Ana Malhoa em 1989 - Natal dos Hospitais – RTP
A epiderme de Ana Malhoa animava miúdos e graúdos
Aos 6 anos deu o primeiro concerto, no Luísa Todi em
Setúbal. Como é que imaginava o futuro nessa altura?
Ainda tenho de retroceder um pouquinho mais. Até chegar aí,
foram muitos anos. Parece estranho dizer isto quando esse início é apenas aos
seis, mas foi muito tempo para uma criança. Lembro-me de, com quatro anos,
estar a ligar para o diretor da editora discográfica do meu pai e de dizer que
queria gravar um disco e ser cantora. Uma criança quer estalar os dedos e ver
as coisas aparecerem. Durante muito tempo, insisti com várias pessoas,
inclusive com o António Sala, um grande amigo dos meus pais. Lembro-me perfeitamente
de, em jantares, insistir com ele para me escrever uma letra. Antes disso, com
dois ou três anos, ia para cima do palco e pedia ao meu pai o microfone. Lá me
dava, em off obviamente, e eu ficava ali. Foi aí que comecei a projetar o que
queria ser e o meu futuro. Aos olhos dos adultos era uma brincadeira, mas eu
levava muito a sério. Quando apresentei a música ao meu pai, ele tinha acabado
de chegar de uma digressão. Tinha a maqueta toda preparada pelo António Sala,
música e letra, na altura em cassete, e disse-lhe: “Pai, é esta música que eu
quero gravar contigo”. Ele começou a chorar, ficou super sensibilizado. Aí,
acho que me fez a pergunta mais decisiva da minha vida — “Filha, mas é isto
mesmo que tu queres? Ser cantora?” e recordo-me perfeitamente de lhe responder:
“Sim, é isto que eu quero, quero ser cantora, quero ser como tu”. Foi quando
ele percebeu que não era uma brincadeira e que eu não estava só a ser induzida
pela profissão do meu pai. Com o tempo, acabou por ter a certeza de que eu
queria levar aquilo a sério.
O que não deixa de ser uma exceção, ver uma criança tão
pequena ter já essa certeza.
Lembro-me de só querer ser duas coisas: cantora ou
astronauta. Astronauta era mais difícil e, na realidade, era com a música que
eu vivia todos os dias. Só queria palco, palco, palco. E hoje, é isso que vivo
profundamente, os espetáculos, aquelas duas horas em que posso desfrutar ao
máximo. Essa foi sempre a minha grande paixão.
Olhando para trás, o que é que acha que aconteceu cedo de
mais?
Nada. Nem gosto de pôr as coisas assim. Foi tudo natural, nunca me impuseram nada. Quando tinha 15 anos, chegou o programa de televisão, o segundo, porque já tinha feito “O Grande Pagode” com 8 anos.
Sim, pode ter acontecido tudo muito cedo, mas quando as
coisas chegavam era eu a dizer sim ou não e isso sempre foi o mais importante,
deixarem-me fazer o que queria. E nisso, os meus pais sempre zelaram pelas
minhas condições, para eu estar saudável a nível físico, a nível profissional
também. A minha mãe, por exemplo, tratava das minhas roupas e preparava-me para
entrar em palco. Aos olhos de muita gente pode ter sido cedo demais, para mim
aconteceu no tempo em que tinha de acontecer. Da mesma forma que hoje poderia
surgir uma proposta, sei lá… para fazer um filme sobre a minha vida. Para isso
sim, é cedo demais.
Em algum momento foi preciso pôr travão?
O meu pai já estava neste meio há imenso tempo e eu cresci
nele. Além disso, os meus pais sempre foram super protetores, portanto nunca
achei que estivesse a perder alguma coisa, ou que podia ter dormido ou brincado
mais. Brincava com a música. O meu recreio, não tirando o profissionalismo, era
estar em cima do palco. Preferia estar ali do que a jogar à bola com os meus
amigos. Também fazia isso. Apesar das regras todas e da vida preenchida, sempre
fui uma criança feliz.
Era maria rapaz?
Era e se calhar era o rapaz mais terrível lá da escola.
Estou a brincar. Sempre fui muito maria rapaz, tal como as minhas amigas.
Estávamos numa fase em que já não havia aquela divisão entre meninas e meninos
no recreio. Apanhei essa fase muito mais positiva em que podíamos estar todos
juntos e sem essa descriminação de não poder jogar à bola por ser rapariga.
A passagem do universo infantojuvenil para a carreira que
conhecemos hoje foi marcante. Como é que essa mudança aconteceu?
Quando fui para o Buéréré já tinha 15 anos.
Durante esses anos, tive de me adaptar ao universo infantil
e foi fantástico. Depois, veio a vontade de fazer outros projetos, estava na
altura de colocar a carreira na idade certa. Nunca vi as coisas como uma
mudança, mas como uma evolução, uma evolução também pessoal que se impunha na
música, na forma de estar, na imagem. Nunca vi esse momento como uma transição,
ou pelo menos não de uma forma assim tão drástica. Da mesma forma que houve uma
fase em que só fazia espetáculos com o meu pai, a partir de um certo momento,
tive de ter o meu caminho. Aos olhos de muita gente isso foi uma separação. Mas
que separação? O meu pai tem a sua carreira, eu tenho a minha. Não há aqui nada
de negativo.
Fonte: Observador, 31 de dezembro de 2017




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