A esquerda portuguesa abandonou os seus ideais

Perry Mason (1957-1966) - Barbara Hale, Raymond Burr

Para os homens da minha geração e para os de gerações anteriores a esquerda republicana (não comunista) era detentora de um património moral invejável e de uma consistente e respeitabilíssima ideologia assente nos princípios da igualdade dos cidadãos, da laicidade, da escola pública como educadora e da não-discriminação. A herança da modernidade era o seu distintivo. O mesmo se verificou globalmente nos outros países europeus, ressalvados diferentes enquadramentos históricos, mas ao lado dos quais tem de se passar aqui.

Não vem ao caso saber se os homens (e mulheres, não vá ser mal interpretado) da I República portuguesa entre 1910 e 1926 conseguiram levar a cabo tão ambicioso programa. Em minha opinião, não, e o que fizeram teve até efeitos contrários na economia e na instrução, apesar do palavreado intrujão com o qual inundaram o país. Tal era o medo que tinham da província que reduziram o país a Lisboa; não desenvolveram o interior nem o alfabetizaram. O Partido Republicano não era mais do que uma seita de jacobinos elitistas e sectários que atrasou décadas o desenvolvimento global do país. Mas não quero fazer aqui o balanço histórico do que foi a primeira república portuguesa. Chamo apenas a atenção para o facto de a estratégia tão portuguesa de a enaltecer e de culpar o período que se lhe seguiu, dito «fascista», pelos falhanços do presente não é intelectualmente séria; a democracia portuguesa não precisa de viver de mentiras históricas.

A realidade é que independentemente do rotundo fracasso das suas realizações, a esquerda republicana quis sempre apresentar-se – e pela ordem que segue – como a herdeira do iluminismo contra o preconceito social, o obscurantismo religioso e o poder não legitimado. Liberdades civis e políticas, igualdade dos cidadãos, sufrágio se não universal, pelo menos alargado, democracia parlamentar, laicidade do Estado, escola pública gratuita e obrigatória para níveis não superiores, eis o programa emancipador de que sempre se gabou e com toda a razão. Foi esta a ética constitucional e (mais tarde) republicana, o melhor que gerou e que no nosso país começa (aos tropeções) em 1822 e, sob outra versão, em 1836. Foi também esta a ética das 3 primeiras repúblicas francesas só que estas, apesar de tudo, conseguiram, resultados visíveis e, apesar de tudo, positivos.

Só que as coisas modificaram-se muito. A esquerda radical de origem vintista e setembrista que veio a presidir ao Partido Republicano de Afonso Costa, e que se reproduz in vitro nos nossos dias através de exemplares clonados cada vez mais caricatos, não se apercebeu disso.

O que se verifica hoje é muito diferente. A esquerda continua presa ao passado anticlerical e jacobino. A direita, mais lúcida, a moderada e mesma a considerada mais radical fez hoje sua e com toda a legitimidade, porque aprendeu e assim ganhou eleições, aquela herança tradicional da esquerda republicana. Ninguém põe em causa aqueles valores constantes, aliás, dos programas de todos os partidos ditos de direita e do centro. Nem sempre as soluções coincidem, como é óbvio, mas o essencial está lá. A direita fez sua a antiga ética republicana.

E a esquerda? A história fugiu-lhe. Perante a complexidade fragmentária da sociedade atual, a esquerda esqueceu-se da sua herança tradicional. Vejamos.

Pelo que diz respeito à igualdade, a esquerda substituiu-a hoje pela diferença, de modo a piscar o olho eleitoral às minorias sexuais e religiosas. Parte agora do princípio de que os cidadãos não são iguais perante a lei. Proclama o direito à «diferença» das minorias». Em vez da universalidade do regime aplicável aos cidadãos pretende discriminações positivas a favor dos mais «desfavorecidos», dos «perseguidos» e dos «oprimidos». Já não há cidadãos; há grupos minoritários em desalinho de que a esquerda quer ser patrona. O universalismo próprio do cidadão republicano foi substituído pela particularidade da raça, da origem, do sexo e da religião, critérios da «opressão», como se os brancos, cristãos e heterossexuais fossem à partida culpados de tal heresia e sem redenção. Para a esquerda os indivíduos são hoje julgados por aqueles critérios. Deixaram de ser apenas cidadão iguais aos outros. Veio aqui ao de cima o novo totalitarismo woke.

Quanto ao ensino, a mudança foi radical. A escola atual deixou de ser o lugar da formação dos cidadãos e da aprendizagem da cidadania. Foi massificada e serve mais para que os pais parqueiem os alunos do que para a transmissão dos conhecimentos indispensáveis à cultura e à cidadania. Imperam a mentira institucionalizada quanto à nossa história, o facilitismo, de modo a apresentar estatísticas favoráveis, e daí o achincalhamento, a proletarização e a desautorização dos professores tudo em nome de uma histeria igualitária que desvia a escola do seu papel na formação cultural e cívica. Os sucessivos governos socialistas, servidos na educação por verdadeiros australopitecos, têm destruído a escola republicana. A juventude em idade escolar está hoje longe da razão iluminista. Pudera; os programas são tudo menos formativos, verdadeiros e racionais e as escolas estão praticamente em autogestão. Os professores são mal vistos se ainda tiveram alguma coisa para ensinar e têm medo dos alunos e dos respetivos pais indignados. Não passam de uns indivíduos indesejáveis que aparecem nas escolas a atrapalhar o serviço. A preferência, para quem pode, pela escola privada não admira. Que o digam alguns dos principais dirigentes socialistas e até esquerdistas. Como querem bons níveis de educação para os respetivos filhos optam obviamente pela escola privada. A igualdade de oportunidades pode esperar. Não admira; já durante a 1ª república assim era.

