"Não dava para fugirmos". Sérvia nega arma sónica
Shetland – Ashley
Jensen
Era um protesto pacífico e, naquele momento, os mais de 100
mil manifestantes – praticamente todos jovens – estavam em silêncio, em
respeito às 15 pessoas que morreram em novembro na estação ferroviária de Novi
Sad, na Sérvia. Há imagens que mostram alguns elementos da polícia a correrem
para longe da estrada que estava totalmente lotada com manifestantes e,
segundos depois, gera-se um pânico súbito – ouvem-se gritos e abre-se uma
brecha na multidão, com as pessoas a fugirem de
algo que não conseguiu ver: só ouvir.
Rapidamente surgiram acusações de que as autoridades sérvias tinham uma arma sónica de nível militar para atingir e dispersar manifestantes contra a corrupção e contra o presidente sérvio, Aleksandar Vucic, na capital do país. “Não dava para fugir daquilo, não sabíamos o que fazer”, afirmou à televisão alemã DW Dušan Simin, um dos manifestantes que estavam a fazer os 15 minutos de silêncio, um minuto por cada vítima mortal de Novi Sad.
“Naquele momento, ficamos sem saber se algo nos vai cair em
cima ou abalroar-nos”, descreve a testemunha, acrescentando que,
“instintivamente”, as pessoas terão reagido ao som como se achassem que algum
tipo de veículo estivesse a descer a rua, para os atropelar. “As pessoas
começaram a correr para o lado e começámos a cair uns em cima dos outros”,
afirma Dušan Simin, indicando que a sua mulher,
ao fugir, bateu com a cabeça num poste de iluminação.
No domingo, o presidente Vucic negou categoricamente que qualquer tipo de arma sonora tenha sido utilizada pelas autoridades. Isto apesar de haver imagens que mostram alguns elementos da polícia a correrem para a beira da estrada, como se tivessem recebido uma indicação de que tal arma – que também os iria ferir a eles – estaria prestes a ser usada.
Apesar destes sinais e da descrição feita pelas testemunhas,
o presidente garantiu que é “mentira” dizer que o governo deu instruções para
se usar aquela arma. Pediu às autoridades judiciais que respondam à alegação de
“que foram utilizados canhões sonoros durante os protestos”, referiu a emissora
estatal RTS.
“Estou a pedir (…) ao ministério da Justiça e ao Ministério
Público que reajam, seja para processar aqueles que usaram [armas sónicas], e
sabemos que não o fizeram, mas vamos verificar”, disse o presidente. “Que haja
um processo, mas depois também devem processar aqueles que tornaram pública uma
mentira tão notória”, acrescentou o chefe de Estado.
“Quem teve a ideia de usar uma arma destas?” Sérvia tem
armas sónicas, garante especialista militar
Mas dirigentes da oposição e grupos de defesa dos direitos
humanos sérvios alegaram que armas acústicas, que são proibidas e emitem um
feixe direcionado para incapacitar temporariamente as pessoas, foram utilizadas
durante o protesto de sábado. Estes grupos prometeram apresentar ações no
Tribunal Europeu dos Direitos Humanos e nos tribunais nacionais contra aqueles
que ordenaram o ataque.
Já vieram a terreiro, também, especialistas militares que
confirmam que a Sérvia dispõe, mesmo, deste tipo de armas. Aleksandar Radić,
especialista militar citado pelo meio de comunicação social sérvio N1, diz que
todos os sinais apontam para que, de facto, tenha sido usado um “canhão
sónico”.
Confirmando que as autoridades sérvias têm este tipo de
armas, Radić lança a questão: “O maior problema no que aconteceu é: quem teve a
ideia de usar uma arma destas?”
Numa situação em que todos os manifestantes estavam calmos,
quando estava a ser dada uma mensagem de quinze minutos às vítimas, foi
utilizada a arma. O único objetivo deste ato é uma demonstração brutal de
força, prova de arrogância, e a razão é o ódio ao próprio povo”, disse Radić à
N1.
Especialistas militares dizem que aqueles que estão expostos
a uma arma sónica sentem fortes dores de ouvido, desorientação e pânico. A
exposição prolongada pode provocar roturas do tímpano e danos auditivos
irreversíveis.
Mais de 100 mil pessoas juntaram-se em Belgrado, no culminar
de uma série de protestos desde o acidente ocorrido na estação de Novi Sad, a 1
de novembro, que matou 15 pessoas, quando a cobertura de betão do edifício
recentemente renovado se desmoronou. Desde esse dia, tem havido manifestações
sucessivas no país.
O protesto de sábado encheu as ruas do centro da capital e,
segundo a polícia, no pico do protesto terão estado cerca de 107 mil pessoas,
embora os média independentes sérvios tenham dito que o número foi superior.
As manifestações diárias tornaram-se mais tensas desde que o
Governo acusou os manifestantes de serem pagos por agências estrangeiras e de
prepararem ações violentas ou, mesmo, uma revolução.
Na sequência de incidentes isolados entre manifestantes e a
polícia, vários estudantes universitários —
que têm liderado os protestos nos últimos quatro meses — declararam o fim da
manifestação, por considerarem que não estavam garantidas as condições de
segurança.
A Organização das Nações Unidas apelou às autoridades
sérvias para que não interferissem indevidamente nas manifestações e
respeitassem o pleno exercício dos direitos à liberdade de reunião pacífica e à
liberdade de expressão.
Fonte: Observador, 17 de março de 2025
Talvez, como na Ucrânia, seja mais uma da aplicação da teoria do tiro pela culatra (ou teoria do efeito contraproducente da repressão estatal) para derrubar governos.
A repressão gera indignação – quando o Estado usa violência ou medidas autoritárias para reprimir dissidência, pode criar um efeito de martírio, tornando os reprimidos mais populares e gerando apoio público. Maior mobilização – em vez de dissuadir, a repressão pode radicalizar os opositores e incentivar a mobilização de novos membros. Perda de legitimidade do Estado – o uso excessivo da força pode minar a confiança na autoridade governamental e ampliar a resistência. Exposição mediática e simpatia internacional – o efeito da repressão pode ser amplificado pelos média, levando a condenações externas e apoio de organizações internacionais.









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