A arriscada guerra da Europa contra a "frota fantasma" da Rússia
Perry Mason
(1957-1966) – Beverly Garland, Lawrence Dobkin
A UE
quer atacar os petroleiros ilícitos, uma medida que pode expandir a guerra na
Ucrânia e arrastar os EUA ainda mais para dentro da guerra
As mais recentes medidas da União Europeia (no âmbito do seu
17.º pacote de sanções contra a Rússia, declarado em maio) para atacar com
muito mais intensidade a chamada "frota fantasma" de petroleiros e
outras embarcações da Rússia ilustram o perigo de que, enquanto a guerra na
Ucrânia continuar, também aumente o risco de um incidente que leve a NATO e a
UE a um confronto militar direto com a Rússia.
As sanções da UE envolvem
proibições de acesso aos portos, águas nacionais e zonas económicas marítimas
dos Estados-Membros da UE. Os navios que entrem nestas águas correm
o risco de apreensão e confisco. Não parece que Washington tenha sido
consultado sobre esta decisão, apesar dos riscos evidentes para os EUA.
No âmbito desta estratégia, a
15 de maio, um barco de patrulha estoniano tentou parar e inspecionar um
petroleiro no Golfo da Finlândia. A Rússia enviou um caça que sobrevoou o
navio estoniano (supostamente
invadindo brevemente as águas estónias), e os estónios recuaram — desta vez. Em
janeiro, a Marinha alemã apreendeu um petroleiro de bandeira panamiana, o
Eventin, no Báltico, depois de os seus motores terem falhado e de este se ter
desviado para águas territoriais alemãs.
A Suécia
anunciou agora que, a partir de 1 de julho, a sua Marinha irá parar, inspecionar
e potencialmente apreender todas as embarcações suspeitas que transitem pela
sua zona económica exclusiva, e está a mobilizar a Força Aérea Sueca para
apoiar esta ameaça. Como as zonas económicas marítimas combinadas da Suécia e
dos três Estados Bálticos cobrem toda a região central do Mar Báltico, isto equivale a uma ameaça virtual de cortar todo o
comércio russo que sai da Rússia através do Báltico — o que, de facto, seria um golpe económico muito
grave para Moscovo.
Ameaçaria também cortar o acesso à Rússia por via marítima a
partir do enclave russo de Kaliningrado, que está cercado pela Polónia.
Este é o tipo de ação que tradicionalmente leva à guerra.
A suposição sueca parece ser a de que a Marinha e a Força Aérea russas no
Báltico estão agora tão fracas — e tão rodeadas de território da NATO — que não
há nada que Moscovo possa fazer quanto a isso. No entanto, é muito improvável que os suecos tomem esta medida a
menos que também acreditem que, em caso de conflito, Washington sairá em defesa
da Suécia — embora as decisões da UE e da Suécia tenham sido tomadas
sem a aprovação dos EUA e não estejam estritamente abrangidas pelo compromisso
do artigo 5.º da NATO.
E apesar de toda a linguagem histérica sobre a Rússia estar
"em guerra" com os países da NATO, estas ações da UE e da Suécia
baseiam-se também no pressuposto de que a Rússia não perderá a paciência e
reagirá com força militar. Os decisores
políticos europeus poderão, no entanto, querer refletir sobre uma série de
coisas: por exemplo, o que fariam os EUA se os navios que
transportavam carga americana fossem intercetados por navios de guerra
estrangeiros? Sabemos perfeitamente que os EUA destruiriam os navios de guerra
em causa e declarariam que o fizeram em defesa da regra sagrada da livre
navegação — na qual a UE também professa acreditar.
Os líderes e almirantes da UE
deveriam também dedicar algum tempo às redes sociais russas e ler os
incessantes ataques ao governo de Putin por parte da linha dura,
argumentando precisamente que Moscovo tem sido excessivamente branda e contida
na sua resposta às provocações ocidentais, e que esta contenção tem encorajado
o Ocidente a uma escalada cada vez maior. Estes linha-dura (especialmente
dentro das forças de segurança) são, de longe, a maior ameaça política interna
que Putin enfrenta.
É importante notar, a este respeito, que as tentativas de
danificar a “frota fantasma” da Rússia não se têm limitado a sanções. Nos últimos meses,
registaram-se uma série de ataques a esses navios no Mediterrâneo, com minas
lapa e outros engenhos explosivos — acontecimentos praticamente ignorados pelos
meios de comunicação ocidentais.
Em dezembro de 2024, o cargueiro russo Ursa Major afundou-se
ao largo da costa da Líbia após uma explosão em que morreram dois tripulantes.
O título da Reuters que relatava estes ataques era bastante característico:
"Três
petroleiros danificados por explosões no Mediterrâneo no último mês, causas
desconhecidas, dizem fontes". Desconhecidas, na verdade?
Quem achamos que foram os prováveis perpetradores? Forças especiais do Laos?
Marcianos? E o que estão os governos europeus a fazer para investigar estas causas?
Se os russos afundarem um navio de guerra sueco ou estónio,
a administração Trump enfrentará uma decisão terrivelmente difícil sobre como
responder a uma crise que não é da sua escolha: intervir e arriscar uma guerra direta
com a Rússia, ou afastar-se e garantir uma crise profunda com a Europa. O
governo americano seria, portanto, sensato e estaria inteiramente no seu
direito de declarar publicamente que não endossa nem ajudará a impor essa
decisão.
Washington também precisa — finalmente — de prestar atenção
ao que o resto do mundo pensa sobre tudo isto. A esmagadora maioria dos
senadores que propõe impor tarifas de 500% a qualquer país que compre energia
russa aparentemente não percebeu que um dos dois maiores países desta categoria
é a Índia — agora universalmente considerada em Washington como um parceiro
vital dos EUA na Ásia. E agora os aliados europeus dos EUA contam com o apoio
dos EUA para apreender navios que fornecem essa energia à Índia.
O governo americano também seria sensato ao alertar os
países europeus de que, se esta estratégia levar a confrontos marítimos com a
Rússia, eles próprios terão de lidar com as consequências. Especialmente tendo
em conta o novo risco de guerra com o Irão, a última coisa de que Washington
precisa agora é de um novo surto de tensão com Moscovo, exigindo grandes
deslocações militares americanas para a Europa. E a última coisa de que a economia
mundial precisa são medidas que possam levar a um aumento ainda maior dos
preços mundiais da energia.
Os governos e as instituições europeias parecem ter perdido a
capacidade de analisar as possíveis consequências mais vastas das suas ações.
Por
isso — não pela primeira vez — os Estados Unidos terão de pensar por eles.
Anatol Lieven
Fonte: Responsible Statecraft, 16 de junho de 2025

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