Um cessar-fogo em Gaza é o mais próximo que já estivemos em meses. Eis o que sabemos
Perry Mason
(1957-1966) – Robert Emhardt
O presidente norte-americano, Donald Trump, diz-se
"otimista" quanto à possibilidade de um acordo de cessar-fogo em Gaza
ser fechado na próxima semana, depois de o Hamas ter anunciado que
"apresentou uma resposta positiva" a uma proposta de tréguas de 60
dias com Israel.
"Temos de acabar com isto", disse Trump na
sexta-feira. "Temos de fazer algo em relação a Gaza".
Israel e o Hamas têm há muito exigências conflituantes que
os negociadores não conseguiram ultrapassar, mas com ambos a concordarem agora
com a proposta revista, pela primeira vez em meses um acordo parece estar ao
nosso alcance.
Os esforços renovados ganharam força após uma trégua entre o
Irão e Israel, mas também refletem a pressão dos EUA e uma mudança nos objetivos
de guerra de Israel. Eis o que saber.
Porquê agora?
Desde o cessar-fogo entre Israel e o Irão, a 24 de junho, os
mediadores Qatar e Egipto – bem como os Estados Unidos – têm redobrado os seus
apelos para uma nova trégua em Gaza. Um porta-voz do ministério dos Negócios
Estrangeiros do Qatar disse à CNN que o acordo entre Israel e o Irão criou
"impulso" para as últimas negociações entre Israel e o Hamas.
O governo de Netanyahu tem enfrentado crescentes críticas
internacionais pelo sofrimento que a sua guerra está a infligir aos
palestinianos em Gaza.
Israel impôs um bloqueio total às entregas humanitárias ao
enclave em março. O bloqueio foi parcialmente flexibilizado em maio, depois de
um coro de especialistas globais ter alertado que centenas de milhares de
pessoas poderiam morrer de fome em breve.
Centenas de palestinianos em Gaza foram mortos por ataques
israelitas nos últimos dias. E a distribuição de ajuda humanitária tem sido
marcada pela violência, com centenas de mortos a caminho da Fundação
Humanitária de Gaza (GHF), a controversa iniciativa de ajuda apoiada pelos EUA
que começou a operar no final de maio.
A pressão sobre Netanyahu também está a crescer dentro de
Israel.
O seu governo é apoiado por figuras de extrema-direita que
querem intensificar os combates em Gaza, mas o líder da oposição Yair Lapid
disse na quarta-feira que se juntaria ao governo de coligação para viabilizar
um acordo sobre os reféns. As sondagens têm mostrado repetidamente que a
maioria do país quer um acordo para trazer os reféns de volta para casa, mesmo
que isso signifique o fim da guerra.
As negociações podem começar já na segunda-feira no Qatar.
Entretanto, a ofensiva em Gaza não tem abrandado, com o ministério da Saúde a
reportar dezenas de mortos em ataques israelitas no fim de semana.
Quais são as exigências de Israel?
Para além do objetivo de trazer os reféns de volta,
Netanyahu não vacilou nos seus objetivos mais maximalistas: o desarmamento de
Gaza e a destruição das capacidades militares e de governação do Hamas.
Mas, no passado fim de semana, o primeiro-ministro fez uma
mudança retórica ao apresentar os objetivos de Israel – dando prioridade pela
primeira vez ao regresso dos reféns em detrimento do que chamou de "objetivo supremo" de derrotar o Hamas.
Netanyahu disse que "muitas oportunidades se
abriram" após as operações militares de Israel no Irão, incluindo a
possibilidade de trazer para casa todos os que ainda estão reféns do Hamas.
"Em primeiro lugar, resgatar os reféns", disse. “É claro que também
precisaremos de resolver a questão de Gaza e derrotar o Hamas, mas acredito que
cumpriremos ambas as missões.”
Os comentários foram bem recebidos pelas famílias dos reféns
mantidos em Gaza, que o criticaram por não colocar claramente a libertação dos
seus entes queridos como o principal objetivo de Israel. Apenas um pequeno
número de reféns foi resgatado em operações militares, em vez de ser libertado
sob tréguas.
O exército israelita recomendou esta semana a procura de uma via diplomática em Gaza, após quase dois anos de combates e a eliminação de grande parte da alta liderança do Hamas.
Na terça-feira, um oficial militar disse à CNN que Israel
não atingiu plenamente todos os seus objetivos de guerra, mas, como as forças
do Hamas diminuíram e esconderam-se, tornou-se mais difícil atingir eficazmente
o que resta do grupo militante. “É mais difícil agora atingir objetivos táticos”,
disse o responsável.
E o Hamas?
O grupo militante tem três reivindicações principais: o fim definitivo
dos combates, a prestação de assistência humanitária por parte das Nações
Unidas e a retirada de Israel para as posições que ocupava a 2 de março deste
ano, antes de retomar a sua ofensiva e ocupar a parte norte da Faixa de Gaza.
Um alto funcionário do Hamas disse à CNN, no final de maio,
que o grupo está "pronto para devolver os
reféns num dia – queremos apenas uma garantia de que a guerra não voltará a
ocorrer depois disso". Os reféns são a principal alavanca do
Hamas nas negociações, e o grupo militante recusou-se a concordar com a
libertação sem um caminho para pôr fim ao conflito.
