Será que Deus queria que Trump bombardeasse o Irão?

El Cid (1961) - Tullio Carminati

Ao invocar Deus para bombardear o Irão, Trump está a fazer renascer uma tradição mortífera de violência americana religiosamente justificada

Depois de ter ordenado aos militares norte-americanos que bombardeassem o Irão no mês passado, o presidente norte-americano, Donald Trump, fez um breve discurso na Casa Branca para elogiar o "ataque de precisão massivo" que alegadamente tinha "posto fim à ameaça nuclear representada pelo Estado número um do mundo no patrocínio do terrorismo".

O discurso, que durou menos de quatro minutos, terminou com a invocação do nome de Deus nada menos do que cinco vezes num intervalo de sete segundos: "E quero apenas agradecer a todos e, em particular, a Deus. Quero apenas dizer: 'Nós amamos-te, Deus, e amamos os nossos grandes militares – protege-os'. Deus abençoe o Médio Oriente, Deus abençoe Israel e Deus abençoe a América."

É claro que a terminologia empregue no discurso era problemática antes mesmo de chegarmos à rápida menção do Todo-Poderoso por um homem que nunca foi particularmente religioso. Por um lado, o Irão simplesmente não possui as credenciais para se qualificar como o "Estado número um patrocinador do terror" do mundo; esta posição é já ocupada pelos próprios EUA, que, ao contrário do Irão, passaram toda a sua história contemporânea a bombardear e a antagonizar pessoas em todos os cantos da Terra.

Os EUA continuaram também a servir como o Estado patrocinador número um de Israel, cuja política de longa data de aterrorizar palestinianos e outros árabes culminou num genocídio total na Faixa de Gaza, enquanto Israel procura aniquilar o território e os seus habitantes juntamente com ele.

Mas, de qualquer modo, "Deus abençoe Israel".

Esta, com certeza, não foi a primeira vez que Trump confiou em Deus para aprovar eventos mundanos. Em 2017, durante o seu primeiro mandato como presidente, a divindade fez várias aparições na declaração oficial de Trump após um ataque militar norte-americano à Síria. Deus, ao que parece, simplesmente não se cansa de guerras.

Deus regressou em destaque em janeiro de 2025, ocupando o centro do palco no discurso de tomada de posse de Trump – mais um lembrete de que a separação entre a Igreja e o Estado continua a ser um dos pilares mais transparentemente hipócritas da "democracia" americana. No seu discurso, o presidente revelou a verdadeira razão pela qual sobreviveu à amplamente divulgada tentativa de assassinato na Pensilvânia, em julho de 2024: "Fui salvo por Deus para tornar a América grande outra vez".

Parte de tornar a América grande novamente deveria ser focarmo-nos em nós próprios, em vez de, sabes, nos envolvermos nas guerras alheias no estrangeiro. Mas a beleza de ter Deus ao seu lado significa que não precisa realmente de explicar muito no final; afinal, é tudo vontade divina.

De facto, a crescente confiança de Trump no Todo-Poderoso dificilmente pode ser interpretada como um momento de conversão ou de súbita adesão à fé. Em vez disso, a conversa sobre Deus é útil no processo de cortejar os cristãos evangélicos brancos, muitos dos quais já veem o próprio Trump como um salvador por mérito próprio, com base na sua valente guerra mundial contra o aborto, entre outras campanhas para infligir sofrimento terreno a pessoas pobres e vulneráveis.

A obsessão evangélica por Israel significa que Trump conquistou muitos pontos como salvador também neste campo. Em 2019, por exemplo, o presidente recorreu ao Twitter para agradecer a Wayne Allyn Root – um radialista conservador judeu norte-americano que se tornou evangélico e consagrado teórico da conspiração – as suas "palavras muito simpáticas", incluindo que Trump foi o "melhor presidente de Israel na história do mundo" e que os judeus israelitas "o amam como se fosse o Rei de Israel".

E não só: os israelitas também o "amam como se fosse a segunda vinda de Deus".

Obviamente, qualquer pessoa com um ego tão grande como o de Trump não tem qualquer problema em brincar aos Deuses – especialmente quando ele já acredita que cada uma das suas proclamações deve espontaneamente tornar-se realidade, como uma história bíblica da criação.

O ex-governador do Arkansas e fervoroso evangélico Mike Huckabee, que em tempos declarou que "não há palestinianos" e agora serve como embaixador de Trump em Israel, fez a sua parte para encorajar o complexo de messias do presidente, escrevendo numa mensagem de texto a Trump: "Acredito que ouves do céu... Não procuraste este momento. Este momento procurou-te a TI!"

Por isso, era apropriado que Trump agradecesse e professasse amor a Deus depois de bombardear o Irão de acordo com os desejos de Israel – não que os interesses dos EUA e de Israel não estejam alinhados quando se trata de semear o caos regional e garantir o fluxo de capital para os cofres da indústria bélica.

E, no entanto, Trump não é o único chefe de Estado norte-americano a ter usufruído de comunicações com Deus em tempo de guerra. Recorde-se quando, em 2003, o então presidente e chefe da "guerra contra o terror", George W. Bush, informou os ministros palestinianos sobre a sua "missão de Deus".

O ministro dos Negócios Estrangeiros palestiniano, Nabil Shaath, continuou citando excertos da conversa de Bush: "Deus dizia-me: 'George, vai e luta contra estes terroristas no Afeganistão'. E eu lutava, e depois Deus dizia-me: 'George, vai e acaba com a tirania no Iraque'. E eu lutei."

Ora, Trump não gosta de receber ordens de ninguém, mesmo que vindas de cima. No entanto, deixou claro que não se opõe a insinuar-se diante de Deus em nome da conveniência política.

Alguns evangélicos veem a atual turbulência no Médio Oriente como uma potencial aceleração do chamado "fim dos tempos" e da segunda vinda de Jesus – o que significa que quanto mais guerra, melhor. E quanto mais Deus puder ser retratado como um aliado na devastação infligida pelos EUA e por Israel, melhor para as ilusões de deificação de Trump.

Belén Fernández

Fonte: Al Jazeera, 2 de julho de 2025

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