Talibãs denunciam "dois pesos, duas medidas" do procurador do TPI
Pirates of
the Caribbean: Dead Man's Chest (2006) – Keira Knightley
As
autoridades afegãs denunciaram nesta sexta-feira os dois pesos, duas medidas»
de que dizem ser vítimas, depois do procurador do Tribunal Penal Internacional
(TPI) ter anunciado na Quinta-feira que iria pedir mandados de prisão contra
líderes talibãs. Cabul considerou que em vez disso, o Tribunal de Haia deveria
julgar os Estados Unidos e Israel "pelas guerras"
O procurador Karim Khan anunciou ontem que iria pedir
mandados de prisão contra o líder supremo dos talibãs, Hibatullah Akhundzada, e o presidente do
Supremo Tribunal do Afeganistão, Abdul Hakim
Haqqani, por perseguição a mulheres, um ato que é considerado um
Crime contra a Humanidade.
"Esses mandados não têm base legal, traduzem dois pesos
e duas medidas e têm motivações políticas", disse o Ministério afegão dos
Negócios Estrangeiros nas redes sociais, ao considerar "lamentável que esta instituição ignore os Crimes de
Guerra e os Crimes contra a Humanidade cometidos por forças estrangeiras e os
seus aliados locais durante os 20 anos de ocupação do Afeganistão".
Apesar de o Afeganistão ter reconhecido a autoridade do TPI
em 2003, o governo comentou ainda que esta entidade "não deveria tentar
impor uma interpretação específica dos Direitos Humanos ao mundo inteiro,
ignorando os valores religiosos e nacionais dos povos do resto do mundo".
Reagindo igualmente à decisão do procurador do TPI, o
vice-ministro do Interior Mohammed Nabi Omari lançou "eles não nos
assustam com o tribunal". Á margem de um evento no leste do seu país, o governante que em tempos esteve preso na prisão
americana de Guantánamo considerou
que "se esses tribunais fossem justos e imparciais, teriam levado a
América para o banco dos réus porque ela causa as guerras e os problemas do
mundo".
Eles também teriam levado perante os juízes "o
primeiro-ministro israelita que matou dezenas de milhares de palestinianos
inocentes", disse ainda o vice-ministro afegão do Interior, aludindo à
ofensiva israelita em Gaza na sequência dos ataques do Hamas a 7 de outubro de
2023.
Refira-se, contudo, que o TPI chegou a emitir em novembro de 2024 um mandado de
captura contra o chefe do governo israelita, por suspeita de Crimes
contra a Humanidade e Crimes de Guerra na Faixa de Gaza.
Desde que voltaram ao poder em 2021 -com a derrota das
autoridades apoiadas pela comunidade internacional e a retirada das tropas
americanas do país- os talibãs promulgaram várias leis que violam os direitos
das mulheres, como a proibição
de frequentarem o ensino secundário e a universidade, a proibição de saírem
para rua sem serem acompanhadas, a proibição de cantarem, a proibição de
falarem em público, para além de terem que usar véu integral.
A ONU qualifica esta situação de "apartheid de
género". O procurador Karim Khan acredita que existem motivos razoáveis para
acreditar que Hibatullah Akhundzada e Abdul Hakim Haqqani têm
"responsabilidade penal pelo Crime contra a Humanidade de perseguição
relacionada com o género".
Na sequência do pedido do procurador do TPI, os juízes desta
entidade sediada em Haia devem agora examinar os seus argumentos antes de
decidir se vão efetivamente emitir mandados de prisão. Este processo pode levar
semanas senão mesmo meses.
Fonte: RFI, 24 de janeiro de 2025




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