Em resposta à anterior proposta de cessar-fogo, apoiada pela
administração Trump, em maio, o Hamas solicitou
garantias dos EUA de que as negociações de cessar-fogo permanente vão continuar
e que os combates não serão retomados após a pausa de 60 dias.
Se o cessar-fogo será temporário ou um caminho para uma
trégua permanente é o maior ponto de discórdia entre as partes em conflito.
Embora Israel queira erradicar o Hamas após os ataques de 7
de outubro, o grupo demonstrou pouca disponibilidade para abdicar do seu poder
político e militar em Gaza.
As autoridades do grupo fizeram declarações contraditórias
sobre o papel do Hamas numa Gaza pós-guerra. O porta-voz do grupo, Hazem
Qassem, afirmou que o grupo não se está a "agarrar ao poder" e não
tem de participar em acordos "na próxima fase".
O que consta do acordo proposto?
Embora os detalhes da proposta ainda não tenham sido
divulgados, é evidente que o plano revisto é uma tentativa de ultrapassar
algumas das diferenças entre Israel e o Hamas.
Uma fonte familiarizada com as negociações disse que o
calendário da mais recente proposta prevê a libertação de 10 reféns israelitas
vivos e 18 reféns mortos, distribuídos por um período de 60 dias.
Dos 50 reféns que ainda estão em Gaza, acredita-se que pelo
menos 20 deles estejam vivos, segundo o governo israelita.
À semelhança de cessar-fogo anteriores, no primeiro dia da
trégua, o Hamas libertaria oito reféns vivos. Em troca, Israel libertaria um
número não especificado de prisioneiros e detidos palestinianos e retiraria as
suas forças de locais pré-acordados no norte de Gaza.
Israel e o Hamas também entrariam imediatamente em
negociações para um cessar-fogo permanente assim que a trégua inicial entrasse
em vigor, disse a fonte.
Ao abrigo do acordo, os reféns serão libertados sem
cerimónias nem alarido, a pedido de Israel — ao contrário do que aconteceu
durante a última trégua, quando o Hamas encenou eventos públicos de propaganda
durante as transferências de reféns, o que provocou
indignação em Israel.
A ajuda humanitária começará a afluir a Gaza imediatamente
no início do cessar-fogo, incluindo das Nações Unidas e de outras organizações
humanitárias, à semelhança do cessar-fogo anterior, iniciado a 19 de janeiro.
Isto deixa incerto o destino da GHF, financiada pelos EUA, e
o seu papel em Gaza.
Os EUA e os mediadores deram garantias mais firmes sobre a
obtenção de um acordo para pôr fim à guerra em Gaza como parte da proposta
atualizada, disse um responsável israelita à CNN — algo que, em princípio,
deveria responder a uma das principais exigências do Hamas. O responsável não
forneceu a formulação exata do documento, mas afirmou que a linguagem utilizada
é mais forte do que em garantias anteriores.
Embora ambas as partes tenham aceite a proposta, ainda serão
necessárias mais conversações antes de um cessar-fogo ter início.
Nestes chamados proximity talks (conversações
indiretas), os negociadores circulam entre os dois lados para acertar os
detalhes finais do acordo.
O Hamas afirmou na sexta-feira à noite que apresentou uma
“resposta positiva” à proposta, mas um responsável envolvido nas negociações
indicou que o grupo introduziu algumas “emendas”.
O Hamas não divulgou publicamente quais as alterações que
pretende fazer à proposta apresentada pelo Qatar no início da semana, mas a
organização tem insistido há muito tempo em obter garantias mais sólidas quanto
ao fim total da guerra, bem como no acesso da ajuda humanitária a Gaza. O Hamas
pretende canalizar essa ajuda através do mecanismo tradicional das Nações
Unidas, e não através da controversa Fundação Humanitária de Gaza, apoiada
pelos EUA e por Israel.
Israel enviou uma delegação para participar nas conversações
em Doha, mas o gabinete do primeiro-ministro declarou que as alterações
exigidas pelo Hamas à mais recente proposta do Qatar são “inaceitáveis”.
Um dos principais pontos a resolver durante as conversações
indiretas será o calendário e a localização da retirada das forças israelitas
em Gaza durante o cessar-fogo de 60 dias, segundo a mesma fonte.
Quando ocorreram os anteriores cessar-fogos?
Nos 21 meses de guerra entre Israel e o Hamas, houve
cessar-fogo durante um total de apenas nove semanas.
Mais de 57 000 pessoas — das quais mais de 17 000 são
crianças — foram mortas em Gaza durante os combates, segundo o ministério da
Saúde palestiniano.
O primeiro cessar-fogo entrou em vigor em novembro de 2023, mas durou
apenas uma semana. Nesse período, 105 reféns foram libertados de Gaza, em troca
de dezenas de prisioneiros palestinianos.
Um segundo cessar-fogo só foi alcançado em janeiro de 2025, pouco antes do regresso de Trump à Casa Branca. Em pouco mais de 8 semanas — a primeira “fase” do cessar-fogo — o Hamas libertou 33 reféns, com Israel a libertar cerca de 50 prisioneiros palestinianos por cada israelita libertado.
Na
segunda fase planeada, Israel deveria concordar com um cessar-fogo
permanente. No entanto, Israel retomou a ofensiva a 18 de março, rompendo o cessar-fogo e
interrompendo as negociações, alegando que a ação visava pressionar o Hamas a
libertar os reféns que ainda permaneciam em cativeiro.
Fonte: CNN Portugal, 6 de julho de 2025


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