Fazer em 11 meses o que não se fez em oito anos
Perry Mason
(1957-1966) - Max Showalter, John Hoyt
O objetivo
é o da criação de um ecossistema de defesa que promova a autonomia estratégica
de Portugal e potencie a economia nacional, gerando emprego e incentivando a
inovação e o desenvolvimento tecnológico
Durante muitos anos, a Defesa Nacional não esteve no topo
das prioridades da política, negligenciada numa dimensão que causou danos.
Quando o número de militares necessários ao cumprimento das Missões atribuídas
às Forças Armadas se estima em perto de 30 000, Portugal perdeu mais de cinco
mil militares entre 2015 e 2024, reduzindo o efetivo
para cerca de 22 mil. Um praça auferia um salário inferior ao de um guarda ou de um polícia
numa diferenciação incompreensível. O espírito era de desalento e a
necessidade de valorizar a condição militar uma prioridade absoluta.
Houve, por isso, que identificar com clareza os motivos
desta tendência e encontrar respostas capazes de assegurarem a capacidade de
resposta das Forças Armadas, tanto em missões internas, como internacionais.
Começámos pelas pessoas,
aumentando salários na base de um
princípio da equiparação com as forças de segurança e diversos suplementos. Em
alguns níveis, militares passaram a auferir um montante equivalente a mais dois
salários. O suplemento da condição militar cresceu de 100 euros para 400 euros,
os suplementos de serviço aéreo e de embarque foram atualizados para resposta a
problemas graves vividos na Força Aérea e na Marinha, a par de outros.
Foi criado o primeiro mecanismo de apoio em caso de
incapacidade ou morte de militares, que, incompreensivelmente, ponderada a
natureza da função, nem sequer existia. Decidimos apoiar os antigos combatentes
com medicamentos comparticipados faseadamente a 100%, e acelerar a apreciação
de processos administrativos de qualificação de deficientes das Forças Armadas,
de seis anos em média, para 60 dias.
Simultaneamente, modernizámos
equipamentos, melhorámos infraestruturas, avançámos para as
indústrias de Defesa, investimos na Saúde militar e reforçámos as missões
internacionais ao serviço da NATO, ONU, UE, FRONTEX e Coligações.
Noutro âmbito, sabendo-se das dificuldades
associadas à habitação e do
impacto nos orçamentos familiares, fomos capazes de assegurar um investimento
de mais de 32 milhões de euros que irá reabilitar 15 edifícios devolutos ou
degradados do Exército em diversos concelhos, que serão vocacionados para esse
fim a baixos custos, beneficiando 600 famílias e modernizando
ainda o Colégio Militar e os Pupilos do Exército.
O Exército vinha sendo, incompreensivelmente, afastado de
candidaturas ao PRR. Em abril de 2024 beneficiava de apenas cerca de 300 mil
euros de PRR. Multiplicámos este número por cerca de 100.
Avançámos ainda de forma determinada para a modernização de
bens e equipamentos militares, sempre com a preocupação de envolvimento no
processo, sempre que possível, da base tecnológica e industrial de Defesa
nacional.
A título de exemplo assinalaria diversas aquisições em curso muito
relevantes, no âmbito da LPM e fora dela: 12 aeronaves A29 Super Tucano e um
simulador de voo, num investimento de 200 milhões de euros, dos quais 75
milhões aplicados na indústria portuguesa, 12 aeronaves de instrução elementar
de pilotos CIRRUS e um Simulador a ser desenvolvido em Portugal, aeronaves
KC390, dois Bombardeiros Canadair para combate aos fogos, a criação da
capacidade aérea no exército, com cinco helicópteros Black Hawk, até 36
sistemas de artilharia Caesar, viaturas tácitas blindadas NBQR, viaturas táticas
médias não blindadas para equipar batalhões de Infantaria nos Açores e na
Madeira, dois navios reabastecedores, o navio porta drones (plataforma naval
multifuncional) D. João II, sistema antiaéreo Rapid Ranger, entre muitos
outros.
Nota de realce tem que ser
dedicada a uma aliança estratégica em desenvolvimento entre a Defesa e a
Economia nacional. Acreditamos que as indústrias de defesa podem ter
um papel estratégico na modernização das Forças Armadas e no fortalecimento da
economia do país.
Estudos recentes demonstram que as indústrias de Defesa são atualmente
constituídas por cerca de 360 empresas, garantindo perto de 30 mil postos de
trabalho e 2,5% das exportações. Por seu lado, as indústrias de Defesa
asseguram em média o dobro de exportações e o dobro dos salários, em comparação
com a economia geral, e investem muito mais em investigação e desenvolvimento,
para além de se mostrarem mais produtivas.
Entendemos, por isso, ser essencial promover um ambiente de
captação de investimento em múltiplas áreas, da produção de munições à
aeronáutica, passando por veículos autónomos e outros, componentes, engenharia,
espaço, têxteis tecnológicos ou calçado.
No exemplo antes referido do processo
de aquisição de 12 aeronaves A29 Super Tucano, por valores próximos de 200
milhões de euros, tivemos como condição contratual necessária o investimento de
75 milhões de euros nas indústrias portuguesas, que efetuarão a respetiva
reconfiguração para os critérios e especificações da NATO.
Esta, de resto, é uma lógica antes pensada a propósito das
aeronaves KC 390. Portugal participou no projeto da aeronave e contribui para a
respetiva produção. Em consequência, cada aeronave vendida significa um encaixe
financeiro de mais de 10 milhões de euros para o Estado português.
Temos também uma visão definida para os modelos de captação
de investimento em áreas estratégicas, por si ou em cooperação com o Estado.
Neste âmbito, as OGMA são, hoje, um modelo virtuoso de uma empresa que passou
por profundas dificuldades e depois de submetida a uma privatização parcial a
favor da Embraer, se transformou numa empresa de referência mundial no sector
aeronáutico. Esta é uma fórmula que pode, e deve, ser reproduzida noutras áreas
de negócio suscetíveis de alavancamento de indústrias nacionais.
Noutro âmbito, de ajuda à Ucrânia, Portugal investiu 52
milhões de euros na iniciativa liderada pelo Reino Unido para aquisição de
drones, que serão produzidos em Portugal, num sector em que damos cartas a
nível global.
Tudo sopesado, o objetivo é o da criação de um
ecossistema de defesa que promova a autonomia estratégica de Portugal e
potencie a economia nacional, gerando emprego e incentivando a inovação e o
desenvolvimento tecnológico.
A cooperação internacional é essencial para o
desenvolvimento empresarial e tecnológico. Através de parcerias com aliados da
NATO e da União Europeia, conseguimos acesso a tecnologia de ponta, formação
especializada e oportunidades de participação em projetos de inovação,
contribuindo para a segurança global.
Por último, os resultados. Como é evidente, medidas assim
ajudam a melhorar a eficácia e a capacidade de prontidão das Forças Armadas e a
atrair e reter talento, garantindo um corpo militar mais motivado e preparado
para enfrentar os todos os desafios.
E 11 meses, depois da tomada de posse do governo da Aliança
Democrática, verificamos que tudo está a mudar
para muito melhor na Defesa Nacional. Comprovando-o, os números de
candidatos aos três Ramos das Forças Armadas dispararam e já se inverteu a
tendência de saídas.
Este é um caminho que merece ser continuado. Resta ao povo
português garantir que assim possa ser depois de maio de 2025.
Nuno Melo
Fonte: O Jornal Económico, 14 de março de 2025

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