Profecia poderá moldar o confronto da América com o Irão


Killer Elite (2011)

Quando a maioria das pessoas pensa no futuro do conflito entre os Estados Unidos e o Irão, procura pistas em fotografias de satélite pouco nítidas, declarações de analistas militares ou publicações de Donald Trump nas redes sociais. Mas, quando a académica Diana Butler Bass reflete sobre o que poderá acontecer a seguir, o seu pensamento volta-se para outro grupo que, segundo ela, está hoje mais focado na profecia do que na política.

A especialista recorda os avisos da sua infância sobre o surgimento do Anticristo, histórias de mães a chorar com cobertores vazios nos braços depois dos seus bebés terem sido “arrebatados” para o céu, e pinturas de um Jesus irritado a liderar exércitos de anjos numa batalha final ao estilo de Armagedão na Israel moderna.

Essas histórias aterrorizavam e entusiasmavam Bass quando as ouvia enquanto crescia numa igreja evangélica branca nos anos 1970. Era uma época em que o fim parecia sempre iminente, e livros como o bestseller The Late Great Planet Earth, de Hal Lindsey avisavam os cristãos para se prepararem para um período de Grande Tribulação e para o regresso triunfante de Jesus a Jerusalém.

Diana Butler Bass, hoje uma conceituada autora religiosa progressista e anfitriã da newsletter Substack “The Cottage”, já não acredita nessas histórias. No entanto, ao refletir sobre o motivo pelo qual os EUA bombardearam três instalações nucleares no Irão e o que poderá acontecer a seguir, apresenta agora uma profecia própria: bombardear o Irão reforçará o estatuto de Trump como “Escolhido de Deus” e de Israel como a nação eleita entre muitos dos apoiantes evangélicos brancos do ex-presidente.

Segundo disse à CNN, muitos destes apoiantes desvalorizam os perigos de uma guerra mais ampla porque tal conflito seria um sinal de que o mundo se aproxima dos “tempos finais” - uma série de eventos cataclísmicos que prenunciam a Segunda Vinda de Cristo e a ascensão de Israel como cumprimento das profecias bíblicas. “Há quase um fervor espiritual por uma guerra no Médio Oriente”, diz Bass, descrevendo as atitudes de certos evangélicos brancos. “Acreditam que uma guerra irá desencadear uma série de eventos que resultarão no regresso de Jesus”.

Afirmamos a todos vós, pela Palavra do Senhor, que nós, os que estivermos vivos quando se der o retorno do Senhor, certamente não precederemos os que dormem nele. Pois, dada a ordem, com a voz do arcanjo e o ressoar da trombeta de Deus, o próprio Senhor descerá dos céus, e os mortos em Cristo ressuscitarão primeiro. Logo em seguida, nós, os que estivermos vivos sobre a terra, seremos arrebatados como eles nas nuvens, para o encontro com o Senhor nos ares. E, assim, estaremos com Cristo para sempre! Consolai-vos, portanto, uns aos outros com estas palavras.

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A decisão de Trump de bombardear o Irão tem sido analisada quase exclusivamente do ponto de vista político ou estratégico. No entanto, há uma dimensão religiosa nessa decisão - e no que poderá acontecer a seguir - que tem sido pouco explorada.

A abordagem americana ao Irão e a Israel pode não ser apenas fruto de uma avaliação geopolítica racional. Diana Butler Bass e outros académicos religiosos afirmam que a política dos EUA no Médio Oriente também é influenciada pelos ensinamentos controversos de um combativo clérigo anglo-irlandês do século XIX e por uma série de livros e filmes cristãos apocalípticos como Left Behind. Isso é perigoso, diz Jemar Tisby, historiador e autor bestseller de Stories of the Spirit of Justice.

“A ação de Trump sublinha como estas crenças teológicas não são abstratas; elas têm consequências reais, perigosas e letais”, escreveu recentemente na sua newsletter “Footnotes”. Em entrevista à CNN esta semana, Jemar Tisby disse que as visões apocalípticas da Bíblia não deveriam influenciar de forma alguma a política externa dos EUA em relação a Israel ou ao Irão.  “Quando se sobrepõe esta profecia ao surgimento de Israel, de repente temos uma interpretação literalista da Bíblia a informar a política externa americana”, disse.

Os cristãos estão obrigados a apoiar Israel?

Os evangélicos brancos que encaram o conflito dos EUA com o Irão sobretudo como uma batalha espiritual - e não política - são motivados por diversas crenças. Uma delas é que Trump é o “escolhido de Deus”, salvo de um assassinato no ano passado para cumprir a vontade divina e proteger Israel. Creem que Trump foi “chamado para um tempo como este”, segundo a linguagem comum entre os evangélicos. Essa crença foi refletida numa mensagem de texto enviada a Trump por Mike Huckabee, destacado evangélico e ex-governador do Arkansas, nomeado por Trump como embaixador dos EUA em Israel.