Quanto à laicidade, as coisas assumiram proporções incomensuráveis. Longe vão os tempos em que a esquerda reivindicava a neutralidade religiosa de modo a não prejudicar a autonomia racional do cidadão. Mas a laicidade é agora condenada por ser islamofóbica. As coisas vão ao ponto da defesa do véu islâmico nas escolas em nome do direito à «diferença», e do apoio a autênticas procissões em nome de um qualquer «mártir» palestiniano, com o mesmo fervor que se via dantes na procissão do Senhor dos Passos da Graça. A esquerda fecha os olhos à exploração sexual das mulheres islâmicas e olha com ar ternurento para o patriarcado e a violência machista dos respetivos maridos e familiares, a pretexto de «liberdade» religiosa. Tudo vale contra os cristãos e os judeus, esses assassinos formados na leitura da malfadada Bíblia. O antissemitismo já é um lugar-comum na nova esquerda. A descristianização já o é desde muito antes. Mais um passo e a esquerda portuguesa deixa de ser laica e converte-se ao islão de modo a combater o «fascismo».

O património da velha esquerda republicana era o que de melhor a esquerda (não comunista) tinha. Tanto assim era que foi sob diversas vestes por todos adotado e hoje é critério cultural e civilizacional comum. Mas parece que se está a separar dele. Virou costas ao universalismo, ao papel formador da escola pública e à laicidade. Em vez de investir na racionalidade prefere alimentar o ressentimento dos indivíduos com mais dificuldades de viver nas exigentes e competitivas sociedades ocidentais. Ainda não percebeu que os povos ex-colonizados e outros, com quem se diz muito solidária no ódio ao ocidente, se não for o iluminismo europeu depressa voltam ao fundamentalismo religioso e ao tribalismo, mesmo que misturado com a tecnologia de ponta. E isto por uma razão muito simples; o que eles odeiam no ocidente não é o nosso nível de vida. São as nossas liberdades que os incomodam. Não me admiraria nada de ver um dia no paredão do Estoril, a que vou frequentemente, uma jovem muçulmana de burka com um telemóvel de última geração na mão a digitalizar uma explosão.

O esquerdismo ainda não percebeu que está cada vez mais próximo de uma visão schmittiana da política, desta vez não pró-ocidental, mas antiocidental, baseada na agressividade do grupo eleito, na retórica do inimigo metafísico e na ausência de valores universais. Vai pagar caro.

Se não toma cuidado a velha e respeitável esquerda republicana (não comunista, insista-se) ainda acaba por ser um apêndice de um extremismo esquerdófilo e populista, composto por comunistas, trotskistas, anarquistas, terceiro-mundistas, trânsfugas do maoísmo de há sessenta anos, guevaristas, «antissionistas» e tutti quanti, sempre fascinado por movimentos terroristas e regimes ditatoriais, tão influentes hoje no respeitabilíssimo PS, personagens que R. Scruton identifica magistralmente como «tolos, impostores e incendiários». Em vez de ética republicana poderemos ter populismo esquerdista como sucede em França. O chefe da atual esquerda francesa, que é hoje e cada vez mais o antigo socialista Jean-Luc Mélenchon, não se importa, aliás, nada que lhe chamem populista; pelo contrário.

A esquerda republicana tradicional parece refratária a esta realidade; faltou à chamada, como se o seu tempo tivesse passado. Mas não passou nada e é até mais necessária que nunca. Acorde a tempo. A Europa de hoje está à sua espera e não deve chegar atrasada. Tem muito a que meter ombros: problemas religiosos que logo se transformam em raciais, ambições desmesuradas de novos líderes alienígenas que querem dela prescindir e renegar o que lhe devem que é, afinal, tudo, novos imperialismos intrujões e falsos profetas, crises financeiras, total falta de civismo, corrupção política generalizada, alterações climáticas e fraudes cibernéticas.

Todo este desconchavo é no nosso pobre país quotidianamente alimentado por pseudointelectuais televisíveis, estúpidos e imbecis, tão abundantes no nosso país, divididos entre banalidades e anúncios comerciais. À falta de formação intelectual e crítica limitam-se a lançar faíscas obviamente que contra o culpado mais à mão, ou seja, o «fascismo» que povoa e justifica pela negativa a sua própria ignorância e estupidez. Quem avança hoje o argumento ad hitlerum é ignorante e estúpido. O problema é muito mais complexo. Estamos perante conflitos irredutíveis entre sistemas de valores e outros desmandos geopolíticos que só dificultam hipóteses de entendimento. Só a boa e velha ética republicana tolerante e humanista nos salvará. A democracia é um regime frágil e necessita dela. É uma chave para a Europa e para a razão.

O radicalismo extremista do jacobino Afonso Costa continua presente e cada vez mais influente. Mas Bernardino Machado e António José de Almeida têm e terão uma importante palavra a dizer. Os velhos republicanos históricos racionalistas, positivistas, democratas, patriotas, laicos e (mais tarde) antissalazaristas, dos quais ainda conheci alguns e bem próximos de mim, devem ser recordados e valorizados, mas suspeito que se vissem o que se passa hoje logo preferiam voltar depressa ao túmulo, não sem antes enjeitarem os seus pretensos descendentes.

Luiz Cabral de Moncada

Fonte: Observador, 22 de fevereiro de 2025

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