Camila Sosa Villada. O inferno empresta-vos as put*s
As mulheres brasileiras mais bonitas são, por mistério… homens. Natalia Dior é uma mulher com pénis, perfeita para estar por trás de políticos profissionais, aspirantes à política, comentadores versados, jornalistas independentes… todos, com uma grande mulher por trás, vão mais longe que as estrelas de mr. Sulu no "Star Trek".
Atravessando
aquele que tem sido, desde o princípio, um dos segredos mais ocultos da
sociedade, na obra de Camila Sosa Villada reconhecemos como as putas travestis
emergem como figuras que vêm romper com os vícios habituais dos romancistas, os
plágios dos clássicos, as imitações baratas das obras canonizadas
Durante séculos, as putas acumularam segredos. Trancaram na
boca os registos de encontros fortuitos, episódios violentos e outras
circunstâncias ocultas, ainda por saber. Criaram mundos invertidos, observaram
personagens de pernas para o ar enquanto os amantes as descreviam com um olhar
torto, escorçado e pouco fidedigno, tardiamente murcho e patético. De cada vez
que eles saíam de dentro delas, sem o saberem, fechavam à chave o arquivo com
todas as histórias que os precediam. E então, como víboras descosendo a pele,
lá se renovavam elas para improvisar aquela que seria a próxima personagem do
teatro a entrar em cena. Ao contrário da miséria garantida para os restantes atores
e atrizes, as putas talvez tenham sido as únicas que dizem ter feito muito
dinheiro com o teatro. «Vou à procura dos
clientes, sou jovem, sei contar histórias e mentir, falo com eles enquanto
fodo, conto-lhes histórias pornográficas. Subo para cima deles, monto-os e
conto-lhes que, ainda criança, um senhor mais velho me sentou ao seu colo e
brincou comigo ao corcel e à amazona. Não há nada que lhes dê mais pica do que
fantasiar com meninas abusadas. Explodem dentro de mim, que sou quase uma
menina, ainda nem atingi a maioridade. Uma gueixa comechingona, é o que sou.
Encontro essa veia na contenda selvagem que é a minha marca»,
descreve Camila Sosa Villada.
De hora em hora, engendraram conversas díspares nos limites
mais desafiantes que se pôde imaginar. Subiu-lhes à boca um idioma proibido,
resultante das palavras mortas que entre conversas perdidas e traduções
desqualificadas acabaram por desenvolver uma língua de recorrentes e
imprevistas criações. À revelia de todas as outras, esta parece-nos hoje uma
língua esquiva a todas as teorias, e aquilo que nos chega dela parece ter sido
arrancado desse universo experiente da mentira e da sobrevivência, de uma vida
na eminência do perigo, nem por isso a salvo quando coberta com a sombra
daqueles com quem se deita. «A sedução, os preliminares, o coito, o
pós-orgasmo, a descrição subsequente, íntima ou audivelmente articulada, são
tão diferentes de caso para caso como os vocabulários e as gramáticas. (…) Os
pares eróticos forjam os seus dialetos particulares de desejo e gratificação.
(…) Os amantes fazem um ao outro dons cujo sentido é um seu segredo. Nomeiam de
novo os objetos, as circunstâncias que mobilam os seus espaços eróticos, num
impulso adâmico de recriação. Dão literalmente um outro nome a certas partes
dos seus corpos, às posições sexuais, aos gestos íntimos que precedem a nudez.
(…) Uma forma de expressão libidinal durante muito tempo suprimida e
socialmente censurada talvez venha à superfície» (George Steiner).
Ao desvirginarem as cidades e ao travestirem-se conforme os
desejos mais selvagens – por vezes secas e duras, de costelas magras vincadas
na pele como aqueles radiadores antigos que aquecem o peito a um preço
inflacionado, outras romanticamente barrocas e chorudas nas páginas dos poetas,
dos romancistas e dos supostos dramaturgos – é certo que lhes ficou por fazer
um retrato mais fidedigno, qualquer coisa que não seja uma mera «adaptação,
quase desdenhosa, do que eram a obscenidade e a licenciosidade clandestina do
discurso masculino» (George Steiner). Considere-se,
então, a hipótese inversa de que talvez tenham sido elas a manipular as mãos
dos poetas, convertendo-os em meia dúzia de bonifrates ao serviço das letras.
