É hora de dizer adeus às moedas em Portugal?
Shetland
Alguns estabelecimentos comerciais em Portugal recusam
aceitar pagamentos através de Multibanco quando os valores são inferiores a 5€
devido aos custos associados ao uso dos Terminais de Pagamento Automático (TPA)
da rede SIBS. Com efeito, os comerciantes pagam
taxas fixas e percentuais por cada transação, o que torna as compras
de menor valor menos rentáveis. Além disso, há custos de instalação, manutenção
e taxas diferenciadas dependendo do tipo de pagamento (débito/crédito) que
também devem ser ponderados nesta equação e que explicam a resistência de alguns
comerciantes à adoção dos pagamentos por TPA e, mais especificamente, a aceitar
pagamentos de pequenos valores com TPA.
Contudo, apesar das desvantagens, os pagamentos eletrónicos oferecem segurança a todos (comerciantes e clientes), evitam fraudes
(notas falsas) e atraem mais clientes (p. ex. os que não têm consigo moedas ou
notas suficientes). Daquilo que pude apurar, a ASAE confirma que é legal impor
um valor mínimo para pagamentos com Multibanco, desde que essa informação seja
claramente comunicada aos consumidores e isso, de facto, é o uso habitual por
parte dos comerciantes.
Mas estamos no século XXI.
Cada vez mais sectores da economia e da sociedade estão digitalizados e
acredito que esta insistência em utilizar de forma recorrente, em pequenos
valores (em quase todos os espaços comerciais), ou em todos os valores (em
alguns) implica além de uma maior comodidade e segurança para clientes e
comerciantes uma redução de custos financeiros e ambientais para os cidadãos,
para comerciantes e para o país tomado como um todo.
Por outro lado, a produção e manutenção de moedas envolvem
custos substanciais. A cunhagem requer metais
como cobre, níquel e zinco, cujos preços variam no mercado global
com impactos diretos no custo de produção. O consumo de energia nas fábricas de
moedas e os salários da mão de obra também contribuem para os custos. Embora as
moedas sejam duráveis, o desgaste natural e a perda exigem substituição
constante, gerando custos contínuos para os governos.
A logística e o transporte de moedas representam outro
grande custo. O peso e o valor das moedas exigem veículos blindados e segurança
armada para distribuição, aumentando os gastos com combustível e pessoal.
Bancos e empresas têm de investir em cofres e sistemas de manuseamento de
dinheiro físico, tais como máquinas de contagem e classificação, para garantir
a segurança e a eficiência. Por outro lado, a gestão e o processamento de
moedas consomem também tempo e recursos em que a recolha de moedas danificadas
ou em desuso para reciclagem envolve custos administrativos e industriais,
incluindo transporte, triagem e fundição.
É também preciso não esquecer que a extração de metais para
moedas causa impactos ambientais significativos. A
mineração pode levar à desflorestação, aumenta a erosão do solo,
produz poluição na água e leva à destruição de habitats naturais. A extração de
metais também cria resíduos tóxicos e emissões de gases de efeito estufa. A produção e o transporte de moedas contribuem para as
emissões de CO2 e para a poluição do ar. A queima de combustíveis
fósseis em fábricas e veículos emite gases poluentes. A refinação de metais
liberta substâncias tóxicas na atmosfera e na água, designadamente dióxido de
enxofre e metais pesados. A reciclagem de moedas, embora importante, também tem
custos ambientais. O processo de fundição e refinação consome energia e cria
resíduos industriais.
Acredito que a eliminação
gradual de moedas traria benefícios económicos e ambientais. A
redução dos custos de produção e transporte libertaria recursos para outras
áreas prioritárias. A diminuição da procura por metais reduziria o impacto
ambiental da mineração e da poluição. A transição para pagamentos eletrónicos
tornaria as transações mais rápidas, eficientes e
seguras, beneficiando consumidores e empresas.
