Fundos imobiliários não pagaram impostos e geraram 1,7 mil milhões de lucros? É verdade
Morangos com açúcar - Cecília Borges, Susana Luz
Francisco Louçã critica os investimentos imobiliários que geraram um lucro superior a 1700 milhões de euros, mas não se traduziram em receita para o Estado por estarem livres de impostos
A frase
“265 fundos imobiliários
obtiveram 1700 milhões de euros de lucro, contribuíram para o aumento do preço
das rendas, mas não pagaram um cêntimo de impostos! Taxação justa e tetos
máximos nas rendas é uma questão de elementar sensatez.”
O contexto
Francisco Louçã aparece num vídeo divulgado nas redes
sociais do Bloco de Esquerda a falar sobre os fundos imobiliários, na sequência
de uma auditoria do Tribunal de Contas aos benefícios fiscais direcionados aos
organismos de investimento imobiliário.
Na legenda, o partido diz que houve “265 fundos
imobiliários” que conseguiram gerar “1700 milhões de lucros”, que “contribuíram
para o aumento do preço das rendas”, “mas não pagaram um cêntimo de impostos”.
Os fundos imobiliários são uma forma de investimento que
agrega a poupança de vários investidores para aplicar em ativos no sector
imobiliário. Integram o Estatuto dos Benefícios Fiscais, em vigor desde 2015,
regime que exclui de tributação em IRC os rendimentos típicos desta atividade
(como os rendimentos prediais ou as mais-valias). Em contrapartida, são tributados os rendimentos
dos participantes que investem nesses fundos (no momento da distribuição de
rendimentos, venda ou resgate de participações), evitando, assim, a dupla
tributação.
Os factos
1743 milhões de euros foi, de facto, o valor arrecadado por
265 fundos de investimento imobiliário em três anos, segundo a auditoria
realizada recentemente pelo Tribunal de Contas (TdC).
O relatório aponta a existência de 265 fundos em atividade
em Portugal no final de 2023, sendo este o número mais elevado desde 2009. Estes 265 fundos, nas mãos de 112 287 participantes, eram
responsáveis pela gestão de 14 440 milhões de euros, o valor mais elevado do
período temporal analisado.
Entre 2020 e 2022, foram reportados rendimentos totais de
4999 milhões de euros, enquadrados na categoria de rendimentos excluídos do
lucro tributável (por exemplo, mais-valias ou rendimentos prediais), ou seja,
isentos de impostos. Em contrapartida, registaram custos não dedutíveis de 3255
milhões de euros durante este período (onde se incluem, por exemplo,
menos-valias).
Os chamados "rendimentos típicos da atividade dos
organismos de investimento imobiliário (essencialmente, rendimentos prediais e
mais-valias)", conclui o TdC, "aumentaram 67,4% entre 2020 e 2022,
tendo os respetivos custos mantido estabilidade ao longo deste período".
Assim, "não foram considerados no lucro tributável 1743 milhões de euros,
no período de três anos", refere o relatório da auditoria.
Entre 2020 e 2022, apenas sete entidades abrangidas por este
regime fiscal apuraram lucro tributável, num valor total de 24 milhões de euros
(dois milhões em 2020, zero em 2021 e 22 milhões em 2022), o que significa que
a receita fiscal arrecadada pelo Estado é residual.
Quanto a terem contribuído para o aumento das rendas, como
aponta o ex-dirigente bloquista, o relatório do TdC não o explicita. Retrata
que “os ativos mais relevantes na carteira dos fundos imobiliários são imóveis
arrendados” e que “o seu valor aumentou significativamente”.
O TdC explica ainda que “na vigência do atual regime fiscal,
o valor dos imóveis arrendados e dos terrenos e projetos de construção da
carteira de ativos, no período 2016-2023, aumentou de forma significativa”. Registou-se uma subida de 64,1% no valor dos imóveis para habitação,
que “estará influenciado pela já referida entrada de sociedades de compra e
venda de imóveis e de promoção imobiliária neste universo (como sociedades de
investimento imobiliário)”. Não obstante, aquele tribunal sublinha, que apenas
6,6% dos imóveis arrendados são para habitação - a maioria (69,1%) destina-se a
serviços e comércio.
O TdC não indicou uma subida das rendas por influência direta
dos fundos imobiliários, mas podemos constatar — com recurso a outras fontes
como o Instituto Nacional de Estatística — que o valor das rendas teve, de
facto, um aumento. Aliás, ainda durante o ano de
2024 foi anunciada a atualização para 2025 de 2,16%. O ano de 2024, por sua vez, tinha começado
com uma subida de 6,94%,
o valor mais alto em três décadas.
Nesse mesmo ano, verificou-se um aumento de 10,5% face a
2023 das rendas dos novos contratos, com o valor mediano das rendas de
alojamentos familiares a ser de 7,97 euros por metro quadrado. Em 2023 também
já se tinha registado um aumento na ordem dos 10,5% para as novas rendas.
O veredicto
A frase de Francisco Louçã é verdadeira: 265 fundos
imobiliários operaram 1743 milhões de euros de lucro nos últimos três anos, sem
pagar impostos, ao abrigo do regime fiscal especial criado para este tipo de
investimento.
Fonte: Público, 24 de abril de 2025

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