Na mensagem, que foi partilhada por Trump, Huckabee referiu as duas tentativas de assassinato de que Trump terá escapado, dizendo que Deus o poupou “para ser o presidente mais consequente de um século - talvez de sempre”. E acrescentou: “Confio nos teus instintos” porque “acredito que ouves o céu”, e ainda: “Não foste tu a procurar este momento. Este momento procurou-te a ti!”

Mike Huckabee, embaixador dos EUA em Israel, é um defensor ferrenho do país há anos e já liderou excursões a cenários bíblicos

A nomeação de Huckabee como embaixador não surpreende. Muitos evangélicos brancos acreditam que a Bíblia obriga a um apoio incondicional a Israel. Consideram o Israel bíblico como equivalente ao moderno Estado-nação de Israel, fundado em 1948. Trump reforçou esta visão durante o seu primeiro mandato, ao romper com décadas de política americana para transferir a embaixada dos EUA de Telavive para Jerusalém e reconhecer Jerusalém como capital de Israel. A decisão encantou muitos líderes evangélicos brancos, dois dos quais participaram na cerimónia oficial.

Há uma longa tradição de líderes evangélicos brancos a exortar presidentes americanos a tratar Israel como uma nação favorecida por Deus. Muitos acreditam que a existência de Israel é o cumprimento de profecias bíblicas que antecedem o regresso de Jesus.

Alguns citam Génesis 12:3, onde Deus diz: “Abençoarei os que te abençoarem e amaldiçoarei os que te amaldiçoarem”, dirigindo-se a Abraão, o patriarca judaico. Mas para muitos evangélicos brancos, essa promessa aplica-se também ao moderno Estado de Israel. O senador republicano Ted Cruz aludiu a essa escritura ao defender o seu apoio à guerra de Israel com o Irão: “Aprendi na escola dominical que quem abençoa Israel será abençoado e quem amaldiçoa Israel será amaldiçoado”.

Outros líderes evangélicos têm feito afirmações semelhantes. O pastor John Hagee, figura de destaque entre os evangélicos, declarou que apoiar Israel não é uma questão política - é bíblica. Hagee é fundador da organização Cristãos Unidos por Israel, que afirma ter 10 milhões de membros e ser o maior grupo pró-Israel nos EUA.  “Não é possível dizer ‘acredito na Bíblia’ e não apoiar Israel e o povo judeu”, afirmou.

Donald Trump conquistou cerca de oito em cada 10 votos dos cristãos evangélicos brancos nas eleições presidenciais de 2024. E uma sondagem da CNN após os ataques aéreos ao Irão revelou que 87% dos republicanos confiam em Trump para tomar decisões acertadas sobre o uso da força militar.

Franklin Graham, filho do falecido evangelista Billy Graham, escreveu na rede social X, após os bombardeamentos, que “o mundo está hoje num lugar muito mais seguro.” O reverendo Robert Jeffress sugeriu que se opor a Israel é rebelar-se contra Deus. Durante um sermão de domingo, em que elogiou a decisão de Trump, foi interrompido por aplausos e uma ovação em pé.  Quem se opõe a Israel está sempre do lado errado da história - e, mais importante, do lado errado de Deus”, disse Jeffress. “E agradeço a Deus por termos finalmente um presidente que compreende essa verdade: Donald Trump”.

Este apoio incondicional a Israel pode fazer sentido espiritual para muitos evangélicos. Mas alguns académicos alertam que é uma posição arriscada para uma democracia multirracial e multirreligiosa como os EUA. O apoio público americano a Israel atingiu mínimos históricos antes da recente intervenção militar no Irão.

Jemar Tisby disse à CNN que o Israel da Bíblia não é o mesmo que o país moderno. “Se confundirmos os dois, acabamos a apoiar ações políticas que prejudicam pessoas em nome da religião”, vinca. “Leva à relutância em reconhecer os direitos dos palestinianos. Cega-nos para as questões de direitos humanos e justiça que estão em jogo no Médio Oriente”.

Donald Trump numa visita ao Muro das Lamentações na Cidade Velha de Jerusalém, a 22 de maio de 2017

Uma forma controversa de cristianismo molda a visão evangélica sobre o Médio Oriente

Jemar Tisby e outros académicos dizem que os bombardeamentos dos EUA ao Irão também são influenciados por uma corrente cristã iniciada no século XIX por John Nelson Darby, um pastor anglo-irlandês. Darby interpretou certas passagens do Apocalipse e desenvolveu a teoria do “dispensacionalismo”, que divide a história em diferentes “dispensações” - períodos em que Deus interage com a humanidade de formas distintas. Muitos crentes nesta doutrina acreditam num apocalipse ardente e no “Arrebatamento” - o momento em que os cristãos serão levados para o céu antes de um período de tribulação na Terra.

