Déjà coup: a guerra com o Irão ativa os becos sem saída da mudança de regime
Doctor
Odyssey – Paris Jackson, Ava Phillippe, Charlotte Lawrence
Os
intervencionistas querem ressuscitar o fracasso favorito da política externa
americana
Já deve ter visto o vídeo viral de uma repórter da televisão
iraniana a fugir do ecrã enquanto Israel bombardeava a estação televisiva onde
estava a fazer uma transmissão em direto. Como rapidamente assinalou Adam
Weinstein, do Quincy Institute, o ataque israelita à infraestrutura de
radiodifusão segue diretamente o manual das mudanças de regime: “visa abalar a
confiança pública na capacidade do governo iraniano de se proteger” e, por
implicação, de proteger os seus cidadãos.
De facto, nos Estados Unidos, há um número constante de
figuras mediáticas e legisladores que têm defendido alto e bom som o aparente
desejo de Israel de derrubar o regime do ayatollah Ali Khamenei.
Se não viu a enxurrada de tweets, aparições em noticiários
por cabo ou artigos de opinião agressivos a apelar aos EUA para se juntarem a
Israel na guerra contra o Irão, basta ler o recente artigo de John Bolton no Wall
Street Journal, intitulado "Os ayatollahs do Irão estão mais fracos do
que nunca". Bolton insiste em como este é o momento para "deitar
abaixo os ayatollahs", afirmando em termos inequívocos que "o
objetivo declarado da América deve ser exatamente esse". Ou seja, e sem
surpresa para ninguém, Bolton está de volta à sua treta — pressionar por uma
mudança de regime no Irão.
Mas eis a questão: as operações de mudança de regime não
funcionam, e há um longo historial de intervenções americanas falhadas para o provar.
Veja-se, por exemplo, as dezenas de operações secretas de
mudança de regime que os Estados Unidos realizaram durante a Guerra Fria. Mais
de 60% destas falharam no objetivo de substituir a liderança política do país
alvo, embora em muitas dessas tentativas inúmeras vidas tenham sido perdidas ou
prejudicadas devido aos esforços americanos. Mesmo as operações de mudança de
regime consideradas “bem-sucedidas” foram ineficazes, dado que, em cerca de
metade desses casos, o governo instalado pelos EUA acabou por ser derrubado,
muitas vezes de forma violenta.
As operações de mudança de regime também tiveram o efeito de
manter os Estados Unidos envolvidos em conflitos irresponsáveis, que têm pouca
ligação com o interesse nacional americano. O comportamento dos EUA durante a
Guerra do Vietname é um exemplo claro. Os Estados Unidos envolveram-se
inicialmente no apoio ao governo de Ngô Đình Diệm, presidente da República do
Vietname (Vietname do Sul), em meados da década de 1950. No final de 1963, já
estava claro que Diệm e a sua administração eram profundamente impopulares, e
os responsáveis americanos autorizaram uma operação de mudança de regime que
“teve sucesso” ao assassinar e substituir Diệm, mas que, no fim, pouco
contribuiu para estabilizar o Vietname do Sul ou aumentar o apoio ao governo.
De facto, a operação manteve os Estados Unidos comprometidos
com um Estado sul-vietnamita condenado ao colapso. Ironicamente,
o principal objetivo estratégico dos Estados Unidos no sudeste asiático era —
adivinhe — forçar a mudança de regime na República Democrática do Vietname
(Vietname do Norte) — um objetivo que os americanos nunca conseguiram alcançar.
Tragicamente, a experiência desastrosa no Vietname pouco
contribuiu para curar o vício americano das mudanças de regime. Ao longo das
décadas de 1970, 1980 e 1990, as forças americanas tentaram forçar mudanças de
regime em vários países, do Iraque a Portugal, da Libéria a Angola e
do Haiti à Sérvia.
Como seria de esperar, a Guerra Global contra o Terror foi
marcada por operações de mudança de regime que — surpreendentemente — acabaram
por minar os interesses dos EUA e uma das razões declaradas para o envolvimento
americano em primeiro lugar: levar a democracia ao Médio Oriente. A dissolução
do Partido Baath no
Iraque levou à insurgência e ao ISIS; a ajuda na remoção de Muammar Kadafi criou um
vazio de poder que resultou na Líbia a mergulhar numa guerra civil devastadora;
e a guerra de 20 anos no Afeganistão,
que começou com a remoção dos talibãs, terminou com o regresso do grupo.
A participação direta dos EUA na guerra de Israel contra o
Irão não seria sequer a primeira tentativa americana de mudança de regime
naquele país. Em 1953, a CIA, em coordenação com o MI6 do Reino Unido, orquestrou um
golpe contra o primeiro-ministro democraticamente eleito do Irão, Mohammad
Mossadegh, instalando o Xá no seu lugar. E em que é que isso resultou? A
Revolução Islâmica de 1979 —
impulsionada em parte pela fúria causada por décadas de interferência americana
no Irão — deu-nos o governo teocrático que Bolton e muitos outros estão agora
obcecados em derrubar. Por outras palavras, o regime que nos dizem que
precisamos de derrubar só tomou o poder por causa da nossa última tentativa de
promulgar uma mudança de regime no Irão.
E no entanto, se assistiu mesmo que fosse a um minuto do
mais recente ciclo de notícias 24 horas, provavelmente já ouviu a expressão
“mudança de regime” dezenas de vezes. Mas por que razão os Estados Unidos
deveriam perseguir a mudança de regime no Irão? Pela ameaça do país obter armas
nucleares? Sem querer desconsiderar uma preocupação legítima, as manchetes
alarmistas sobre as capacidades nucleares do Irão têm ocupado as primeiras
páginas dos principais jornais durante toda a vida dos millennials.
E não estávamos nós justamente a participar em negociações
com o Irão sobre o seu programa nuclear que, segundo todos os relatos, estavam
a decorrer sem problemas — até que os ataques direcionados de Israel eliminaram
altos responsáveis iranianos, incluindo Ali Shamkhani, um dos principais
negociadores do Irão?
Mesmo ignorando o facto de Israel estar claramente no
comando quando se trata de uma guerra com o Irão, é de salientar o quão
devastadora pode ser a procura de uma mudança de regime no país. A população
combinada do Iraque e do Afeganistão em 2003 era de apenas 50 milhões; a
população atual do Irão é de aproximadamente 88 milhões. O tamanho combinado do
Iraque e do Afeganistão é de 1 177 000 quilómetros quadrados; o Irão tem uns
impressionantes 1 625 000 quilómetros quadrados. Neste contexto, uma
mudança de regime provavelmente não resultaria em mais do que a morte e o
desenraizamento para o povo iraniano. Mesmo que os Estados Unidos desejassem
transformar o Irão numa democracia capitalista liberal, é muito difícil
imaginar como é que isso poderia ser conseguido.
É quase desnecessário dizer: os americanos devem resistir a
serem arrastados para mais uma aventura militar desastrosa ao serviço de uma
estratégia que não funciona nem nunca funcionará.
C. Kaye Rawlings
Fonte: Responsible Statecraft, 18 de junho de 2025

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