Se houver guerra em Taiwan entre a China e os EUA, este relatório polémico diz que a América ganha
Perry Mason
(1957-1966) - Ray Collins, William Talman
A China não está preparada para a guerra, de acordo com um relatório
polémico de um grupo de reflexão dos EUA
que afirma que a principal motivação para o
impulso expansionista do Partido Comunista no poder para a modernização militar
é manter o controlo do poder - e não combater um inimigo estrangeiro
Pequim tem levado a cabo um desenvolvimento militar
surpreendente sob o comando do líder chinês Xi Jinping, durante o qual o
Exército de Libertação Popular (ELP) - que anteriormente nem sequer era um dos
mais fortes da Ásia - começou a rivalizar ou, nalgumas categorias, a
ultrapassar as forças armadas dos EUA, segundo as estimativas dos analistas.
Simulações efetuadas por peritos em defesa norte-americanos
mostraram repetidamente que os Estados Unidos - amplamente considerados como o
exército mais forte do mundo - teriam dificuldade em igualar o ELP num combate
perto das costas chinesas, especialmente em relação à ilha democrática de Taiwan, reivindicada por
Pequim.
No entanto, um relatório publicado no mês passado pela RAND Corp, com sede em Washington, afirma que,
apesar da impressionante acumulação de forças, as considerações políticas -
sobretudo o desejo do Partido Comunista de controlar tanto o pessoal militar
como a sociedade chinesa - podem prejudicar o ELP em combate, especialmente
contra um adversário como os EUA.
“O ELP continua fundamentalmente concentrado em manter o
domínio do Partido Comunista Chinês (PCC) em vez de se preparar para a guerra”,
escreve Timothy Heath, um perito de longa data em China da RAND, no relatório
intitulado The Chinese military's doubtful combat readiness.
“Os ganhos da modernização militar da China destinam-se,
antes de mais, a reforçar o apelo e a credibilidade do regime do PCC”, tornando
a guerra improvável, acrescenta Heath.
Um
exemplo citado por Heath de objetivos políticos que se chocam com objetivos
militares é o facto de o ELP despender até 40%
do tempo de treino em tópicos políticos.
“A perda de tempo que podia ser gasto a dominar as
competências essenciais para as operações de combate levanta ainda mais
questões sobre a preparação do ELP para a guerra moderna”, afirma Heath.
Heath
observa também que as unidades do ELP são dirigidas não só por oficiais de
comando, mas também por comissários políticos que se concentram na lealdade ao
partido e não na eficácia em combate.
“Um sistema de comando dividido (...) reduz a capacidade dos
comandantes para responderem de forma flexível e rápida a situações
emergentes”, escreve Heath.
Uma guerra convencional entre os EUA e a China é uma
“possibilidade remota” e os planeadores do Pentágono devem concentrar-se numa
maior variedade de ameaças chinesas do que mísseis e bombas, acrescenta.
Mas outros especialistas
ridicularizaram as conclusões de
Heath, afirmando que Xi tinha deixado claro o seu principal objetivo militar:
colocar Taiwan sob o controlo de Pequim - e pela força, se necessário.
O reforço do ELP indica que a China está pronta para o
fazer, apesar das preocupações com o controlo interno, acrescentam os
especialistas.
“Há formas muito mais fáceis, baratas e de menor risco de
maximizar a segurança do partido do que as capacidades de combate
personalizadas que Xi procura de forma concertada”, diz Andrew Erickson,
professor de estratégia no Colégio de Guerra Naval dos EUA.
John Culver, antigo responsável dos serviços secretos
americanos para a Ásia Oriental, também lança dúvidas sobre o relatório.
“A guerra não é o plano A mas é o plano B, se os
acontecimentos o exigirem. E a capacidade material do ELP e da China para tal
acontecimento é forte e cada vez mais forte”, escreveu Culver no X.
Armas e vontade
A China registou progressos militares rápidos e
indiscutíveis desde que Xi introduziu reformas radicais há uma década.
O intenso programa de construção naval de Pequim dos últimos
anos deu origem à maior marinha/força de combate
marítimo do mundo, que pode operar mais longe do que nunca das
costas chinesas - incluindo
a partir da primeira base militar ultramarina do país, no Djibuti.
Entretanto, a China fez progressos nos aviões furtivos e nas
armas hipersónicas - e transformou vastas áreas dos seus desertos interiores em
campos de silos de mísseis.
Mas Heath questiona se o novo arsenal de Pequim é eficaz
numa guerra.
“A História tem demonstrado repetidamente que os militares,
por vezes, não conseguem utilizar eficazmente os seus armamentos avançados em
batalha”, lê-se no relatório, citando a guerra
na Ucrânia como o último conflito em que um exército mais bem armado não
consegue prevalecer.
Os críticos do relatório de Heath afirmam que é uma loucura
ver as mesmas fraquezas no ELP.
“Xi envolve-se repetidamente em difíceis esforços de
reestruturação militar que dão prioridade a melhorias nas capacidades de
combate realistas e impõem alguns dos requisitos mais exigentes que se podem
conceber para as forças armadas chinesas”, refere Erickson, do Colégio de
Guerra Naval dos EUA.
Erickson sublinha que a China está a aumentar o seu número
de efetivos - o Pentágono estima que Pequim está
a aumentar o seu arsenal de ogivas nucleares em cerca de 100 por ano - e a tecnologia, “ultrapassando as fronteiras
globais com megaprojetos ambiciosos de armas hipersónicas”.