As ideias de Darby foram amplificadas um século depois pelos populares livros e filmes Left Behind, dos anos 1990 e 2000, que levaram visões apocalípticas a milhões de evangélicos. A série, inspirada na teologia do Arrebatamento e em cenas violentas do Apocalipse, vendeu mais de 65 milhões de cópias.

Apesar de comercializados como ficção, muitos evangélicos viam esses livros como verdade bíblica. As ideias dispensacionalistas passaram a ser ensinadas em igrejas, acampamentos e escolas dominicais evangélicas.

O papel central de Israel no fim dos tempos é um dos pilares do dispensacionalismo. Os seus seguidores acreditam que a fundação do Estado de Israel marca o início dos tempos finais — o regresso iminente de Cristo. Para eles, o sucesso geopolítico de Israel é pré-requisito para esse retorno.

Tisby diz que o dispensacionalismo está tão enraizado na cultura evangélica branca que muitos seguem os seus princípios sem conhecer o termo. “O facto de não conheceres o nome não significa que não sigas a crença”, afirma. “Está tão difundido que já nem precisa de ser nomeado”.

Há quem chame ao Arrebatamento uma “teologia completamente inventada”

As profecias sobre exércitos angelicais a combater forças demoníacas num Médio Oriente apocalíptico podem parecer implausíveis, mas eram comuns entre os pastores e famílias evangélicas com quem Diana Butler Bass cresceu.

A académica recorda pastores a pregarem que cada conquista territorial de Israel era vontade de Deus. Alguns condenavam o Irão como mal. Os judeus, diziam, acabariam por aceitar Jesus como salvador. Mas antes disso, o regresso de Jesus seria precedido por cataclismos, incluindo o desaparecimento repentino dos fiéis — deixando os “deixados para trás”, os que não acreditaram.

Bass afirma que a ideia de os cristãos serem levados ao céu num piscar de olhos traumatizou muitas crianças. “Tenho amigos que acordavam a meio da noite e, se a casa estivesse muito silenciosa, ficavam aterrorizados. Iam ao quarto dos pais para garantir que ainda estavam lá”, conta.

A maioria dos estudiosos da Bíblia afirma que a palavra “arrebatamento” não aparece nas principais traduções nem no Livro do Apocalipse. Muitos consideram que o Apocalipse não descreve literalmente o fim do mundo, mas sim uma crítica codificada ao Império Romano. Bass considera o Arrebatamento uma “teologia completamente inventada” e “uma das heresias de maior sucesso na história do Cristianismo”.

Depois dessas coisas olhei, e diante de mim estava uma porta aberta no céu. A voz que eu tinha ouvido no princípio, falando comigo como trombeta, disse: "Suba para cá, e mostrarei a você o que deve acontecer depois dessas coisas".

Apocalipse 4:1

Um sistema de crenças que afirma que Deus acabará com o mundo através da violência retira qualquer incentivo a líderes políticos ou religiosos para evitarem guerras ou corrigirem rumos. “Na lógica desta teologia dos ‘tempos finais’, a destruição é sempre um sinal de que Deus está a agir e prestes a regressar”, diz Diana Butler Bass, acrescentando: “Quanto pior estiver tudo, mais perto está o fim. Não há motivação para fazer o bem, cuidar dos pobres, evitar guerras ou proteger o planeta”.

Por que razão profecia e política não se devem misturar

As visões apocalípticas são comuns em várias religiões. E não é raro líderes políticos invocarem Deus antes de declarar guerra. Mas quando cidadãos de uma democracia acreditam que os seus líderes são escolhidos por Deus e guiados por profecias, isso elimina o espaço para o debate, diz Jemar Tisby. “Há um certo fundamentalismo nisto tudo”, afirma. “É inflexível, imutável e não pode ser criticado porque é divino. Quem somos nós para questionar?”. E acrescenta: “Qualquer apoio cego e incondicional a um político, independentemente do conflito, é perigoso”.

Se esta dinâmica continuar a influenciar as decisões futuras dos EUA no Médio Oriente, surge uma pergunta inevitável. Muitos críticos do Irão dizem que é uma teocracia liderada por alguém que reduz o mundo a um confronto entre o bem e o mal, guiado por mitos religiosos apocalípticos. E se o confronto da América com o Irão for, em parte, guiado pelos mesmos impulsos religiosos?

Fonte: CNN Portugal, 30 de junho de 2025

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