Estimar os custos anuais específicos associados à produção e
circulação de moedas em Portugal é um desafio de grande escala, devido à falta
de dados públicos detalhados. As entidades responsáveis, como a Imprensa
Nacional-Casa da Moeda (INCM) e o Banco de Portugal, tendem a não divulgar os
custos exatos de produção de cada denominação monetária, citando razões de
concorrência e segurança mas, apesar dessas dificuldades é possível saber que a INCM produz anualmente centenas de milhões de moedas.
Em 2016, foram produzidas 220 milhões de moedas, gerando receitas de 23 milhões
de euros. Isto indica um custo médio de produção de aproximadamente 0,1045
euros por moeda. Contudo, este valor médio não reflete as variações
significativas nos custos de produção entre diferentes denominações pelo que
existe aqui uma grande margem de erro…. Sabemos
também que as moedas de 1 e 2 cêntimos apresentam um custo de produção superior
ao seu valor facial.
Neste contexto é também importante não esquecer de que a
produção e transporte de moedas envolvem custos logísticos significativos e têm
um impacto ambiental devido à extração de metais e ao consumo de energia.
Embora os custos específicos não sejam publicamente divulgados, é razoável
supor que a produção de moedas de menor valor, que não retornam facilmente à
circulação, amplifica ainda mais estes custos e impactos.
Em suma, embora não disponhamos de valores exatos para os
custos anuais de produção e circulação de moedas em Portugal, é evidente que as
moedas de 1 e 2 cêntimos representam uma parcela significativa dos custos
devido ao seu elevado custo de produção relativo ao valor facial e à baixa taxa
de retorno à circulação. Medidas como a importação destas moedas de países com
excedentes têm sido adotadas para minimizar os custos e impactos ambientais
associados à sua produção interna.
Por outro lado, eliminar moedas pode afetar grupos que
dependem do dinheiro físico, como idosos e
pessoas sem acesso a bancos, exigindo estratégias para garantir inclusão
financeira.
Assim sendo, para mitigar os impactos da eliminação de
moedas e garantir a inclusão financeira de todos, sugiro:
1. Arredondamento de preços através da implementação de um sistema de
arredondamentos ao múltiplo mais próximo de 10 cêntimos. Um tal sistema
reduziria a necessidade de moedas pequenas sem afetar significativamente os
preços.
2. Eliminar, numa primeira fase, todas as moedas inferiores
ou iguais a 10 cêntimos.
3. Expansão do acesso a pagamentos digitais através da
criação de programas de educação financeira para ensinar o uso de cartões e pagamentos móveis
e, sobretudo, disponibilizar soluções de pagamento simples e acessíveis para idosos e pessoas sem maturidade digital.
4. Cartões pré-pagos e alternativas digitais ao dinheiro
físico recarregáveis sem necessidade de conta bancária, permitindo que os
cidadãos realizem pagamentos eletrónicos ou/e, paralelamente, criar vouchers
digitais para quem não tem acesso a serviços bancários.
5. Garantia de acesso a dinheiro físico mantendo um número
mínimo de caixas automáticos e locais que aceitem dinheiro físico para grupos vulneráveis.
6. Regulação dos preços em TPA cobrados pela SIBS aos
comerciantes isentando-os dos custos de transações inferiores a 5 euros (os
custos de manutenção e operação da rede são os mesmos quer se transacione 5
euros ou 5 mil euros) e tornando obrigatória a aceitação de todos os pagamentos
por TPA em estabelecimentos comerciais.
Acredito que a transição para um sistema sem moedas deve ser
feita de forma equilibrada e gradual, garantindo que ninguém fique excluído do
sistema financeiro e que essa transição deve ser feita em duas vias paralelas:
Pela abolição gradual do uso de moedas e pela obrigação da aceitação de
pagamentos de baixo valor nos estabelecimentos comerciais.
Fonte: Observador, 28 de março de 2025

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