Como um tuite se transformou numa guerra com milhares de mortos na Ucrânia
Perry Mason (1957-1966) - Paul Fix
O Parlamento da Ucrânia aprovou na terça-feira [2014] uma
resolução para renunciar ao status de país que não participa de alianças
militares. Isto inicia o processo para que o
país se converta num membro da Organização do Tratado do Atlântico Norte
(NATO). A iniciativa de renunciar ao seu status de país neutro foi do
presidente Petro Poroshenko, que considera que seu predecessor, o derrubado
Viktor Yanukovich, cometeu um “grave erro” ao incluir na Constituição em 2010
uma cláusula de não alinhamento da Ucrânia a blocos militares. O documento
aprovado declara que “a agressão da Rússia contra Ucrânia”, a “anexação ilegal
da República Autónoma da Crimeia” ao território russo e a “intervenção militar”
de Moscovo nas regiões do leste da Ucrânia levam à “necessidade de procurar
garantias mais eficazes de independência, soberania, segurança e integridade
territorial”.
O ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergei Lavrov,
disse que esta decisão é contraproducente e que poderia gerar tensões no
futuro.
A tensão entre a Ucrânia e a Rússia, com conflitos em áreas
de fronteira e a anexação da Crimeia pelos russos, foi uma das notícias mais
importantes de 2014. E o jornalista ucraniano Olexiy Solohubenko, editor de
notícias do Serviço Mundial da BBC, analisa o que aconteceu no país
durante o ano.
"Imagine que, no México, os moradores do Estado de
Yucatán resolviam que não querem ter mais nada a ver com o governo mexicano.
Que são diferentes, que falam com um sotaque diferente e têm suas próprias
tradições e história.
Além disso, eles convocam um referendo e o governador do
Estado de Yucatán transforma-se no presidente da República Popular de Yucatán.
E mais: grupos armados estabelecem postos de controle e
barricadas. Pessoas morrem. E tudo isso ocorre diante do olhar impassível do
resto do continente americano.
Isto pode ser uma fantasia, mas foi exatamente o que
aconteceu em 2014 na Ucrânia.
E, um elemento adicional aprofunda a diferença entre o caso
real e o que estamos a idealizar: a presença de uma força externa.
É difícil conceber a possibilidade de que um agente externo
possa intervir numa disputa no México.
Mas, no caso da Ucrânia, isto é real: há um país e um
presidente que apoia movimentos separatistas numa área importante do
território. A área a que me refiro é a Crimeia e o presidente é Vladimir Putin,
da Rússia.
Terreno fértil
Tudo começou, acredite ou
não, com um tuite de Mustafa Nayem, um jornalista ucraniano famoso, filho de
imigrantes afegãos, descontente com o que o então presidente Victor Yanukovich
decidiu fazer à última hora: não assinar um acordo de associação com a União
Europeia.
A Rússia não queria este acordo e sentia que havia uma
possibilidade de a Ucrânia se afastar para sempre da influência do governo de Moscovo.
E, para evitar tal acordo, os russos injetaram uma quantidade enorme de
dinheiro e prometeram ainda mais fundos, algo que Yanukovich aceitou.
Em novembro de 2013, Nayem pediu que seus seguidores no Twitter protestassem na Praça da Independência, conhecida como Maidan. Primeiro, vieram centenas, logo eram milhares... depois eram dezenas de milhares.
A indignação precisava de uma válvula de escape. Por volta das 20h00, publiquei no Facebook: “Vamos lá, malta, vamos falar a sério. Se queres mesmo fazer alguma coisa, não te limites a "gostar" desta publicação. Escreve que estás pronto e que podemos tentar começar algo.” Numa hora, havia mais de 600 comentários. Voltei a publicar: “Vamos encontrar-nos às 22h30. perto do monumento à independência no meio do Maidan.” Quando cheguei, estavam reunidas cerca de 50 pessoas. Logo a multidão aumentou para mais de 1000 pessoas.
Mustafa Nayem
Não era o primeiro protesto dos ucranianos.
A tecnologia pode ter mudado, agora existem smartphones, mas
o desejo, o espírito era o mesmo de há dez anos, na chamada Revolução Laranja.
O protesto tinha como base a não aceitação da manipulação,
da intenção de "comprar" o país, fazê-lo voltar para os padrões
soviéticos uma espécie de união com a Rússia.
É importante entender que boa parte dos manifestantes de
Maidan pertencem a esta primeira geração que nasceu, cresceu e se educou depois
da independência do país. Queriam um novo pacto social que mudasse os conceitos
do que é bom e do que é mau.
Foi neste terreno fértil que caiu o tuite de Nayem.
A polícia tentou dispersar os manifestantes de forma
violenta: mais de cem pessoas morreram em Kiev, no centro de uma capital do
continente europeu.
A partir de então começaram as tentativas de acordo, que não conseguiram resultados.
