Ambição para Portugal
Perry Mason
(1957-1966) – Phillip Terry, Fintan Meyler
Ao presidente
da República não cabe governar. Mas cabe-lhe
inspirar o país e a governação. E não apenas pela palavra. Ele deve
ter um papel de maior proatividade. Assumindo a função de mediador entre governo
e partidos da oposição para vencer os grandes bloqueios que há anos impedem um
maior crescimento da nossa economia
1. Faz hoje quatro meses que apresentei a minha candidatura
a presidente da República. Em apenas quatro meses muita coisa mudou. No Mundo e
em Portugal. A nova Presidência dos EUA fez uma
verdadeira rutura com a ordem internacional
que tem vigorado desde a II Guerra Mundial. Não é uma crise conjuntural.
É mesmo uma rutura estrutural. Nas regras e nos valores que fizeram doutrina
durante décadas. Não é uma crise superficial.
Ela é séria e profunda. Afeta a democracia, a economia, os
princípios do Estado de Direito, a globalização, a segurança internacional e a
relação transatlântica.
O Mundo tornou-se ainda mais incerto, inseguro e perigoso. E
a Europa é provavelmente a maior vítima do sismo que se abateu sobre toda a
comunidade internacional. O tempo não é, porém, de cruzar os braços. O tempo é de arregaçar as mangas, sobretudo na
Europa. A União Europeia não tem sido muito virtuosa a agir em momentos de
acalmia e normalidade. Mas tem sabido sempre reagir com eficácia em situações
de emergência e estado de necessidade. O combate
à pandemia foi, apenas, o último exemplo. Há que confiar, pois, no
instinto de sobrevivência e na capacidade regeneradora dos Europeus.
2. Em Portugal, uma crise atípica e inesperada deu origem a
eleições antecipadas e destas resultou a relegitimação do governo e uma nova
liderança da oposição.
Há quatro conclusões substantivas que retiro destas eleições para o futuro:
• Primeiro, é preciso um
projeto transformador do país. Um projeto que gere riqueza
sustentável. E agora, mais do que há um ano, há condições para o pensar e
concretizar. Não são as condições ideais, mas são melhores que as do passado.
• Segundo, mais do que
combater o Chega, é preciso combater
as causas que o alimentam. Pode ser mais difícil e menos sexy, mas é
mais eficaz e politicamente mais rentável.
• Terceiro, é preciso acabar
com a ideia estúpida de que quem
aposta na contratualização política é um frouxo. Nada de mais errado. Quem
negoceia acordos de regime tem sentido de Estado. Deve ser elogiado e não
criticado.
• Quarto, é preciso mais
estratégia e menos tática política. O país político e mediático está
viciado em tática política. O país real quer mais sentido estratégico e mais
decisão substantiva. Talvez seja avisado dar mais ouvidos ao país real.
3. Apesar destas mudanças, os três objetivos fundamentais da
candidatura que apresentei em fevereiro mantêm-se intactos e atuais: ambição,
estabilidade e ética.
• O reforço da ética
na vida política é uma das minhas grandes causas.
O Centro Português para a Cooperação (CPPC) foi uma associação criada em 1996 tendo o estatuto de Organização Não Governamental (ONG). Na prática, o CPPC era uma organização do grupo Tecnoforma. A ONG funcionava em Almada, nos escritórios da Tecnoforma, os fundadores eram administradores da empresa (ou alguns trabalhadores) e era a Tecnoforma que financiava a atividade da ONG.
A ONG era presidida por Pedro Passos Coelho, que foi um dos fundadores. Além de Passos Coelho, estavam na lista de fundadores mais alguns sociais-democratas (alguns dos quais tinham passado pela Juventude Social Democrata, JSD), mas também dois socialistas.
Na lista de fundadores:
Marques Mendes;
Vasco Rato, hoje presidente da FLAD nomeado por este governo;
Ângelo Correia, da Fomentinvest, ex-patrão de Passos;
Fernando Madeira, administrador à época da Tecnoforma;
Fraústo da Silva, que foi dirigente da JSD e foi quem elaborou os estatutos da ONG;
Júlio Casto Caldas, ex-ministro, socialista;
Manuel Castro, que era administrador da Tecnoforma;
Fernando de Sousa, ex-deputado do PS e que ficou a presidir à Assembleia Geral da ONG;
Luís Carvalho, presidente do Conselho Fiscal da ONG, que tinha trabalhado na Tecnoforma e foi mais tarde nomeado administrador da Parque Escolar;
Eva Cabral, ex-jornalista do DN, que também foi da JSD (onde conheceu Passos Coelho) e que na ONG fazia parte do conselho fiscal. Atual assessora do primeiro-ministro.
