Arrow Global: os donos de meio Algarve

Perry Mason (1957-1966) – Chana Eden, Douglas Henderson

O grupo que comprou o 7 Café a Paulo China e a Luís Figo está a dar cartas no Algarve e não só. Hotéis, resorts, condomínios de luxo, campos de golfe, centros desportivos… o Arrow Global está a comprar o que pode

Sabemos que grande parte do Algarve é constituído por grandes empreendimentos turísticos, principalmente se falarmos de regiões como Albufeira ou Vilamoura. O que talvez passe despercebido é que muitos desses empreendimentos estão na posse do grupo Arrow Global, uma empresa gestora de fundos de investimento alternativos.

No LinkedIn da empresa lê-se que, no nosso país, através da Arrow Global Portugal, «para além dos investimentos diretos em imobiliário e crédito que tem feito desde 2013, tem participações, por via direta ou indireta, a 100% na Norfin SGOIC e Norfin Serviços (Imobiliário), na Whitestar (NPLs), na Restart Capital (Restruturação de Empresas), na Details Hospitality, Sports & Leisure (operações hoteleiras), na Hefesto (titularização de créditos) e na Nexor (habitação acessível)», e acrescenta-se que «a visão do Grupo Arrow Global é tornar-se o principal gestor de ativos verticalmente integrado da Europa, oferecendo retornos atrativos através de investimentos responsáveis».

Grande parte desse portefólio está no Algarve. Através da Details Hospitality, Sports & Leisure, em Albufeira tem espaços como Aqua Pedra dos Bicos, Hotel Topázio, Velamar e Bertolina Guest House. No Carvoeiro fazem parte deste portefólio Vale da Lapa, Vale D’El Rei e Vale D’Oliveiras.

Mas não é só. Tem ainda a seu cargo a gestão das unidades hoteleiras Dom Pedro em Vilamoura, Lagos e Funchal.

Além do que está detalhado no site, o portefólio vai crescendo e vai do mais pequeno empreendimento ao maior. O grupo focou-se na compra de carteiras de crédito de instituições financeiras em dificuldades. No caso do Algarve, não apenas a aquisição de créditos malparados de particulares que tinham comprado imóveis na região, mas também de empresas do setor imobiliário que estavam em incumprimento.

Esses créditos incluíam desde pequenos apartamentos até grandes empreendimentos turísticos e resorts. A Arrow Global comprou essas carteiras de crédito de bancos, muitas vezes a preços bastante baixos, com o objetivo de recuperar o valor dos ativos, seja através de reestruturação da dívida ou pela venda de imóveis.

Mas também está envolvida em grandes projetos imobiliários no sul do país, tendo ligação a grandes empreendimentos turísticos e residenciais que estavam a enfrentar dificuldades financeiras. A empresa tem, por exemplo, investido em projetos de reabilitação e recuperação de empreendimentos turísticos.

Além disso, tem também estado envolvida na gestão de imóveis residenciais, comerciais e turísticos, e na recuperação de propriedades através de vendas diretas ou em leilões. Muitos desses imóveis estão localizados nas zonas mais procuradas do Algarve, tanto no Barlavento como no Sotavento, nas regiões turísticas mais procuradas por estrangeiros.

Lembrar ainda que o grupo está presente na Vilamoura World, que esteve nas mãos da norte-americana Lone Star e, antes, de André Jordan.

João Brion Sanches é agora o rosto mais visível de Vilamoura, sendo CEO da VW, que em maio de 2021 foi adquirida por um grupo de investidores portugueses – um coinvestimento entre este grupo de investidores e o fundo de investimento da Arrow Global, que detém em Portugal a Norfin e a Whitestar Asset Solutions.

Várias novidades por ano

Todos os anos a Arrow ou as suas participadas anunciam novidades para o Algarve, com grande destaque para Vilamoura. A título de exemplo, em outubro do ano passado, a Details assumiu a gestão de mais um portefólio de ativos em Vilamoura. A operação incluiu o Hotel Hilton Vilamoura As Cascatas Golf Resort & Spa, de cinco estrelas. Com esta operação, a gestora detida pela Arrow Global, acrescentou mais 305 unidades de alojamento às 1700 que já detinha nessa altura sob gestão, totalizando mais de 2000 no seu portefólio.

Um dos principais objetivos era o reposicionamento do Hilton Vilamoura, através de «um investimento de modernização das áreas públicas, quartos e zonas exteriores, alinhado com as exigências da marca», dizia Francisco Moser, CEO de Hospitality da Details, acrescentando que «o objetivo é reforçar o cross selling entre as diversas amenities que o Grupo detém em Vilamoura e onde se destacam os golfes, o centro equestre e a marina, entre outros».

Investimento no golfe

Em janeiro deste ano, a Arrow decidiu avançar com a aquisição do Monte Rei Golf & Country Club, em Vila Nova de Cacela, Vila Real de Santo António.

Mas não só. O grupo tem ainda os campos de Golfe Dom Pedro, que, em fevereiro deste ano, passaram a denominar-se Vilamoura Golf. «O Vilamoura Golf reflete a nossa visão: elevarmos o padrão para os golfistas que visitam o Algarve. Através do reposicionamento destes campos icónicos, oferecemos uma experiência de golfe incomparável, patente nas melhorias significativas implementadas nos campos, nas instalações e no serviço em geral», disse Nuno Sepúlveda, co-CEO da Details, outra empresa da Arrow.

