Bidenistas fazem aterragem suave no coração da lucrativa indústria da guerra

Perry Mason (1957-1966) – Mort Mills, Raoul De Leon

Trump revogou a regra que fechava a brecha da “porta giratória” — e quem está a beneficiar? Lloyd Austin, Brett McGurk e o exército de principais “consultores” de Washington

Em 2021, o general reformado Lloyd Austin declarou que “não tinha intenção de ser lobista”. A 3 de junho, menos de seis meses após deixar o cargo, o antigo secretário da Defesa do presidente Joe Biden anunciou que iria lançar uma nova firma de consultoria estratégica chamada “Clarion Strategies”. Alguns senadores alegam que isto é, simplesmente, lobby disfarçado sob outro nome.

Uma apresentação obtida pela Politico indicava que o nome Clarion Strategies é uma “referência ao seu objetivo de fornecer aos clientes a clareza necessária para navegar o tumulto geopolítico impulsionado pela guerra na Ucrânia, pelos avanços na tecnologia de defesa como a inteligência artificial e os sistemas não tripulados, pelas mudanças no comércio global e pelas alianças emergentes entre adversários dos EUA como a Rússia, a China, a Coreia do Norte e a China”. Por outras palavras, a nova firma pretende claramente atrair clientes da indústria da defesa.

E não deverá ter grandes dificuldades — a Clarion Strategies conta com uma equipa de estrelas da administração Biden que, além de Austin, inclui o antigo secretário dos Assuntos dos Veteranos Denis McDonough, o antigo secretário Adjunto da Defesa para os Assuntos de Segurança do Indo-Pacífico Ely Ratner, e a ex-Representante Permanente dos EUA na NATO Julianne Smith.

A notícia preocupou dois membros da Comissão de Serviços Armados do Senado, Elizabeth Warren (democrata do Massachusetts) e Rick Scott (republicano da Florida), ao ponto de escreverem uma carta a Austin no dia 30 de junho, expressando as suas “sérias dúvidas” sobre a possibilidade de decisões tomadas por ele em funções “terem beneficiado contratistas de defesa e outras empresas que agora poderão ser [seus] clientes”.

Existe um período de nojo que proíbe funcionários do poder executivo — normalmente entre um e dois anos, dependendo da hierarquia — de fazer lobbying junto das suas antigas agências. No entanto, Warren observou que “Austin parece ter encontrado uma brecha ao servir como ‘consultor’ em vez de lobista registado”. Esta brecha, conhecida como a “brecha da consultoria estratégica”, permite que alguns antigos responsáveis evitem o período de espera legal para atividades de lobbying, simplesmente assumindo o título de “consultor”, o que lhes permite coordenar campanhas e aconselhar lobistas.

Desde que o secretário Austin não participe diretamente em ações de lobby, está autorizado a trabalhar com qualquer contratista militar que o venha procurar.

Warren e Scott condenaram Austin por ter recuado na promessa feita em 2021 ao recorrer a esta brecha legal e exigiram que a sua nova empresa divulgue a lista de clientes e contratos. “Pedimos que reconsidere as suas ações”, escreveram. “Se não estiver disposto a fazê-lo, então, no mínimo, deverá garantir transparência pública quanto ao seu novo papel.”

O presidente Biden tentou reprimir este tipo de lobbying sombra, proibindo certos altos funcionários — como o secretário Austin — de recorrerem a esta brecha legal. No entanto, Trump revogou essa ordem executiva logo no primeiro dia do seu segundo mandato. Apesar de ter criticado duramente, durante a campanha, a “porta giratória” como sendo “um grande problema”, a decisão de Trump de anular as regras de ética acabou por beneficiar os funcionários da administração Biden, permitindo-lhes aceder a cargos lucrativos no sector privado a uma velocidade recorde. “É, de facto, um grande favor aos nomeados políticos da administração Biden,” afirmou Rob Kelner, sócio da firma de advocacia (e lobbying) Covington & Burling, ao Politico.

Craig Holman, lobista do grupo Public Citizen no Capitólio para questões de ética, lobbying e financiamento de campanhas, explicou por e-mail à Rolling Stone que a revogação dessas regras obrigou o sistema a depender de restrições anteriores mais frágeis sobre a porta giratória, que não impõem qualquer limitação à chamada “consultoria estratégica”. Segundo Holman, “a lei, na verdade, encoraja esta forma de lobbying sombra”.

Vários outros responsáveis pela política de defesa da administração Biden estão a seguir os passos de Austin, passando a trabalhar em firmas de consultoria estratégica.

Faiq Raza, o antigo responsável do Pentágono junto do Congresso para os assuntos de aquisição, é agora consultor sénior do The Roosevelt Group, uma firma de consultoria com reconhecida especialização em defesa, instalações militares e processos orçamentais. Segundo o OpenSecrets, o grupo tem atualmente nove clientes no sector da defesa, incluindo a Airbus e a RTX (anteriormente conhecida como Raytheon). Já Doug Bush, antigo responsável pelas aquisições do Exército durante o mandato Biden, fundou a sua própria firma de consultoria, a DRB Strategies. Após quatro anos à frente das aquisições do Exército, a nova firma de Bush dedica-se a contratos governamentais, aquisições e “estratégias legislativas para empresas com foco na segurança nacional”.

