Quem nos manda usar o português que se fala em Lisboa?

Nesta última feira do livro de Lisboa, moderei uma conversa organizada pela Penguin com dois dos autores da Suma de Letras, uma das chancelas: Alex Couto e João Zamith. A dada altura, o segundo revelava que, aquando das revisões das provas do seu primeiro romance (Coisas Ruins), cuja ação se passa em Guimarães, lhe foi sugerido que alterasse todas as formas verbais da segunda pessoa do plural: “vós” passava a “vocês”. Isso, claro, implicaria que “ides” passasse a “vão”, que “comei” passasse a “comam”, e por aí fora. Esta tendência para olhar para uma forma de dizer incomum ao centro lisboeta e de ver ali um erro, ou uma variação – portanto, uma alternativa à hipótese magna –, revela que o mundo editorial, tal como os órgãos de comunicação social, estão habituados a uma ideia de linguagem asséptica, que procura uma neutralidade na forma de se comunicar, e não autenticidade. Acaso alguma avó vimaranense perguntaria aos netos: “Onde é que vocês vão?” Só cogitá-lo já dá a ideia de sabão a esfregar a língua, limpando qualquer marca territorial que fuja às margens do Tejo. O autor acabou por recusar a sugestão e não fez alterações.

Claro que tudo isto apresenta problemas no que toca à amplitude do material literário. Uniformizar a língua implica, nos exemplos em que os enredos fogem dos centros urbanos, até ligeiramente eruditos, criar personagens artificiais: como Alex Couto mostra em Sinais de Fumo, um “fobado” – ou o que se entende na sua narrativa como tal – não pode falar como um doutorado em literatura. Ao adaptar a linguagem às personagens que tinha em cena, o autor fez delas pessoas, não arquétipos. É comum ver-se no exercício literário uma espécie de passerelle semântica, que acaba por fazer do romance um jogo de cintura, uma forma de se expressar eloquência, mas nunca o leitor recebe a ternura de um ósculo como recebe a de um beijo.

Pôr a linguagem ao serviço da história, ao invés de se criar uma linguagem como substrato essencial, marca de autor, a qualquer linha narrativa, implica uma maior amplitude pessoal, social e artística na literatura. Assumir-se uma forma neutra da língua reduz o espaço, o potencial da língua, criando-lhe um ponto de equilíbrio que seca o que há à volta. Ao mesmo tempo, definem-se não só os temas literários como as personagens, sonegando-se o espaço das vozes, já que se relegam outras – e note-se a forma de outrar – para uma margem que fala a sós. Tomar o português lisboeta como neutro, relegar o calão para as caves da produção literária, cria uma falsa neutralidade que tem como efeito literal a horizontalização de uma arte que não só se quer múltipla como se quer capaz de dizer a vida, com textura e corpo. Nisto, o próprio erro é fundamental: se na vida tantos falantes fogem a supostas normas linguísticas, gramaticais, porque haveriam de ser campeões da sintaxe no papel?

Fonte: Observador, 5 de julho de 2025

Anjinhos que ainda acreditam que existe o português. lisboeta ou A dos Cunhados, amanhã acordarão noutra pátria. 

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