Sei o que não fizeste em 2006
Perry Mason
(1957-1966) – Anne Benton, Hayden Rorke
A
Justiça manca e lerda é o que convém a políticos corruptos ou carreiristas. A
inoperância mantém-se porque é o que dá jeito a estas castas
Em 2006, com pompa e circunstância, o eng.º José Sócrates
(JS) e o dr. Marques Mendes (MM) saudaram as reuniões realizadas ao longo de
cinco meses que desaguaram num documento que MM considerou “histórico” e JS
aplaudiu, desafiando outras forças partidárias a apoiarem o novo “Acordo
Político-Parlamentar para a Reforma da Justiça”. Eis que, finalmente, chegava o
“pacto de regime” o “acordo dos partidos do arco da governação” que comprometia
o “Centrão” a empreender as alterações estruturais de médio prazo num dos
pilares da Democracia. A também informalmente chamada de "lei Casa
Pia" ou "código Casa Pia" era a grande esperança. Helás!
Os dois (então) grandes partidos estavam unidos num desígnio nacional.
Só que não. Não apenas se prometia e não cumpria o Eldorado
da Justiça, como também essas mudanças incluíam os megaprocessos como elixir
milagroso.
Quase 20 anos depois, Sócrates — candidato prisional —
desfila à porta do tribunal, faz comícios antes, durante e depois das
audiências ou distribui papéis aos jornalistas. Já Marques Mendes — candidato
presidencial — afirma que a Operação Marques evidencia que a reforma da Justiça
é “cada vez mais necessária e urgente e que há que acabar com os megaprocessos.
Estará a confessar o seu falhanço?
A verdade é que, desde os anos 90, quando o mesmo Centrão
meteu as ideias de Laborinho Lúcio na gaveta, a gangrena não parou de alastrar.
Longe vão as expectativas de que os tribunais, enquanto órgãos de soberania,
sejam instituições respeitáveis e respeitadas, pela celeridade e justeza das
suas decisões sábias e coerentes com a jurisprudência e doutrina dominantes,
não dando provimento a “recursos” abusivos, tão pouco a manobras dilatórias.
Pelo meio, conseguiram cansar e fartar os portugueses com
estes supostos milagres para o sistema judicial. Não houve setor com maior
propaganda: foram os Pactos, a Cidadela da Justiça, o Parque da Justiça, o
Manifesto dos 50, a simplificação, a otimização, a digitalização, a
desmaterialização, tudo e mais alguma coisa. Não faltou nada. Só não houve
resultados.
Nem haverá. A Justiça manca e lerda é o que convém a
políticos corruptos como JS ou a políticos carreiristas como o advogado
facilitador de negócios MM. Ou seja, é o que convém a quase toda a classe
política. A inoperância mantém-se porque é o que dá jeito a estas castas. Da
mesma forma, só se discutem na arena pública os excessos de prisão preventiva
ou os excessos de algumas buscas e as delongas nos processos quando se trata de
ricos e/ou poderosos e nunca quando estão em causa 99,9% dos portugueses — sejam
empresas ou cidadãos.
Quando não estão banqueiros ou políticos na porta dos
tribunais, fala-se do tempo médio para resolver processos civis e comerciais em
primeira instância que, em Portugal, é de 550 dias, enquanto a média europeia é
de 240 dias, por exemplo? E dos processos administrativos? Debate-se o tempo
para executar a respetiva decisão que, em Portugal, é de mais de 900 dias
enquanto a média europeia é de 200?
Claro que não.
O que mudou desde 2006? JS ou MM são os mesmos e o sistema
judicial também.
O nosso país está estagnado desde o início do século e sem
dúvida que uma das razões é este longo arrasto e atraso na Justiça. Sem a
restaurar, Portugal continuará a ser um Estado falhado.
Joana Amaral Dias
Fonte: Sapo, 9 de julho de 2025





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