Francesca Albanese, Relatora Especial da ONU para os Territórios Palestinianos Ocupados: "Israel comete crimes como se respirasse. É preciso travá-los"
Perry Mason
(1957-1966) – Marie Windsor, John Conte
A advogada italiana afirma que o "genocídio" em
Gaza, de que há provas "esmagadoras", não cessa porque muitos estão a
lucrar com ele. Esta apresentará um novo
relatório na próxima semana onde constam os nomes das empresas envolvidas.
A avaliar pelos ataques dirigidos à advogada italiana
Francesca Albanese, de 48 anos, Israel e a sua máquina de propaganda parecem
temer esta jurista, que ocupa o cargo de Relatora Especial da ONU para os
Territórios Palestinianos Ocupados desde 2022. Em março de 2024, quando poucas
pessoas se atreviam a acusar aquele país de crimes contra a humanidade em Gaza,
muito menos de genocídio, Albanese publicou um relatório intitulado
"Anatomia de um Genocídio". Este crime internacional, talvez o mais
grave de todos, está agora a desenrolar-se com "evidências
contundentes", afirmou a relatora numa entrevista ao EL PAÍS
realizada no centro cultural Círculo de Bellas Artes, em Madrid, na
terça-feira.
"Israel comete crimes como se respirasse. A única forma
de proteger não só os palestinianos, mas também os israelitas, é impedi-los. É
uma ameaça à paz e à segurança", afirma a relatora da ONU com firmeza. Albanese defende que o problema não se limita ao governo
de Benjamin Netanyahu, uma vez que, de acordo com as estatísticas
publicadas pelo jornal Haaretz, 80% da população israelita apoia a
limpeza étnica dos palestinianos. "Esta sociedade precisa de ser
curada", acrescenta.
Albanese apresentará um novo relatório na próxima semana que
listará os nomes das empresas "que lucraram com o genocídio".
Pergunta. Numa entrevista ao EL PAÍS em janeiro de 2024,
referiu um "genocídio muito provável em Gaza". Agora tem a certeza
disso.
Resposta. Documento isso dia após dia. Em janeiro de 2024,
eu era uma voz quase solitária, e 99% mantinham-se em silêncio ou negavam. Mas
existe agora um consenso quase unânime dentro da comunidade dos direitos
humanos, incluindo especialistas internacionais e até historiadores israelitas.
Para aqueles que dizem que não se trata de um genocídio, eu diria que não sei
se sou mais afetada pela sua hipocrisia ou pela sua ignorância. Não sei quais
são os termos do debate em Espanha, mas no meu país, Itália, os argumentos
utilizados para desviar a atenção da questão são que não existem campos de
concentração em Gaza ou que Israel não matou todos os palestinianos
[na Faixa de Gaza]. Ambos são argumentos especiosos. As provas [de genocídio]
são esmagadoras. Os palestinianos personificam os sacrifícios e a exploração
impostos ao Sul Global — aquilo a que chamo a maioria global — sobretudo às
mãos das antigas potências coloniais ocidentais. O que vemos hoje é uma
monstruosidade, não só para os palestinianos, que sofrem com o apartheid, mas
para os próprios israelitas. Apesar dos seus privilégios, foram doutrinados por
uma ideologia que os transformou em executores e perpetradores de genocídio.
Este é o crime mais horrível, pois atinge os membros de um grupo simplesmente
por lhe pertencerem.
P. Podemos falar de genocídio sem a decisão de um
tribunal internacional?
R. O genocídio arménio não foi um genocídio só porque nenhum
tribunal o declarou como tal? Nenhum tribunal estabeleceu o genocídio na
Guatemala ou o de Sabra e Chatila [no Líbano]. O genocídio na
Bósnia-Herzegovina só foi reconhecido desta forma no que diz respeito a
Srebrenica. Diríamos então que não foi um genocídio? E quanto aos nativos
americanos, aos inuítes, aos aborígenes da Austrália ou aos nama e herero na
Namíbia? Não são genocídios por não haver uma decisão judicial? No caso de
Gaza, em apenas 15 dias, o Tribunal Internacional de Justiça (TIJ) emitiu
medidas provisórias reconhecendo a possibilidade de genocídio, o que deveria acionar
o dever de o prevenir. Estas são desculpas para não assumir responsabilidades. [Em Gaza] há 400 000
pessoas desaparecidas.
P. A UE acaba de reconhecer num relatório que Israel
viola os direitos humanos, mas não anunciou quaisquer medidas.