Já dei provas desta preocupação no passado. Quero voltar ao
tema no futuro. Claro que o PR não legisla. Mas deve inspirar o legislador. É urgente elevar a qualidade dos decisores políticos.
E, para tal, é condição necessária fazer mudanças no sistema eleitoral.
Reforçando a personalização e a responsabilização políticas. É importante
reforçar a dimensão ética dos partidos. E, para o efeito, deve passar a ser
obrigatório que os partidos disponham de Comissões de Ética, dentro da sua
organização, à semelhança do que já sucede com órgãos de cariz disciplinar e
financeiro. De caminho, é preciso acabar com a
solução dos “falsos” deputados. Aqueles que se candidatam e
renunciam logo a seguir à eleição. Agora, sucedeu com o PS. No passado com o
PSD. É das coisas que mais descredibiliza a política e os políticos. Temos de
ser mais criteriosos e exigentes. Não é uma questão de moda. É um imperativo de
defesa da democracia.
• A estabilidade é outra das
minhas preocupações. O país não pode passar a vida em eleições. É
prudente tudo fazer para não acrescentar instabilidade cá dentro à
instabilidade que já vem lá de fora. A este respeito, as eleições legislativas
melhoraram as condições de governação, mas não resolveram por completo a
questão da estabilidade. Daí o papel relevante que terá o novo Presidente da
República. As novas circunstâncias políticas reclamam que reforce a sua
proatividade. Sou muito claro: é preciso evitar Moções de Censura e Moções de
Confiança. É necessário negociar Orçamentos de Estado. E é indispensável que o
PR leve os principais partidos a coresponsabilizarem-se nesta direção. O papel
de mediação presidencial é decisivo. Não para fazer geringonças ou Blocos
Centrais. Mas para evitar crises políticas. O país deve caminhar para a
normalidade de governos de legislatura. Não é uma obsessão. É uma exigência
democrática.
• A ambição é,
finalmente a grande causa nacional. A causa das causas. A grande razão de ser
da minha candidatura. Desde, pelo menos, o início do século que Portugal é um
país sem grande ambição. Cresce pouco, tem um Estado Social com problemas de
sustentabilidade, os salários são genericamente baixos, a burocracia é maior do
que nunca, os grandes bloqueios estruturais mantêm-se e falta um projeto
transformador do país.
Com uma agravante de que raramente se fala no espaço
público: hoje, no Estado, há medo de tomar
decisões. Têm medo os governantes. E têm medo os dirigentes e
técnicos da Administração Pública. Medo do escrutínio mediático e medo do
escrutínio judicial. Se uma não decisão é a pior das decisões, este clima
inédito que se vive hoje, dentro do Estado, não augura nada de positivo.
É neste quadro que o papel do próximo PR é essencial. Não
lhe cabe governar. Mas cabe-lhe inspirar o país e a governação. E não apenas
pela palavra. Nas atuais circunstâncias, a influência do PR não se pode esgotar
no uso da palavra. Ele deve ter um papel de maior proatividade. Assumindo a
função de mediador entre governo e partidos da oposição para vencer os grandes
bloqueios que há anos impedem um maior crescimento da nossa economia e travam
as oportunidades dos jovens: a lentidão da justiça económica; a insuportável
burocracia do Estado; os entraves a maior concorrência; a falta de incentivo a
uma maior internacionalização; os défices de produtividade: ou a falta de
competitividade fiscal.
Esta é a grande inovação a que me proponho com esta
candidatura. Declinar o conceito de mediação e
sublinhar a importância do poder mediador do PR. É mais, muito mais,
do que poder moderador. O poder mediador é proativo: mediar é agir. É ter
iniciativa. É fazer pontes para resolver bloqueios e impasses. É gerar uma nova
cultura de exigência e ambição. Pensar em grande e agir com ambição.
Uma nova ambição para Portugal precisa-se. Afinal, Portugal
não é um mero território. É uma grande nação. Os portugueses merecem uma nova
esperança.
Luis Marques Mendes
Fonte: Sol, 7 de junho de 2025
“Il Prof. Dott. Guido Tersilli primario della Clinica Villa Celeste convenzionata con le mutue” (1969), sob o título “O malandro da bata branca” estreado sexta-feira, 21 de maio de 1971 no Mundial.
O ex-médico de família Guido Tersilli subiu na carreira por meios antiéticos e agora dirige a clínica privada Villa Celeste, em Roma. A clínica foi construída por Tersilli seguindo o conselho da mãe e com apoio financeiro do sogro, que comprou o terreno de uma ordem de freiras. Como diretor, Tersilli impõe uma política agressiva de corte de custos, dando prioridade a pacientes ricos em detrimento dos segurados do sistema público, lotando a clínica com cirurgias desnecessárias e reutilizando constantemente alimentos e suprimentos.
Fonte: Wikipédia








Comentários
Enviar um comentário