O fator humano
Poucos duvidam de que o ELP tenha feito grandes progressos,
tanto em termos de número como de qualidade das armas que pode utilizar.
Veja-se, por exemplo, os seus navios de guerra, liderados pelo contratorpedeiro Tipo 055, classificado por
muitos analistas como o mais poderoso combatente de superfície do mundo.
A Marinha do ELP lançou o seu décimo Type 055 no ano passado, estando previstos mais seis nos próximos anos. Cada um requer uma tripulação de cerca de 300 marinheiros.
O contratorpedeiro de mísseis guiados Tipo 055 Nanchang
(101) no porto de Qingdao antes de uma atividade para celebrar o 74.º
aniversário da fundação da Marinha do Exército Popular de Libertação da China
(PLAN), a 20 de abril de 2023, em Qingdao
Collin Koh, investigador da Escola de Estudos Internacionais
S. Rajaratnam, em Singapura, diz que construir navios de guerra de alta
tecnologia pode ser mais fácil do que tripulá-los - porque os navios de guerra
modernos precisam de jovens marinheiros para assumir tarefas complexas, o que
requer uma formação extensa.
“É provável que o exército
possa assimilar alguém do
campo (...) que não tenha recebido muita educação (...) e treiná-lo para
ser um soldado de infantaria. Mas se quisermos formar alguém capaz de manejar
os controlos no centro de informação de combate do navio de guerra, disparar um
míssil e fazer a manutenção de um míssil, isso exige um pouco mais”,
sublinha Koh.
Entretanto, o ELP continua a debater-se com outro problema
de pessoal - a corrupção. Um relatório do Pentágono de dezembro afirma que uma
campanha anticorrupção generalizada nos níveis superiores das forças armadas e
do governo chinês está a impedir o desenvolvimento da Defesa de Xi.
“Penso que foi identificada como algo que representa um
grande risco para a fiabilidade política e, em última análise, para a
capacidade operacional do ELP”, afirmou em dezembro um alto funcionário da
Defesa dos EUA.
Definir a prontidão militar chinesa
Quando os analistas falam da prontidão militar chinesa, a
atenção centra-se rapidamente em Taiwan. Segundo
estimativas dos serviços secretos norte-americanos, Xi ordenou ao ELP que estivesse
pronto para invadir a ilha até 2027, se necessário.
Mas Heath argumenta que, embora o líder chinês tenha
estabelecido esse objetivo, ele e outros altos funcionários do partido não se
empenharam em qualquer esforço concertado para preparar o público chinês para o
combate.
“Os líderes chineses não fizeram nenhum discurso que
glorificasse a guerra, defendesse a guerra ou caracterizasse a guerra como
inevitável ou desejável”, escreve Heath, observando que “as forças armadas da
China nem sequer publicaram um estudo sobre como podiam ocupar e controlar
Taiwan”.
Outros alertam para o facto de não se poder julgar as
intenções de Pequim com base no pensamento ocidental. Não se sabe o que Xi
consideraria uma vitória em Taiwan, dizem.
A quantidade de dor que o ELP - e a sociedade chinesa como
um todo - podia suportar para tomar a ilha é conhecida apenas em Pequim,
afirmam ainda.
“Temos de considerar o uso da força por Pequim a um nível
que pode ser potencialmente calibrado para atender às suas necessidades
políticas”, aponta Koh.
Essa força podia ser um bloqueio para estrangular a ilha sem que
fossem disparados tiros. Pode ser um número suficiente de ataques aéreos para
mostrar a Taipé e aos seus apoiantes que a China está em vantagem em qualquer
conflito entre os dois lados do Estreito. Pode ser uma invasão e ocupação em
grande escala.
Ou pode ser a continuação da pressão política implacável de
Pequim, acompanhada da presença quase constante do Exército Popular de
Libertação em torno de Taiwan, incluindo dezenas de aviões de guerra e navios.
É uma política que, até à data, tem servido bem o Partido Comunista, dizem
alguns analistas.
Então porquê gastar todo esse dinheiro em novas armas?
“Os ganhos de modernização militar da China não se destinam
a conquistar Taiwan através de um ataque militar. Em vez disso, (são)
concebidos para ajudar o ELP a cumprir mais
eficazmente a sua missão de longa data de defender o domínio do PCC”,
escreve Heath.
Essencialmente, novos navios de guerra e caças furtivos
impressionam o público e isso torna o controlo da sociedade mais fácil,
considera Heath.
Drew Thompson, membro sénior da Escola de Estudos
Internacionais S. Rajaratnam, em Singapura, concorda com este ponto. “O facto
de a política ser primordial significa que a propaganda é mais importante que o
resultado militar.”
Mas Koh refere que os ganhos do ELP sob o comando de Xi não
podem ser deixados de lado como mero envio de uma mensagem interna.
“Apesar dos problemas conhecidos no seio da China e do ELP,
não creio que qualquer planeador militar da região vá simplesmente descartar o
ELP”, argumenta.
E Thompson diz que o ELP é de facto um inimigo capaz para
Taiwan e para os EUA.
“A China pode começar uma guerra e combatê-la. Pode ganhar?
Como é que se define a vitória?”, pergunta Thompson.
“É uma soma-zero ou apenas uma série de compensações?”
Fonte: CNN Portugal, 23 de fevereiro de 2025


Comentários
Enviar um comentário