Desaparecidas da berma para os carros, de uns quantos quartos para os outros,
de casa em casa, de caderno em caderno, hoje habitam por dentro de cada
movimento e pedem «emprestado ao inferno a substância da sua sedução».
Camila Sosa Villada, numa entrevista a Tiago Manaia,
conta-nos como a língua e a experiência das travestis são intransferíveis para
a linguagem, e acrescenta: «Bem, há meninos e
pessoas que se recordam da primeira viagem que fizeram à Disney, do dia em que
deram a mão ao Messi, ou recordam a vez em que viram a Madonna num concerto. Eu
recordo-me dessas primeiras noites com as travestis, lembro-me de ter alucinações
porque estava bêbada ou drogada (com pastilhas, cocaína ou marijuana). Olhava
para travestis que se comportavam de uma forma que nunca tinha visto na minha
vida. Com uma força e com um humor, uma falta de respeito pela linguagem e
pelos outros, uma falta de respeito pela noite e pela natureza, que me ficaram
marcadas como memórias feitas a ferro quente».
No romance de estreia ‘As Malditas’, mais um volume
notável do catálogo dos BCF Editores, traduzido por Helena Pitta, a autora
argentina demonstra-nos como as putas travestis, de um modo anárquico e
anti-sistémico, contrariam as imagens canonizadas pela tradição literária. Com
uma linguagem que à primeira vista se revela um tanto agridoce e promete ainda
vir a engrandecer-se, não tarda a emergir um fenómeno cada vez mais raro entre
aqueles que arriscam a escrita. Sem incorrer numa postura excessivamente
estética, por norma barroca e excrescente na estreia de qualquer autor,
encontramos parágrafos poderosos e bem mais poéticos porque avançam com
urgência, dizem coisas tremendas em vez de se perderem entre a pose e o estilo.
Mesmo nos momentos em que soam mal, sabem a novo.
O livro começa com um parto selvagem, um bebé encontrado no
meio da floresta onde tantas delas se prostituem e se veem obrigadas a, tal
como ele, se juntarem numa «cumplicidade de órfãs». Invertendo de um modo
espantoso uma das imagens mais convencionais e cansadas da tradição da
literatura ocidental, encontrada, por exemplo, na Ilíada de Homero, é como se
substituíssemos os versos «Por seu lado a mãe lamentava-se lavada em lágrimas,
/ desapertando o vestido e com a outra mão mostrando o peito» por uma outra
imagem mais poderosa como a de uma travesti com uma criança ao colo: «A Tia
Encarna despe o seu peito siliconado e aproxima dele o bebé. O menino cheira o
peito duro e gigante e agarra-se a ele com tranquilidade. Não conseguirá
extrair desse mamilo uma única gota de leite, mas a mulher travesti que o tem
ao colo finge amamentá-lo e canta-lhe uma canção de embalar. Ninguém neste
mundo sabe o que é dormir realmente se não teve uma travesti a cantar-lhe uma
canção de embalar».
Logo de seguida, arranca uma série de histórias cujos
espaços – para nós intersticiais ou transitórios – se convertem em lugares de
permanência das comunidades travestis. As casas de banho transformam-se em
pistas de dança. Os jardins e os parques são os escritórios de segunda mão. Os
camiões são os auditórios onde se recitam poemas da Gabriela Mistral. Os táxis
são as urgências hospitalares para os dias de chuva, que provocam dores agudas
nos joelhos e nas cicatrizes das balas. As farmácias nascem como esquadras
«porque é sempre melhor estar na enfermaria do que no coração da violência» e
os enfermeiros são os novos amantes face aqueles que as contratam, por quem por
vezes se apaixonam.
