"Dogfighting" no espaço: EUA avisam que China já pratica manobras de combate com satélites
O.P.J.
Pacific Sud (2019)
A China já está a praticar manobras de combate com satélites
como parte das suas crescentes capacidades espaciais, segundo a Força Espacial dos Estados Unidos,
que alerta que os principais rivais de Washington estão a reduzir a diferença
tecnológica à medida que o Espaço se torna cada
vez mais crítico para a segurança na Terra.
Na Conferência de Programas de Defesa McAleese, em
Arlington, na Virgínia, o vice-chefe das operações espaciais, gen. Michael A.
Guetlein, revelou que o organismo norte-americano notou “cinco objetos
diferentes no Espaço a manobrar uns com os outros de forma sincronizada e
controlada”. “Isso é o que chamamos de dogfighting
[manobras de combate] no Espaço. Eles [os chineses] estão a praticar táticas,
técnicas e procedimentos para realizar operações espaciais em órbita de um
satélite para outro”, continuou Guetlein, utilizando o termo dogfighting, que também se refere a combates de curta distância entre
caças.
Durante as suas declarações na conferência, Guetlein
referiu-se aos “quase pares” dos EUA como praticantes dessas manobras em
órbita. Um porta-voz da Força Espacial dos EUA confirmou depois à CNN que
Guetlein se referia a operações realizadas pela China, que foram observadas
através de informações disponíveis comercialmente.
Embora o propósito dessas operações não tenha sido claro - e
alguns especialistas questionam o uso do conceito de manobras de combate
espacial -, os comentários de Guetlein surgem numa altura em que analistas
afirmam que um número crescente de países, incluindo a China, procuraram
desenvolver tecnologias contra o Espaço.
Tais capacidades poderiam
permitir a um país destruir ou desabilitar satélites, ou até que interrompesse
as comunicações ou operações militares de um rival, como o lançamento e a
deteção de mísseis. Essa interferência poderia também causar
estragos nos sistemas de navegação global usados para tudo, desde serviços
bancários e transporte de mercadorias até o envio de ambulâncias.
Os EUA têm analisado de perto
a ascensão rápida da China como potência espacial nas últimas
décadas, não apenas através dos seus ambiciosos programas de exploração lunar e
do Espaço profundo, mas também o que os analistas descrevem como o
aprofundamento das suas capacidades contra o Espaço.
Em resposta a uma pergunta sobre a China e a Rússia,
Guetlein afirmou que ambos desenvolveram capacidades “excecionais” e citou o
uso de bloqueadores para interromper os sinais dos satélites, a capacidade de
deslumbrar satélites de vigilância e reconhecimento com lasers, bem como
manobras que envolvem a captura de um satélite e o seu reboque para uma órbita
diferente.
“Este é o ambiente estratégico mais complexo e desafiante
que vimos nos últimos tempos, se não desde sempre”, vincou Guetlein,
acrescentando que a força precisa de “capacidades para dissuadir e, se
necessário, derrotar a agressão” para “garantir que a vantagem está do nosso
lado” no futuro. “Antigamente havia uma
diferença de capacidades entre nós e os nossos quase pares, principalmente
devido ao avanço tecnológico dos Estados Unidos… essa diferença de capacidades
reduziu-se significativamente”, reconheceu o vice-chefe das
operações espaciais dos Estados Unidos.
O incidente de ‘dogfighting’ referido por Guetlein, as tais
manobras de combate espaciais, envolveu uma série de manobras de satélites
chineses em 2024 na órbita terrestre baixa, envolvendo três satélites
experimentais Shiyan-24C e dois objetos espaciais experimentais chineses, os
Shijian-6 05A/B, vincou um porta-voz da Força Espacial.
Pequim divulgou poucas informações públicas sobre os seus
satélites experimentais e essas operações. O país incluiu a proteção dos seus
“interesses de segurança no espaço exterior” entre os seus objetivos de defesa
nacional num livro branco de 2019, mas afirmou sempre ser a favor do “uso
pacífico do espaço exterior” e opõe-se a uma corrida armamentista no Espaço.
A CNN contactou o ministério da Defesa da China e a
Administração Estatal de Ciência, Tecnologia e Indústria para Defesa Nacional
para obter comentários.
‘Dogfighting’ no espaço?
Dadas as dinâmicas físicas no espaço, as manobras descritas
por Guetlein como 'dogfighting' seriam muito diferentes das realizadas no ar
entre caças, neste caso envolvendo satélites a manobrar
uns em torno dos outros usando propelente, dizem os especialistas.
Os analistas têm estudado de perto as interações entre
satélites e outros objetos no espaço. Normalmente referidas como
"operações de encontro e proximidade", essas manobras podem ser
usadas para operações pacíficas, como manutenção de satélites ou limpeza de
detritos - mas também poderiam permitir que países interferissem com os ativos
de adversários. “As manobras próximas de outros satélites poderiam sugerir o
desenvolvimento de uma arma contra o Espaço, porque aproximar-se de outro
satélite significa que poderia potencialmente agarrá-lo, lançar uma rede ou
projétil contra ele, ou usar uma arma de energia, como um laser ou bloqueador”,
explica Clayton Swope, vice-diretor do Projeto de Segurança Aeroespacial no
think tank Center for Strategic and International Studies, em Washington.
“Mas aproximar-se de outro satélite também poderia sugerir
outros propósitos, como serviços no Espaço ou reabastecimento. Poderia também
ser um satélite a tentar tirar uma fotografia de outro”, adianta, acrescentando
que a China está a lançar “cada vez mais
satélites que demonstram a capacidade de realizar manobras sofisticadas”.
“Não sabemos ao certo, pelo menos não publicamente, o que
qualquer um desses satélites está a fazer, mas alguns estão provavelmente a
fazer vigilância e também a testar novas tecnologias espaciais que poderiam ser
usadas como armas contra o espaço”, diz ainda Swope.
Não há evidência pública confirmada de que a China tenha
usado capacidades contra o Espaço contra alvos militares, segundo a Fundação
Secure World, sediada nos EUA, num relatório anual sobre as capacidades contra
o espaço dos países no ano passado.
A China realizou operações de
encontro e proximidade semelhantes às referidas por Guetlein no passado,
mas este incidente parece ter envolvido mais satélites do que outros, como
revela à CNN Victoria Samson, diretora-chefe de segurança e estabilidade
espacial da SWF. A Rússia e os EUA também são conhecidos por realizar operações
de proximidade com os seus próprios satélites e com outros, acrescenta.
“É difícil dizer se esta capacidade chinesa é algo que os
EUA não tenham, já que estamos a aprender sobre ela a partir de empresas
comerciais dos EUA em SSA [consciência situacional no espaço], que geralmente
são relutantes em discutir o que os satélites dos EUA estão a fazer”, vinca
Samson, adiantando que referir-se às operações da China como “dogfighting” - ou
manobras de combate no Espaço - “não é útil”, porque “automaticamente atribui
intenções hostis a atividades que, francamente, os EUA também realizam”.
Os EUA não têm de momento um programa operacional
reconhecido para atacar satélites a partir da órbita usando outros satélites ou
naves espaciais, embora possam rapidamente desenvolver um no futuro, segundo o
relatório anual da SWF. Isso porque os EUA realizaram testes “não ofensivos”
extensivos de tecnologias para se aproximar e realizar encontros com satélites,
incluindo aproximações de seus próprios satélites militares e vários satélites
militares russos e chineses, disse a SWF.
Fonte: CNN Portugal, 23 de março de 2025

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