“Só se pode esperar que os antigos responsáveis da administração Biden acreditassem sinceramente nas restrições à porta giratória que subscreveram — e que decidissem, voluntariamente, viver de acordo com esses princípios”, afirmou Craig Holman. “Mas os novos cargos de consultoria do ex-secretário Austin e de outros sugerem que não é esse o caso.”

Outros responsáveis da área da defesa da administração Biden estão a ser mais criativos, trabalhando com capitalistas de risco e bancos com fortes ligações à indústria de defesa.

Menos de dois meses após deixar o cargo, o antigo chefe de gabinete de Austin, Derek Chollet, foi recrutado pelo JPMorganChase para liderar o novo Center for Geopolitics (Centro de Geopolítica) do banco. Segundo o site da unidade consultiva, o Centro tem como objetivo ajudar os clientes do banco a responder às mudanças no panorama geopolítico “através de eventos, webinários, chamadas, pequenos grupos presenciais e conversas individuais”.

O relatório inaugural do Centro, assinado por Chollet, sublinhou a necessidade urgente de reconstruir, modernizar e expandir rapidamente a base industrial de defesa dos EUA, a fim de manter a influência estratégica internacional. O relatório defendia, em particular, que esse esforço requer um aumento do orçamento de defesa e a criação de pacotes de aquisição plurianuais para armamento como os sistemas HIMARS e os mísseis intercetores PAC-3. Estas armas são produzidas por um cliente do JPMorgan Chase Bank, a Lockheed Martin, que tem com o banco um acordo de crédito no valor de 3,5 mil milhões de dólares.

Brett McGurk, principal conselheiro de Joe Biden para o Médio Oriente, esperou apenas três semanas após sair da administração para se juntar à Lux Capital como sócio de capital de risco. A Lux Capital é uma firma de capital de risco que investe em empresas de tecnologia de defesa, como a Anduril, especializada em armamento autónomo. No anúncio da contratação, a Lux elogiou McGurk, dizendo que a sua “combinação única de experiência diplomática e de criação de parcerias estratégicas é inestimável, à medida que continuamos a apoiar fundadores que constroem empresas transformadoras e que estão a remodelar o mundo.”

O prestígio de McGurk também lhe garantiu um cargo como analista de assuntos globais na CNN, onde é simplesmente apresentado como “ex-coordenador da Casa Branca para o Médio Oriente e Norte de África” — omitindo o seu novo papel na Lux. Nas últimas semanas, McGurk usou a sua plataforma na CNN para defender ataques militares ao Irão: “Portanto, se [quiserem] destruir Fordow — e no fim disto, penso que Fordow terá de ser resolvido, seja diplomaticamente, seja por ataque militar — a opção militar dos EUA está realmente em cima da mesa.”

Caso houvesse dúvidas sobre onde estão os interesses da Lux, o cofundador da firma de capital de risco, Josh Wolfe, escreveu na rede X (antigo Twitter) que espera pelo “dia em que possamos fazer os nossos primeiros investimentos Lux num Irão livre + aberto.”

Por fim, alguns antigos responsáveis da defesa da administração Biden optaram por eliminar intermediários e já estão a trabalhar diretamente para contratantes do Pentágono.

Em maio, a Aerospace Corporation nomeou dois altos responsáveis do Pentágono sob a administração Biden para o seu conselho de curadores — Bill LaPlante, antigo subsecretário da Defesa para Aquisição e Sustentação, e Frank Calvelli, secretário Adjunto da Força Aérea para Aquisição e Integração Espacial. Em junho, o antigo subsecretário do Exército, Gabe Camarillo, aproveitou a sua experiência para assumir o cargo de vice-presidente Sénior para Soluções em Tecnologia de Defesa na KBR — um conhecido contratante do Exército — supervisionando um orçamento de 2 mil milhões de dólares para apoiar “capacidades de defesa terrestre, marítima, aérea e no ciberespaço para o Departamento de Defesa dos EUA, o ministério da Defesa do Reino Unido e as Forças de Defesa Australianas.”

E na semana passada, Heidi Shyu, subsecretária da Defesa para Investigação e Engenharia na administração Biden, juntou-se ao conselho de administração da Areté, uma empresa de ciberdefesa que atualmente detém contratos com a Marinha e com a Agência de Informações da Defesa (DIA).

Com os quadros do Pentágono de Biden a atravessar a porta giratória a uma velocidade estonteante, a lista continua a crescer. Quer se trate de uma empresa de consultoria envolvida em lóbi sombra, de uma firma de capital de risco, ou mesmo de um contratante direto do Pentágono — a escolha é do freguês.

Nick Cleveland-Stout

Ashley Gate

Fonte: Responsible Statecraft, 3 de julho de 2025

Comentários

Mensagens populares deste blogue

Eva Vlaardingerbroek