As esquinas, em vez de contornos, dobras ou rótulas das
cidades, passam, tal como no mercado imobiliário, por zonas de maior exposição
e rentabilidade, o que empurra a puta para uma lógica concorrencial e,
sobretudo, para uma posição contraditória. Se por um lado compactua com o
sistema e se converte numa máquina de fazer dinheiro, com os seus vícios de
consumo e espetáculo, não deixa, porém, de ser encarada como uma ameaça ao
capitalismo, uma vez que é paga com dinheiro sujo, não declarado e sem registos
de transação, comprometendo-o e substituindo um mercado dito legítimo – mas
eternamente mais pornográfico – por um outro clandestino. Assim, a puta
consegue ser tão secreta, marginal e contrária à luz do dia, como vítima dos
desejos e pressões capitalistas. «Não interessa se somos menores, analfabetas,
se temos família ou não. A única coisa que interessa é a vitrina. O mundo é uma
vitrina. Prostituímo-nos para comprar às prestações tudo o que as suas montras
oferecem. Uma só noite e basta, uma noite e o dinheiro chega-nos às mãos, às
carteiras. No dia seguinte pagamos o aluguer, acalmamos a necessidade de
sedução. Uma noite e já podemos ser como eles, as filhas pródigas vão às compras,
vão saldar dívidas, batem às portas das lojas como fanáticas do consumo».
Atravessando aquele que tem sido, desde o princípio, um dos
segredos mais ocultos da sociedade, chegamos à contracapa com a sensação de que
estas putas travestis foram e continuam a ser uma das grandes possibilidades
para se romper com os vícios dos romancistas, os plágios dos clássicos, as
imitações baratas das obras canonizadas, os temas e as descrições prescritas
pelas instituições que dão prémios, as estruturas e os personagens que melhor
encaixam nos críticos. «As travestis trepam todas as noites desse inferno sobre
o qual ninguém escreve, para devolver a Primavera ao mundo.», atira Sosa
Villada. Desde já porque invertem todas as características comuns ao
personagem-tipo, elemento tido como o mais imprescindível e único necessário
para a construção de um romance.
Ao contrário de qualquer outro personagem literário,
«ninguém trata as travestis pelo nome a não ser as próprias. As outras pessoas
ignoram os nossos nomes, usam o mesmo para todas: prostitutos. Somos as gajas
com pega, os esgalha gansos, os brochistas, os calcinhas com cheiro a tomates,
os barrotes, os vergalhos, os esquentadores, os latagões muitas vezes, os
garanhões no mínimo, os idosos, os doentes, é o que somos». Temos, assim, que
apesar dos inúmeros sinónimos de ‘puta’ – cujo termo entretanto nos serve como
uma granada entalada na boca para insultar mães, pais, tios, professores e
afins – não lhes foi conferido outro destino senão o de continuarem a mover-se
no anonimato. Perdemos os acendedores de candeeiros públicos, os copistas, as
lavadeiras, os tanoeiros, os bobinadores, os telefonistas, e, no entanto, ao
lado das putas, «apareceu uma palavra que cheirava a morte, a merda, a sémen, a
prostituição, a noite, a frio, a subornos, a sangue e a cárcere, a abandono e a
miséria. Uma palavra afiada como uma lâmina, ofensiva, cheia de sujidade. (…)
Travesti! – diziam, e isso bastava para formatar a imaginação e a rejeição de
toda uma sociedade que já se tinha adaptado a essa forma de identificação».
Nas travestis o corpo é uma entidade indefinida, uma
«existência ferida», um lugar onde as perguntas aparecem antes das respostas.
Mais do que a urgência em ser catalogado, suspendem-se as regras da
nomenclatura e é aí que reside a grande potencialidade. Os corpos são, assim,
descritos como «uma fração dolente e inesquecível», como se a pele cobrisse «um
cheiro a carne podre» e fosse um espaço deixado em branco pelas cicatrizes e
nódoas dos sucessivos dias de sova. Surge o corpo como «uma flor da selva, uma
flor repleta de peçonha, vermelha, com pétalas de carne». Sosa Villada parece
propor-nos uma outra metamorfose capaz de substituir a de Gregor Samsa. Ambos
retratam um corpo que assume a culpa de existir e se vê expulso da norma,
tornando-se irreconhecível. A diferença é que em Kafka, Samsa é castigado com
uma metamorfose que o expulsa do mundo humano, tornando-se num monstruoso inseto
à luz do dia, isolado num quarto de três portas. Enquanto que a puta travesti
invade a cidade e escolhe pertencer a uma comunidade que transgride as regras
do jogo, expulsando-se a si mesma, sem no entanto chegar a suprimir todos os
elementos que estabelecem uma relação dela com o mundo, engendrando um corpo
estranho, manipulado, uma soma de cortes e acrescentos que o corrigem e
conduzem para um lugar onde o belo é a recusa e a contradição face ao que os
outros encontram no espelho.
