Comprou 14 mil euros em livros de Sócrates, agora volta a ser juiz
Vera
O
regresso de José Conde Rodrigues à atividade que exerceu durante menos de dois
anos, antes de integrar os governos do PS, foi apreciado numa reunião do
Conselho Superior dos Tribunais Administrativos e Fiscais a 17 de janeiro
José Conde Rodrigues foi presidente da Câmara Municipal do
Cartaxo, secretário de Estado na Cultura, na Justiça e na Administração Interna
e juiz, mas os seus verdadeiros 15 minutos de
fama devem-se a ter sido acusado
pelo Ministério Público de ter despendido 13 657
mil euros na compra de 729 publicações – livros, jornais e revistas –, pagas
através de cartões de crédito que lhe tinham sido atribuídos pelo Estado.
Foi condenado em primeira instância a quatro anos de pena suspensa e a
pagar seis mil euros (75 dias de multa à taxa diária de 80 euros) e a
indemnizar o Estado em 13 650 euros, mas foi absolvido quando o caso chegou ao
Tribunal da Relação de Lisboa. Por falta de provas, que a biblioteca em causa
nunca apareceu.
Acrescente-se que na origem do caso está uma queixa apresentada no
Departamento de Investigação e Ação Penal pela Associação Sindical dos Juízes
Portugueses, então liderada pelo desembargador António Martins, atual
conselheiro e vice-presidente do Tribunal de Contas.
Queixavam-se dos gastos em cartões com crédito de ministros
e secretários de Estado dos governos de José Sócrates.
Acabaram por atingir um juiz. Conde Rodrigues é licenciado
em Direito pela Faculdade de Direito da Universidade Clássica de Lisboa e
doutorando na mesma área na Universidade Católica Portuguesa, mas iniciou a
carreira no setor financeiro, na Companhia Europeia de Seguros (Grupo Crédit
Suisse), onde regressou depois de funções públicas, as referidas e outras, como
o ter sido vogal do Conselho Superior do Ministério Público.
Está também na lista de árbitros do Tribunal de Lisboa.
Ingressou na magistratura em dezembro de 2002 e foi nomeado juiz de Direito nos
Tribunais Administrativos e Fiscais em junho de 2003, beneficiando de uma
licença de longa duração desde julho de 2011. Até agora, porque vai voltar.
O regresso de José Conde Rodrigues à atividade que exerceu
durante menos de dois anos, antes de integrar os governos do PS, foi apreciado
numa reunião do Conselho Superior dos Tribunais Administrativos e Fiscais a 17
de janeiro.
O pedido, feito pelo próprio, foi diferido, uma vez
“comprovado que seja que cessou todas as funções desempenhadas em múltiplos
organismos”. A deliberação da autorização foi publicada em Diário da
República há duas semanas.
Nela se pode ler que, até à abertura do próximo movimento
judicial ordinário, ao qual “terá obrigatoriamente de concorrer”, Conde
Rodrigues é colocado no Tribunal Administrativo e Fiscal de Sintra, no juízo
administrativo comum, com efeitos à data da posse.
Depois de ter deixado as funções governativas, também foi
indicado pelo PS para ser juiz do Tribunal Constitucional, em 2012, mas a sua
candidatura acabaria por não vingar e desencadear uma polémica no Parlamento.
Assunção Esteves, presidente da Assembleia da República na altura, vetou o nome
proposto pelos socialistas, manifestando “dúvidas” sobre a “qualidade” de Conde
Rodrigues para ser juiz. O próprio desistiu a corrida. Agora, José Conde
Rodrigues vai voltar a ser juiz.
Fonte: O Jornal Económico, 21 de fevereiro de 2025

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