R. A questão é: porquê esta cumplicidade? E isso também se
aplica a Espanha, que é o país mais progressista [da UE]. O governo de [Pedro]
Sánchez tem sido explícito e firme. A Espanha parece ter tudo o que precisa
para fazer o que está certo; já fez muito, e o que fez é muito importante, mas
pergunto-me porque é que ainda não rompeu completamente os laços económicos,
financeiros, estratégicos e militares com Israel. Isto leva-me a outra questão:
quem são os cúmplices? Em Espanha, não há um envolvimento ideológico como nos
EUA ou em Itália, nem vejo racismo contra os palestinianos, mas penso que a
razão é que Israel representa um sistema.
Investiguei o envolvimento do sector privado na economia de ocupação, que se
tornou agora a economia do genocídio, e este genocídio não para porque há
pessoas a fazer negócios e a ganhar muito dinheiro com isso.
P. Está a referir-se à indústria de defesa?
R. Claro que existem as esferas militar e tecnológica, e o
que as empresas israelitas representam, mas não consegue imaginar todas as
pessoas envolvidas, mesmo nos países que apoiam a Palestina. Investigadores e
juízes investigaram o sistema mafioso como uma contaminação entre interesses
financeiros e políticos. Vejo neste caso um
sistema mafioso, uma ideologia mafiosa em ação à escala internacional.
P. Como lida com este sistema?
R. Atingindo-o onde está o coração: no bolso. Também é muito
importante perceber como funciona. Por exemplo, foi muito revelador compreender
que Israel é um Estado de apartheid e embarcar numa compreensão holística deste
Estado como um sistema que mantém a dominação estrutural e a discriminação dos
palestinianos de forma a expulsá-los das suas terras e impedi-los de usufruir
do direito à autodeterminação.
P. E então?
R. Devemos compreender os
elementos da economia do genocídio e os seus acores: os meios de
comunicação, os componentes militares, o sector privado, as empresas que
normalizaram a ocupação [da Palestina], as universidades que silenciaram os
seus estudantes e académicos e cuja prioridade é continuar a fazer negócios,
garantir o seu financiamento e a sua associação com o Estado de apartheid de
Israel. Não posso mencionar nomes porque o meu relatório ainda não foi
publicado, mas há também empresas espanholas que lucraram com a economia da
ocupação na Palestina, graças a crimes internacionais. É tempo de serem
responsabilizadas. Esse sistema é um capitalismo implacável. E não estou a
propor nenhuma doutrina política, estou apenas a dizer que tudo o que não tem
regras corre o risco de ser explorado por uma minoria em detrimento da maioria.
P: Movimentos como o BDS (Boicote, Desinvestimento e
Sanções) têm um impacto real?
R. O BDS é uma forma ética de comportamento, que articulou
as suas exigências com base nos direitos humanos e no direito internacional, e
deveria ser a nossa opção padrão. Mas não quero sobrecarregar os indivíduos com
responsabilidades que pertencem realmente aos governos. Espanha, tal como
outros países, tem a obrigação de não comercializar, não ajudar ou não
transferir armas para um Estado que comete crimes.
P. E os países que vendem armas a Israel?
R. São cúmplices. A Alemanha e os Estados Unidos devem ser
responsabilizados.
P. Israel conseguirá expulsar a população de Gaza?
R. O objetivo deste genocídio é a limpeza étnica da
Palestina, tal como outros genocídios visaram a limpeza étnica das populações
nativas da Austrália e de muitos lugares na América do Norte e na América
Latina. A Palestina é a última fronteira do colonialismo ocidental. É por isso
que é da nossa responsabilidade; é por isso que digo que o governo progressista
de Espanha — um país que, como outros, causou tanto sofrimento durante séculos
de colonialismo — deveria encarar isso como uma responsabilidade histórica: a
de enfrentar o colonialismo secular onde quer que ele ainda subsista. E
encorajo o governo espanhol a juntar-se ao grupo de Haia, à Colômbia e à África
do Sul, que realizarão uma reunião em Bogotá nos dias 15 e 16 de julho para
exigir medidas para pôr fim ao genocídio em Gaza. Os cidadãos devem continuar a
sair às ruas. Lembro-me de Espanha durante a guerra do Iraque. O país inteiro
manifestava-se. Onde estão as pessoas agora? Isto é um teste para todos nós
enquanto seres humanos.
Fonte: El País, 27 de junho de 2025

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