Operação “Fúria Divina”: como a Mossad marcou o homem errado


Perry Mason (1957-1966) – Robert Redford, Raymond Burr, Thomas Browne Henry

As noites de Verão em Lillehammer, uma pequena cidade do Sul da Noruega, são confusas e brilhantes por causa de um sol permanente durante as 24 horas do dia. Nas margens do lago Mjøsa, cada dia de veraneio não encerra, empurra-se com a luz solar, um longo dia permanente.

No entanto, no dia 21 de julho de 1973, esse não era o evento mais estranho a desenrolar-se na recatada e sossegada urbe. Alertados pelo barulho de tiros, vários polícias acorreram a um pequeno bairro residencial onde, estendido sobre o passeio, jazia o cadáver de um homem. O choque normal de um homicídio vinha acrescido do facto de, em 36 anos, não ter ocorrido qualquer um destes crimes em Lillehammer.

Em julho de 1973, as ruas tranquilas de verão de Lillehammer foram palco do primeiro assassinato político da Noruega em tempos de paz. A imagem é de uma reconstituição do assassinato de Ahmed Bouchiki

Um crime misterioso

A vítima foi identificada como Ahmed Bouchiki.

Vivendo integrado há anos nesta comuna do Sudeste da Noruega, não havia qualquer motivo aparente para o crime. A maneira como ocorreu o assassinato, com recurso a vários tipos de armas e a lembrar uma execução, plantou em alguns residentes a teoria de que só podia ter sido uma emboscada. Uma delas, Toriil, esposa de Bouchiki, descreveu que o casal fora ao cinema e, depois de apanhar o autocarro para casa, desceu para caminhar na noite amena. Então, um carro a alta velocidade estacou perto de ambos. Dois indivíduos, armados com metralhadoras, saíram e balearam Bouchiki, enquanto outros dois permaneceram dentro do veículo. Os atiradores regressaram então à segurança do carro, que desapareceu a grande velocidade. No mesmo dia, um jovem de 16 anos foi encontrado atropelado a pouca distância do local onde Bouchiki tombou varado por balas.

De início, a polícia norueguesa viu-se perdida. No entanto, algumas dicas chegaram aos ouvidos das autoridades, que rapidamente apanharam a inesperada pista das ações de serviços secretos de inteligência. A proveniência? Israel. Não soou tão descabido na altura como se calhar pode parecer. Afinal, que interesse teria este simples empregado de hotel, vigilante de piscina, para um governo como Israel? Mas era da suspeita geral que uma série de atentados cometidos em vários países europeus faziam parte de uma operação de vingança da Mossad.

Será que Bouchiki era, afinal, um terrorista? A pista foi seguida e, no dia seguinte, quatro israelitas foram presos no aeroporto de Oslo, transportando consigo largas quantias de dinheiro e passaportes falsos. Dois outros cidadãos da mesma nacionalidade foram aprisionados no apartamento de um adido da embaixada israelita em Oslo. Os assassinos haviam fugido no dia anterior, estando em segurança em Israel. O caso estava, no entanto, muito longe de estar acabado ou sequer perto do seu início... que se dera no ano anterior.

Os precedentes

Os Jogos Olímpicos de Munique de 1972 ficaram irremediavelmente marcados pelos atentados do Setembro Negro, uma ramificação da OLP (Organização para a Libertação da Palestina) que resultaram no rapto de membros da equipa olímpica israelita, num cerco de várias horas e, como resultado final, na morte de 11 israelitas, entre treinadores e atletas. O impacto mental do ato – judeus novamente a serem massacrados na Alemanha, nem trinta anos passados do final da Segunda Guerra Mundial – levou a primeira-ministra israelita Golda Meir uma operação conhecida hoje como “Fúria Divina”.

Golda Meir era à altura do atentado de Munique nos Jogos Olímpicos de 1972 a primeira-ministra de Israel. Foi ela quem autorizou a operação “Fúria Divina”.

A Mossad foi autorizada a dar caça e executar por qualquer meio os indivíduos envolvidos nos acontecimentos de Munique, entre terroristas, financiadores e mandatários políticos. A supervisionar tudo isto, estava o chamado Comité X, comandado por Meir e pelo ministro da defesa Moshe Dayan. Na coordenação da operação, estava o general Aharon Yariv e o líder dos serviços secretos israelitas Zvi Zamir.

Mais importante do que matar terroristas, interessava a Meir uma exibição dramática de como qualquer inimigo de Israel nunca estaria seguro. Com a operação “Fúria Divina”, não interessava apenas matar criminosos. Era necessário fazê-lo de forma espetacular e visível. A mensagem era o mais importante.

Quando Meir assistiu a três dos operativos do Setembro Negro envolvidos em Munique a serem libertados como moeda de troca depois do rapto de um avião da Lufthansa, qualquer dúvida moral desapareceu na sua mente. Foi elaborada uma lista com dicas de informantes palestinianos e de serviços secretos europeus. No topo desta lista, estava, Abu Daoud, considerado o autor moral dos atentados de Munique, e Ali Hassan Salameh, chefe de operações do Setembro Negro e seu principal financiador. A lista nunca foi revelada publicamente, mas estima-se ter entre 20 a 35 nomes, e os critérios que levaram o Comité X a atribuir responsabilidade pelos atentados a estes alvos nunca foram justificados.