«Executava a minha metamorfose, feliz, eufórica. O ritual
começava em casa dos meus pais, onde, no duche, rapava as pernas com lâmina de
barbear. Continuava com as mentiras necessárias para que me deixassem sair.
Saía de minha casa como um rapazinho tímido (…) e quando ninguém me via entrava
no meu palácio de tijolos por rebocar e tratava de me transformar em Camila. O
par de meias roubado à minha avó, o vestido que costurei com uma cortina que
cheirava a inseticida, a maquilhagem que as minhas colegas, as minhas primas ou
a minha mãe já não usavam. O perfume que meti ao bolso quando a senhora da
farmácia se distraiu. Os sapatos que consegui comprar às escondidas, depois de
dois anos a poupar cada moeda que o meu pai me dava para o lanche do recreio.
(…) Sem o saberem, todos colaboraram com a menina que passeava de noite o seu
rabo jovem pelos mesmos passeios que percorria de dia, vestida de rapaz, a
andar como um rapaz, protegida pelo rapaz que queria ser invisível».
E por baixo desse sudário de restos empalmados, guardavam-se
os corpos metamorfoseados sem decência, anavalhados meticulosamente e expostos
como um retábulo quase sagrado – «um animal adormecido bem guardado nas
calcinhas, ou uma vagina aberta à força de bisturi», a «pele de galinha, com os
pelos eriçados, as brânquias abertas, os maxilares tensos», «a cabeça muito
baixa, esse gesto que as torna invisíveis», «aquele cabelão longo e ressequido
com ervas e folhas do seu improvisado local de trabalho», o «abdómen
recentemente emagrecido à vista de todos», «uns pezinhos que não chegavam a
encher um sapato de tamanho 37 e uma voz completamente feminina».
Outra característica que deriva do corpo, neste caso o corpo
das putas, são as infinitas posições a que estas estão sujeitas. Ao contrário
do corpo burguês, a puta nunca repousa: contorce-se, oferece-se, encena. Não se
senta: posa ou esmaga. Não se deita: exibe-se e performa. Não se endireita:
finge e desafia. Do mesmo modo que o homem burguês nunca se põe de gatas como
uma empregada doméstica, ou de cócoras como um canalizador, ou de bruços como
um mecânico, ou de joelhos como um sapateiro – a não ser na missa. Tem, por
isso, que ver com uma questão de classes, o que nos recorda a explicação de
David Graeber acerca da evolução das economias baseadas na dívida, afirmando
que desde a Mesopotâmia, se serviam de mulheres pobres, especialmente filhas de
famílias endividadas, forçando-as a prestar serviços sexuais como forma de
pagamento ou garantia de dívidas. Resta-nos, então, a derradeira questão como
uma ferida aberta e cheia de pus: as putas multiplicam-se apesar ou porque
representam uma ameaça às convenções sociais de família, filiação e
fertilidade?
Não sabemos, mas uma coisa é certa: «A economia ruiria, a
existência selvagem devoraria todas as normas se as putas não oferecessem o seu
amor carnal. Sem as prostitutas, este mundo mergulharia no negrume do
Universo».
João Vasco Rodrigues
Fonte: Sol, 9 de julho de 2025
Natalia Dior, tcc Carolina Belli – 1,70 m, 55,9 kg, dote 18 cm, nascida a 12 de julho de 1997 em São Paulo.
Natalia Dior é uma travesti brasileira escaldante com um corpo incrível, um rabo quente e uma vontade de lhe chupar o pau a noite toda. É uma rapariga versátil, talvez prefira ser mais passiva, mas está pronta para tudo, sabe como deixar o seu pénis duro e pronto para explodir por todo o quarto.


















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