Documentos encontrados em Gaza revelam coordenação entre o Hamas e o Qatar contra plano de paz de Trump
Perry Mason (1957-1966) – Barbra Fuller
Documentos descobertos pelas forças israelitas durante
operações militares em Gaza revelam uma coordenação apertada entre o Hamas e o
Qatar para travar o chamado “acordo do século” —
a
proposta de paz do presidente norte-americano Donald Trump para o conflito
israelo-palestiniano — e para
sabotar a aproximação diplomática de países árabes a Israel. A revelação foi
feita pela cadeia televisiva israelita Canal 12, que teve acesso aos
documentos.
A narrativa que emerge desses
papéis, alguns dos quais confidenciais, traça um fio condutor entre
o apoio do Qatar ao Hamas e a sobrevivência do grupo islâmico ao longo dos anos
— apoio esse que, segundo a reportagem, terá sido determinante para a capacidade logística e financeira que permitiu ao Hamas
lançar o ataque de 7 de outubro de 2023 contra
o sul de Israel.
Numa reunião de emergência em junho de 2019, o emir do
Qatar, Tamim bin Hamad Al Thani, recebeu em Doha altos responsáveis do Hamas
para discutir as implicações do plano de paz norte-americano e da crescente
disposição de vários países árabes em normalizarem relações com o Estado
judaico. O próprio emir terá alertado que, entre os países a ceder à pressão
diplomática dos EUA, estaria a Arábia Saudita.
“Precisamos de cooperar para resistir ao acordo do século e
travá-lo”, terá respondido Khaled Mashaal, uma das figuras históricas do
movimento islamista palestiniano, segundo consta dos documentos citados pela
estação israelita.
Meses depois, em dezembro de 2019, Ismail Haniyeh, então
líder do Hamas, terá sublinhado a importância do apoio financeiro qatari numa
reunião com Mohammed bin Hamad Al Thani, então ministro dos Negócios
Estrangeiros e atual primeiro-ministro do Qatar. “As subvenções do Qatar são a
principal artéria do Hamas”, terá afirmado Haniyeh, referindo-se aos pagamentos
em dinheiro enviados por Doha para Gaza.
O plano de Trump — oficialmente apresentado em 2020 sob o nome
Peace to Prosperity: A Vision to Improve the Lives of the Palestinian and
Israeli People (Paz para a Prosperidade: Uma Visão para Melhorar as Vidas dos
Povos Palestiniano e Israelita) — propunha
uma solução de dois Estados que deixava de fora os colonatos israelitas na
Cisjordânia, concedia aos palestinianos partes do deserto do Negueve e prometia
um generoso pacote de ajuda económica. Mas nunca chegou a sair
do papel.
Outro dado relevante nos documentos agora tornados públicos
é que o Hamas terá procurado diluir a influência
diplomática do Egipto na Faixa de Gaza, substituindo o seu papel
tradicional de mediador pelo do Qatar. Uma carta escrita por Yahya Sinwar
(líder de facto do enclave) a Ismail Haniyeh, datada de maio de 2021, depois de
11 dias de confrontos com Israel, dá conta dessa estratégia: “Os egípcios
tentaram conter a escalada, mas fizemo-los sair de cena de mãos a abanar. No
seu lugar, vieram os qataris, a quem demos oportunidade de colher os frutos da
diplomacia”.
Há muito que se sabe da relação ambígua entre Doha e o
Hamas. Os documentos agora
divulgados acrescentam-lhe, porém, novos contornos — mais claros, mais
comprometedores, e com implicações que se estendem para além da Faixa de Gaza.
Fonte: CNN Portugal, 8 de junho de 2025
Nas guerras modernas os soldados nem precisam de sair do conforto das camaratas para encontrarem documentos maliciosos do inimigo, sobretudo para confirmar uma ideia posta a circular logo no início do conflito.
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