Primeiro foi a mudança de regime, agora querem desmembrar o Irão
Perry Mason
(1957-1966) – Marie Windsor, Annabelle Thiele, Patricia Olson
Fantasias
irresponsáveis de balcanizar o país desconhecem o nacionalismo iraniano e
correm o risco de uma reação catastrófica
O establishment da política externa de Washington tem uma
perigosa tendência para desmantelar nações que considera adversárias. Agora, os
think tanks neoconservadores como a Fundação
para a Defesa das Democracias (FDD),
sediada em Washington, e os seus companheiros de viagem no Parlamento
Europeu estão a promover abertamente a balcanização do Irão — uma
estratégia irresponsável que desestabilizaria ainda mais o Médio Oriente,
desencadearia crises humanitárias catastróficas e provocaria forte resistência
tanto por parte dos iranianos como dos parceiros americanos.
Enquanto Israel e Irão trocavam farpas em meados de junho,
Brenda Shaffer, da FDD, defendia que a composição multiétnica do Irão era uma
vulnerabilidade a explorar. Shaffer tem sido uma
defensora acérrima do Azerbaijão nos grandes meios de comunicação
americanos, mesmo tendo-se omitido consistentemente em revelar os seus laços
com a empresa petrolífera estatal do Azerbaijão, a SOCAR. Durante anos, ela
pressionou pela fragmentação étnica do Irão, semelhante ao colapso da
ex-Jugoslávia. Ela concentrou grande parte deste esforço na promoção da
secessão do Azerbaijão iraniano, onde os azeris formam o maior grupo não persa
do Irão.
As opiniões de Shaffer estão em sintonia com um editorial
recente do Jerusalem Post que, em meio à euforia provocada pelos ataques
iniciais de Israel na guerra deste mês contra o Irão, apelava ao presidente
Trump para que assumisse abertamente a defesa do desmembramento do Irão.
Especificamente, o editorial instava à criação de uma “coligação do Médio Oriente pela partição do Irão”
e à concessão de “garantias de segurança às regiões de minorias sunitas, curdas
e balúchis dispostas a se separar”.
O mesmo jornal já se pronunciou anteriormente a favor do
apoio de Israel e dos EUA à secessão do que designa como “‘Azerbaijão do Sul”
(referindo-se às regiões de maioria azeri no noroeste do Irão).
Entretanto, a porta-voz para os assuntos externos de um
grupo liberal centrista no Parlamento Europeu
[provavelmente Valérie Hayer] convocou uma reunião sobre o “futuro do Irão”,
ostensivamente para discutir as perspetivas de uma revolta “bem-sucedida”
contra a República Islâmica. O facto de as únicas duas vozes iranianas
convidadas serem separatistas étnicos oriundos das regiões do Azerbaijão e de
Ahvaz, no Irão, deixou clara a sua agenda. Desde que o Parlamento Europeu
cortou unilateralmente todas as relações com os organismos oficiais iranianos
em 2022, tornou-se um palco para vários grupos radicais da oposição no exílio,
como monárquicos, o culto MEK (Mojahedin-e Khalq), e separatistas étnicos.
No entanto, o Irão não é um Estado frágil ou um mosaico à
beira do colapso. É uma nação com cerca de 90 milhões de habitantes, com um
profundo sentido de identidade histórica e cultural. Embora os defensores da
balcanização gostem de insistir na diversidade étnica do Irão — azeris, curdos,
balúchis, árabes — subestimam sistematicamente a força unificadora do
nacionalismo iraniano. Como observou recentemente o académico Shervin
Malekzadeh no Los Angeles Times, “há um consenso robusto entre os
estudiosos de que a política no Irão começa com a ideia do Irão como um povo
com uma história contínua e ininterrupta, uma nação que ‘emerge de um passado
imemorial’. O nacionalismo fornece o amplo terreno político no qual diferentes
grupos e ideologias no Irão competem pelo poder e autoridade — sejam
monárquicos, islamistas ou de esquerda.”
Décadas de pressão estrangeira, desde sanções a operações
secretas e guerras, apenas reforçaram esta coesão. A ideia de que o despertar
do sentimento separatista fragmentará o Irão é uma fantasia perigosa — que
ignora deliberadamente como esquemas
engendrados, em grande parte, por neoconservadores pró-Israel,
saíram pela culatra no Iraque e na Síria, deixando o caos no seu rasto.
Tal estratégia expõe também a
profunda ignorância dos seus
proponentes sobre as realidades locais. Shaffer,
a defensora do irredentismo azeri, chegou ao ponto de aplaudir os ataques
aéreos israelitas contra Tabriz, o coração cultural e económico do Azerbaijão
iraniano.