Três atos se desenrolaram na Maidan. Primeiro foram os protestos dos cidadãos. Depois, a brutal repressão governamental. E, finalmente, depois de o primeiro homem ter sido morto na rua Hrushevsky, aquilo a que chamo “a Maidan da dignidade”. Nessa altura, tornou-se óbvio que o povo não voltaria a aceitar Yanukovych. Foi o princípio do seu fim e o início desta viagem em direção à Rússia que ainda está a decorrer.
Mustafa Nayem
O presidente foi derrotado em algo que a Rússia descreveu
como um golpe e os ucranianos chamaram revolução popular. Foram convocadas
eleições, foi eleito um novo presidente, Petro Poroshenko, e um novo
Parlamento. E, infelizmente, ocorreu uma nova guerra.
E, para isto, o país não estava preparado.
História
O que aconteceu na Ucrânia em 2014 ilustra o facto de que,
na Europa, a história nunca desaparece.
Há pouco mais de 20 anos, no dia 5 de dezembro de 1994, as três potências
nucleares da época, Rússia,
Estados Unidos e Ucrânia,
junto com a Grã-Bretanha, assinaram um memorando em Budapeste no qual o governo
ucraniano aceitava renunciar à sua condição nuclear.
Em troca, a Ucrânia recebia garantias de manter a sua
integridade territorial, a inviolabilidade de suas fronteiras e o respeito à
sua política interna. Nada disso se concretizou.
E, para piorar a questão da integridade territorial, a
Rússia anexou a Crimeia em março.
A Crimeia, no sul da Ucrânia, sempre foi um ponto sensível para a Federação Russa. É o lugar de onde o Império Russo travou as suas muitas guerras contra o Império Otomano.
Alguns analistas afirmam que, se
prestarmos atenção ao presidente Putin, é possível notar que ele não
quer reescrever a história, mas fazê-la voltar para as fronteiras que marcam o
passado imperial russo. A instabilidade na Ucrânia foi uma oportunidade que o
presidente russo não perdeu.
Para a Ucrânia foi muito difícil reagir: tinha vendido a
maior parte de seu arsenal bélico e reduzido o seu enorme exército de 400 mil
soldados nos anos 1990 para cerca de 130 mil em 2013.
O governo russo aproveitou para atacar, para tomar um
território que também era um local estratégico do ponto de vista militar. E fez
exatamente isso alegando apoio popular.
Logo vieram os movimentos separatistas no leste do país.
Algumas regiões seguiram o exemplo da Crimeia e convocaram referendos, o que
levou à proclamação de novas repúblicas, não necessariamente reconhecidas, mas,
segundo muitos, financiadas e apoiadas pela Rússia.
A Rússia negou que estivesse envolvida militarmente, mas
muitos cidadãos russos estão a lutar ao lado dos rebeldes.
Vítimas
A área que estas "repúblicas" controlam é muito pequena,
mas o número de vítimas é alto.
Até o começo de dezembro, mais de 5 mil pessoas tinham
morrido.
As baixas ocorrem entre civis, soldados ucranianos, forças
rebeldes e efetivos russos.
A tragédia também teve repercussão internacional. A mais
palpável foi a morte dos estrangeiros inocentes que estavam no voo MH17 da
Malaysian Airlines e que foi derrubado na Ucrânia no dia 17 de julho, em
circunstâncias que ainda não foram totalmente esclarecidas.
As sanções económicas também fizeram a Rússia procurar apoio
de países que não estão necessariamente aliados com os Estados Unidos,
incluindo Argentina, Venezuela, Cuba e Turquia, além de países que fazem parte
da União Europeia, como Hungria e Itália. Com este dois, a Rússia tenta
desequilibrar a postura adotada pela União Europeia em relação às sanções
aplicadas aos russos.
Enquanto isso, dentro da Rússia, o sentimento contra o
Ocidente como resultado do apoio dos Estados Unidos ao governo ucraniano é
inédito.
Muitos também afirmam que aquilo que era apenas uma
possibilidade teórica há uns três ou quatro anos, uma nova Guerra Fria, agora
já está a ocorrer.
Estagnação
Hoje, a situação é de estagnação e é difícil ver como resolver isto sem recorrer à força
militar.
Economicamente, ninguém saiu a ganhar. Do lado humanitário,
todos são perdedores. Do lado político, alguns observadores acreditam que, se a
Rússia realmente quisesse, o conflito acabaria em breve.
Mas, neste momento, parece não haver nenhuma vontade
política para isto.
O acordo com a União Europeia, que deu início aos protestos,
foi firmado e já entrou em vigência.
É possível que o movimento iniciado por aquela geração da
praça Maidan tenha sido "sequestrado" pela intervenção russa, que o
transformou num conflito armado pelo controle do território? Não acredito
nisto.
Os manifestantes conseguiram entre 50% e 60% do que
reivindicavam. O inesperado foi a guerra, as vidas perdidas, parte do
território ucraniano perdido, todos os custos que ninguém poderia prever. Estes
foram os outros 40%.
Mas a história frequentemente não se mede por pontos
percentuais. Ela simplesmente acontece."
Fonte: BBC, 25 de dezembro de 2014

Comentários
Enviar um comentário