Apalaçados e apalhaçados
Perry Mason
(1957-1966) – Abraham Sofaer, Elizabeth Harrower, Mala Powers
Hoje, o
Dono Disto Tudo (DDT) faz anos. Vá lá, todos a parabenizar e a mandar beijinhos
ou abraços a Ricardo Salgado, que celebra o seu aniversário num castelo
milionário na Suíça
Trata-se da residência de Bougy-Saint-Martin, com muitos
hectares de campo a perder de vista, piscinas, jardins franceses, campos de
ténis e várias casas, além da principal, apalaçada.
Por estes dias, enquanto os portugueses apertam o cinto
perante os preços que não param de aumentar, o ex-banqueiro e a sua família
vivem no luxo e com uma mesada de 40 mil euros dada pela filha. Nada mau.
Maria João Salgado, a mulher, que outrora se queixava dos
mosquitos nas mansões aperaltadas da Comporta, agora lamenta ter de contratar
uma cuidadora para a ajudar com o marido ou ter de lhe destinar um quarto no
andar de baixo para “ele não ter de descer escadas e ir à casa de banho”. Que
falta de noção. Nada aprendeu, definitivamente, e continua a ignorar a dura
realidade dos portugueses e de tantos cuidadores informais que se esfalfam para
tratar condignamente os seus, sem pessoal auxiliar ou quartos extra em
palacetes à beira-mar em Cascais. E sem 40 mil euros por mês, claro. Só
mosquitos.
Nem de propósito, as faustas e supimpas celebrações deste
clã foram acompanhadas por este saldo final: os desvarios de Ricardo Salgado
custaram ao Estado (nós todos) milhões e milhões, enquanto a Lone Star ficou
com os cofres a abarrotar!
O Novo Banco, o "banco bom" criado após o colapso
do Banco Espírito Santo, foi agora vendido aos franceses do BPCE por cerca de
6,4 mil milhões de euros.
Ou seja, nestes anos, o fundo Lone Star, multiplicou por
cinco o seu investimento enquanto nós, os contribuintes — que lá injetámos 8 ou
9 mil milhões (a conta não para de aumentar) — ficamos a arder.
Aliás, em 2021, o Tribunal de Contas arrasou a resolução:
“Não foi minimizado o seu impacto na sustentabilidade das finanças públicas nem
reduzido o risco moral”, concluía-se no relatório de auditoria.
Vamos ver quanto mais todos nós vamos ter de desembolsar
para cobrir este crime político e financeiro. Certo é que ainda decorrem
centenas de processos judiciais contra várias entidades (Banco de Portugal,
Novo Banco, Estado, etc.) e se os tribunais decidirem indemnizações será o
Fundo de Resolução (nós) que será chamado a pagar a já pesada fatura. É circo e
os palhaços somos nós.
Hoje é óbvio que, perante o grave cenário financeiro do BES,
no verão de 2014, a escolha devia ter sido a liquidação, como sempre defendi. O
próprio Banco de Portugal estimou que um cenário de falência/ bancarrota teria
levado o Fundo de Garantia de Depósitos a gastar entre 9000 e 18 000 milhões de
euros para reembolsar os depósitos garantidos. Enfim, enquanto os beneficiários
do assalto ao BES não foram privados dos bens e riquezas desse processo, é
cristalino que o Novo Banco serviu de veículo para limpeza de dívidas com
garantias do Estado. Para socializar a dívida, privatizar o lucro; e caucionar
negócios obscuros.
Onze anos depois, centenas de Lesados do BES (os que não se
suicidaram) não recuperaram as suas poupanças de uma vida. Onze anos depois, e
após duas condenações, Ricardo Salgado continua solto e ninguém o prende, mesmo
tendo já perdido o recurso no Tribunal da Relação. Onze anos depois, todos nós
continuamos a sustentar-lhe a vidinha de rajá-sultão-xá. Feliz aniversário,
DDT. É obra!
Joana Amaral Dias
Fonte: Sapo, 25 de junho de 2025
O preço da ganância: quiseram multiplicar o dinheiro – ficaram sem ele.


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