Esta abordagem não é apenas moralmente grotesca; assenta
numa profunda incompreensão da dinâmica interna do Irão. Shaffer e os seus
semelhantes esperam que a pressão externa sobre Teerão leve a uma revolta azeri
(e de outras minorias) contra Teerão. Em vez disso, tal como no resto do Irão,
o recente ataque de Israel desencadeou um efeito de união em torno da bandeira,
porque os azeris iranianos estão profundamente
integrados no tecido nacional: tanto os mais altos funcionários do país — o
Líder Supremo, Ayatollah Ali Khamenei, como o presidente Massoud Pezeshkian —
são de etnia azeri.
Há um mês, caminhei pelas ruas de Tabriz, uma cidade imersa
na história e identidade iranianas. Longe de ser um foco de secessionismo,
Tabriz é um testemunho vivo da unidade duradoura do Irão. O Museu do Azerbaijão
exibe com orgulho artefactos de milénios da civilização iraniana, enquanto a
Casa da Constituição comemora o papel fundamental de Tabriz na Revolução
Constitucional de 1906 no Irão — um movimento que moldou o nacionalismo
iraniano moderno e continua a inspirar as forças democráticas e a sociedade
civil em todo o país.
A ideia de que Tabriz — ou
qualquer grande cidade de maioria azeri no Irão — se revoltaria a mando de
Washington ou de Jerusalém é uma utopia. Os azeris iranianos não são
uma minoria oprimida à espera de libertação; prosperaram no Irão. A maioria dos
ativistas críticos azeris no Irão enquadra as suas reivindicações em termos de
direitos culturais, e não de independência.
É certo que as queixas locais podem ser mais acentuadas nas regiões curdas e balúchis, particularmente
nesta última – remota, pobre e sunita. Mas, mesmo aqui, não há provas de um
forte apoio popular à secessão. Além disso, tentar capitalizar qualquer
insatisfação que possa existir colocaria os EUA em rota de colisão com os seus
aliados e parceiros na região.
A Turquia, um aliado fundamental da NATO, nunca tolerará o
apoio dos EUA ao separatismo curdo no Irão, dada a sua própria luta de décadas
com o Partido dos Trabalhadores Curdos (PKK). O afiliado iraniano do PKK – o
PJAK (Partido da Vida Livre do Curdistão) – acolheu com satisfação os ataques
de Israel ao Irão.
Da mesma forma, o Paquistão, que já enfrenta a sua própria
insurgência baluchi, verá a interferência ocidental no Baluchistão iraniano
como uma ameaça direta à sua integridade territorial. Alienar estes aliados em
busca de uma estratégia impraticável de mudança de regime constituiria
negligência em política externa.
A Rússia e a China há muito que defendem que Washington
procura desmembrar os seus adversários — da Jugoslávia ao Iraque. Qualquer
esforço para balcanizar o Irão validará as suas suspeitas mais negras,
intensificando a sua própria repressão doméstica contra as minorias e acelerando
os seus esforços para construir uma coligação antiocidental.
A Índia, um país avidamente cortejado como aliado por
Washington, também rejeitaria tais políticas, pois prejudicariam os projetos
estratégicos de comércio e logística de Nova Deli, como o desenvolvimento do
porto de Chabahar, no Irão, ponto de entrada da Índia para o Afeganistão e para
a Ásia Central, sem passar pelo Paquistão.
Se Washington e os seus facilitadores europeus pressionarem
pela desintegração do Irão, as consequências também se farão sentir de forma
aguda na Europa. Um Irão desestabilizado desencadearia uma crise migratória que
ofuscaria a vaga de refugiados sírios de 2015. Poderá também criar terreno
fértil para grupos terroristas — incluindo o Estado Islâmico. Uma das suas
franquias, o ISIS-Khorasan, já opera no Irão, incluindo atentados suicidas no
ano passado em Kerman. Acrescente-se a isto os inevitáveis choques
energéticos se o Irão bloquear o Estreito de Ormuz, e a Europa enfrentará um
desastre autoinfligido.
Os arquitetos desta abordagem — os falcões da FDD e os seus
companheiros de viagem europeus e israelitas — estão a brincar com o fogo. As
tentativas de fragmentar o Irão sairão espetacularmente pela culatra,
desencadeando um caos que se espalhará muito para além das suas fronteiras.
Em vez de se entregar a fantasias de fragmentação, o
Ocidente deveria procurar um envolvimento pragmático. A alternativa é
provavelmente outra guerra eterna — uma que nem os Estados Unidos nem a Europa
se podem dar ao luxo de pagar.
Eldar Mamedov
Fonte: Responsible Statecraft, 1 de julho de 2025

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