A narrativa oficial

No entanto, o governo israelita devia manter o direito a negar qualquer ligação oficial aos ataques. As equipas foram formadas por pessoas que na sua maioria não trabalhavam na Mossad, mas possuíam habilidades que as tornavam valiosas. O único elemento da secreta israelita cuja ligação temos a certeza é Michael Harari.

Da direita para a esquerda: Michael Harari, Wolfgang Lotz e a sua mulher, Zalman Shazar, e Meir Amit

Os ataques iniciais correram bem, mas atingiram alvos pouco relevantes. Meir queira executar Salameh, visto pela Mossad como o verdadeiro operador do massacre de Munique. É aqui que as coisas começam a dar para o torto. Uma informação chegou aos ouvidos de Harari: Salameh estava prestes a viajar para a Escandinávia. Para tentar encontrar o local específico onde se alojaria, a Mossad seguiu um homem que, segundo a mesma fonte, era muito próximo de Salameh. Operativos israelitas testemunharam então uma conversa entre este indivíduo e o alegado Salameh, junto a uma piscina em Lillehammer. Membros da Mossad foram então convocados para uma rápida operação e o caso Salameh fica aparentemente resolvido: o terrorista palestiniano morrera baleado na rua junto a uma mulher.

Como já deve ter calculado, Salameh não era Salameh: era Bouchiki; e o que a Mossad estava a fazer não cabia em qualquer provisão do Direito Internacional. A Noruega não deixou passar esta morte em claro. Como tal, a “Fúria Divina” tornou-se num acontecimento público. Por azar de Israel, um dos elementos capturados, Dar Arbel, era claustrofóbico e entrou em pânico mal foi introduzido na sua diminuta cela. Em troca de ser transferido para instalações mais amplas, divulgou tudo o que sabia quando interrogado pelos noruegueses. Isto levou a raids policiais noutras cidades europeias, como Paris ou Berlim, onde foram expostas casas de proteção, documentação comprovando a ligação do governo de Israel a toda a operação e, mais importante, elos entre a “Fúria Divina” e a morte de Bouchiki. Durante o julgamento em Oslo, foram reveladas algumas decisões infelizes, nomeadamente o facto de Mike Harari ter ordenado o ataque a Bouchiki perante a oposição de todos os agentes no local, que estavam convencidos de que o alvo não era Salameh.

A Noruega não esquece

Ninguém sabe quantos outros alvos desta operação eram inocentes ou culpados, acabando a justiça norueguesa a condenar a prisão todos os envolvidos que capturou. Israel tentou a libertação destes por via diplomática, sem sucesso. O único favor que conseguiu das autoridades nórdicas foi a classificação da sentença como top secret. Este segredo só viria a ser levantado em 2000, quando uma comissão do governo da Noruega reviu o caso e chegou à conclusão de que os serviços secretos de Israel eram os verdadeiros responsáveis pelo assassinato de Bouchiki.

Os cinco agentes do Mossad — a sueca Marianne Gladinkoff, a sul-africana Sylvia Rafael; o israelita Abraham Gehmer; o dinamarquês Dan Aerbel; e o brasileiro Zvi Steinberg — foram condenados pelo homicídio e presos na Noruega, mas posteriormente perdoados, segundo o The Guardian. Raphael terá escrito ao seu amigo, Abraham Gemer, a partir da prisão: "Algo se partiu dentro de mim depois de Lillehammer... isso corroeu o meu desejo de continuar a servir com as pessoas que tanto respeitava."

Sylvia Rafael, também conhecida por Patricia Roxburgh, da Mossad, posava por vezes como fotógrafa canadiana

Em janeiro de 1996, Israel pagou uma indemnização não revelada à família de Bouchiki, mas não admitiu a responsabilidade pela morte.

"Isto foi muito mais do que um assassinato", disse Gullow Gjeseth, chefe da comissão do governo norueguês que emitiu um relatório de 179 páginas sobre a morte em 2000. "Foi uma violação da soberania norueguesa".

O legado da Operação “Fúria Divina” é complexo. Embora se acredite que tenha atingido alguns dos seus objetivos, também levantou questões sobre a ética dos assassinatos seletivos e as suas consequências a longo prazo. A operação continua a ser objeto de debate, ilustrando os desafios enfrentados pelas agências de inteligência na busca de justiça nas sombras.

Israel nunca assumiu esta culpa oficialmente, mas o relatório de 179 páginas do governo norueguês deixa claro que não se tratou de um homicídio: foi uma violação total da soberania norueguesa e seguiu a atuação das autoridades polícias norueguesas, que dois anos antes haviam emitido um mandato de captura para Michael Harari, que morreu sossegadamente em casa com 87 anos de idade. Os eventos da “Fúria Divina” são retratados no filme Munique, de Steven Spielberg.

Fonte: National Geographic, 21 de julho de 2025

Steven Spielberg: um cineasta medíocre ao serviço de um Deus exigente — e bem financiado.

Comentários

Mensagens populares deste blogue

Eva Vlaardingerbroek