, mais do que proteger a
população tutsi, o grupo rebelde permitiu ao regime de Kagama ocupar, de facto,
uma vasta parte do território do Congo, apesar de ser uma nação bem mais
pequena.
De acordo com as Nações Unidas, milhares de militares do
Ruanda terão atravessado a fronteira para ajudar as operações militares no
Congo. E os resultados estão a ser devastadores.
Desde o final de dezembro, mais de 400 mil pessoas viram-se obrigadas a fugir
das suas casas com tudo o que tinham, para a escapar à impunidade dos rebeldes
armados, segundo os Médicos Sem Fronteiras.
O exército congolês, minado pela indisciplina, falta de
recursos e desorganização generalizada fruto de uma situação política complexa,
pouco conseguiu fazer para coordenar uma resposta. Imagens partilhadas nas
redes sociais mostram que os rebeldes conseguiram contrariar não só o exército
congolês, mas também a sua força aérea. Num vídeo é possível ver um Su-25 da
República Democrática do Congo ser atingido por um míssil antiaéreo, resultando
na destruição da aeronave. Um outro vídeo dá conta de que centenas de mercenários romenos ao serviço do exército congolês teriam sido
capturados pelas forças rebeldes.
A região ocupada pelos rebeldes é rica em minerais como ouro, estanho e coltan,
um metal precioso fundamental para o fabrico de smartphones e de veículos
elétricos. Nos últimos anos, o grupo M23 ocupou várias regiões mineiras e,
segundo as Nações Unidas, envia 120 toneladas de coltan por mês para o Ruanda.
Jason Stearns, um antigo investigador da ONU especialista na República
Democrática do Congo, afirmou à Reuters que a exportação de minerais precisos
do Ruanda duplicou em apenas dois anos, com uma parte significativa dessas
exportações a virem daquele território. O Ruanda nega qualquer alegação de que
esteja a explorar os recursos naturais do vizinho.
Ao contrário da Rússia, o Ruanda não tornou públicas as suas
pretensões de reconhecer a independência da região ou de lançar oficialmente o
seu exército para ocupar o território congolês. Mas na prática, isso pode não
ser sequer necessário para o regime de Kagame. O governo congolês está a
atravessar um longo período de instabilidade e o seu exército não é capaz de
fazer frente às dezenas de grupos armados que ocupam partes do seu território e
exploram os seus recursos.
Ainda assim, não é certo que Paul Kagame não queira
aproveitar a vitória para ir mais além de Goma. E numa época em que as
principais potências mundiais estão a voltar a focar o seu discurso na
conquista territorial na Ásia, na Europa e nos Estados Unidos, é cada vez menos
provável encontrar países dispostos a travar a aquisição de território pela
força.
Fonte: CNN Portugal, 29 de janeiro de 2025

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