“É um campo de concentração, lamento”: “cidade humanitária” em Gaza é para “limpar” palestinianos, diz ex-primeiro-ministro israelita
Death in
Paradise - Ralf Little
Israel
quer construir uma zona fechada, no sul da Faixa de Gaza, para alojar toda a
população do enclave lá (cerca de 2,13 milhões de pessoas). Os palestinianos
não vão poder sair da chamada “cidade humanitária” e serão vigiados pelas
Forças de Defesa israelitas. Ehud Olmert, antigo primeiro-ministro de Israel,
fala numa “limpeza étnica” em Gaza, onde estão a ser cometidos “crimes de
guerra”
O plano de colocar toda a população da Faixa de Gaza numa
zona fechada designada por “cidade humanitária”, no sul do enclave, “faz parte
de uma limpeza étnica” e é o equivalente a colocar dois milhões de
palestinianos num “campo de concentração”. A acusação foi feita pelo antigo
primeiro-ministro israelita, Ehud Olmert, numa entrevista ao The Guardian
publicada este domingo.
Em causa está o projeto apresentado pelo ministro da Defesa
israelita, Israel Katz, na última segunda-feira, de construir sobre as ruínas
do sul de Gaza um complexo fechado e transferir para lá, numa primeira fase,
600 mil palestinianos que vivem na zona costeira de al-Mawasi, no prazo de 60
dias após um acordo de cessar-fogo. A ideia, segundo Israel Katz, é que toda a
população do enclave — cerca de 2,13 milhões de palestinianos — acabe lá
alojada, após passarem por uma “triagem de segurança”. Isto é, para garantir
que não pertencem ao Hamas.
“É um campo de concentração. Lamento”, afirmou Ehud Olmert,
que esteve no poder entre 2006 e 2009 pelo partido centrista e liberal Kadima
(Avançar). “Se eles [os palestinianos] forem deportados para a nova ‘cidade
humanitária’, então pode-se dizer que tal faz parte de uma limpeza étnica”,
acrescentou em entrevista ao jornal britânico, dizendo que esta é a
“interpretação inevitável” do anúncio do ministro da Defesa de Israel.
“Quando eles [autoridades israelitas] constroem um campo
onde planeiam ‘limpar’ mais de metade de Gaza, então a compreensão inevitável
da estratégia disso é que não é para salvar os palestinianos. É deportá-los,
expulsá-los e descartá-los. Não tenho outra compreensão, pelo menos”, disse
ainda o advogado, que também já foi autarca de Jerusalém (1993-2003),
vice-primeiro-ministro de Israel (2003-2006), primeiro-ministro interino
(2006). Olmert disse ainda que Israel já estava a “cometer crimes de guerra” em
Gaza e na Cisjordânia ocupada.
13 mil edifícios destruídos em 3 meses em Rafah
O projeto também já foi contestado pela Organização das
Nações Unidas (ONU). “Criaria, de facto, campos de concentração em massa na
fronteira com o Egito para os palestinianos, deslocados repetidamente ao longo
de gerações. Privaria os palestinianos de qualquer perspetiva de um futuro
melhor na sua terra natal”, advertiu Philippe Lazzarini, comissário da agência
da ONU para os Refugiados Palestinianos (UNRWA), banida por Israel, que alertou
ainda para o deslocamento forçado e em massa da população.
Segundo o ministro da Defesa, os trabalhos na “cidade
humanitária” podem começar durante o cessar-fogo entre Israel e o Hamas, que
ainda estão em negociação, com a ajuda dos Estados Unidos, Catar e Egito, para
alcançar um acordo de tréguas de 60 dias. Os palestinianos não vão poder sair
desta zona, que será protegida pelas Forças de Defesa de Israel e administrada
por organizações internacionais, apesar de Katz não ter especificado quais. O
governante disse ainda que os palestinianos devem “emigrar voluntariamente”
para outros países. Todo o plano é apoiado pelo primeiro-ministro, Benjamin
Netanyahu.
Uma investigação da Al Jazeera revela que as forças
israelitas já estão a preparar o terreno para construir a “cidade humanitária”
no sul do enclave. Imagens do Centro de Satélites das Nações Unidas mostram que
a destruição da província de Rafah, no sul, está a acelerar: o número de edifícios
demolidos aumentou de 15 800 e de abril para cerca de 28 600 até 4 de julho
(data dos dados mais recentes). Quase 13 mil edifícios foram, assim,
destruídos, num espaço de três meses.
Desde o início da guerra, a 7 de outubro de 2023, morreram
mais de 58 mil pessoas na Faixa de Gaza, de acordo com o balanço mais recente
das autoridades de saúde locais, considerado fidedigno pela ONU. Entre
palestinianos mortos, desaparecidos ou que fugiram nos últimos 20 meses, o território perdeu cerca de 7% da sua população,
segundo o Gabinete Central de Estatística da Palestina. Do lado israelita, o
Hamas fez 1200 vítimas mortais. O grupo ainda mantém sob a sua alçada 50 dos
250 cidadãos (30 dos quais estarão mortos) que sequestrou no ataque aos kibutzes
do sul de Israel e ao festival de música Supernova.
Fonte: Expresso, 14 de julho de 2025

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