Ainda em janeiro deste ano, a Details anunciou para Vilamoura um dos maiores centros desportivos da Europa, numa parceria com a agência norte-americana Next Practice Partners (NPP). Nesta parceria, a NPP irá desenvolver o plano estratégico e empresarial bem como o conceito para um dos maiores centros desportivos da Europa, com um total de 25 hectares, com abertura prevista em 2026.

«Queremos que Vilamoura se torne pioneira em excelência desportiva. Com este novo centro desportivo, teremos um conjunto de instalações com as quais poucos resorts de luxo na Europa podem competir. O nosso principal objetivo é atrair visitantes de todo o mundo a cada ano. Turistas, proprietários de imóveis, famílias, entusiastas do desporto, atletas – este local será um destino internacional disruptivo», adiantou Nuno Sepúlveda.

Em 2023, num vídeo divulgado no site do grupo, João Bugalho, Chief Country Officer deu números: «Desde que se estabeleceu em Portugal em 2015, o grupo Arrow Global esteve envolvido em múltiplas transações representando mais de 2 mil milhões de equity canalizados para a economia portuguesa». O negócio tem crescido até agora e é para continuar.

No ano passado, nos 50 anos da marina de Vilamoura, João Bugalho atirou: «Esta celebração dos 50 anos da Marina é uma oportunidade para explicarmos também um pouco do estamos a fazer, que vai muito além da Marina. Gostamos de pensar que somos o guardião atual de Vilamoura», desde a aquisição em 2021. «Vilamoura vai estar nas nossas mãos um período de tempo que é indeterminado. Um dia não será nossa. Vilamoura é algo muito maior do que qualquer um de nós. Nasce há 60 anos como um sonho que, ao longo do tempo, de alguma forma, foi um pouco adulterado. Sinto muito orgulho em poder dizer que a Arrow tem vindo, de alguma forma, a reconstruir quase que a visão original de Cupertino de Miranda. É impossível de reconstituir na sua origem, porque houve ativos que foram vendidos ao longo dos anos e que saíram do nosso controlo, mas gostamos imenso de Vilamoura», disse ainda em entrevista ao Barlavento.

E é preciso ter em conta que não é só no Algarve que este grupo aposta. Desde maio deste ano que o grupo é o dono do Troia Resort, que pertencia à SC Investments. Conta ainda com projetos como a Herdade da Aroeira ou Oriente Green Campus. Fora do turismo, é dono de grandes empreendimentos, incluindo projetos residenciais de luxo.

Fonte: Sol, 12 de agosto de 2025

Quem é a Arrow Global que contratou Maria Luís Albuquerque?

Compra dívida a bancos e empresas para, depois, negociá-la. Fez negócios com o Banif. E adquiriu uma empresa portuguesa do Lehman Brothers. O seu negócio torna-a numa das grandes litigantes nos tribunais portugueses

No mesmo dia em que anunciou a contratação de Maria Luís Albuquerque como administradora não executiva, a Arrow Global anunciou resultados. "2015 foi outro ano de recordes e outro ano em que cumprimos os objetivos", diz a empresa. Para isso, contribuiu o investimento em Portugal. Um investimento que envolve Banif, Lehman Brothers e encheu os tribunais com cobranças de dívida.

O grupo com sede em Londres trabalha com carteiras de clientes de vários negócios, desde bancos comerciais, operações de crédito ao consumo e empresas de telecomunicações. "Trabalhamos em conjunto com os clientes cujas dívidas adquirimos para encontrar planos de reembolso exequíveis, tendo em conta as circunstâncias individuais", explica o site oficial da Arrow Global.

"Gestora britânica investe no crédito malparado em Portugal", foi uma notícia dada a 1 de abril de 2015. Foi nesse dia que a Arrow anunciou a compra da Whitestar, uma empresa criada em 2005 pelo Lehman Brothers para agregar o crédito em incumprimento (ou em risco de incumprimento) em Portugal.

Banca nacional dá "fortes perspectivas" à Arrow

Na altura, a justificação apresentada pela companhia britânica para o investimento foi o facto de o mercado português apresentar "fortes perspetivas de crescimento futuro, tanto do seu enquadramento legal, como da tendência crescente assumida pela banca portuguesa para a venda de créditos ‘non performing’ [em incumprimento]". Palavras de Tom Drury, que continua a ser o presidente executivo da Arrow.

Um dos bancos foi o Banif. Como o Expresso começou por notar, no relatório de gestão e contas de 2014, o Banif anunciava ter assinado "contratos de compra e venda de créditos compostos pelas carteiras de Portugal e Espanha, à Arrow Global Limited e à Arrow Global Luna Limited, respetivamente". Nesta altura, o Banif era já um banco sob o jugo público dada a injeção de 1,1 mil milhões de euros feita pelo Estado através do Ministério das Finanças em janeiro de 2013 – nesta altura, Maria Luís Albuquerque era secretária de Estado do Tesouro e Finanças, chegando a ministra em junho de 2013.

Não foi ainda possível falar com a ex-ministra das Finanças sobre esta contratação. Maria Luís Albuquerque é agora deputada do Partido Social Democrata, pelo que não se sabe se o cargo na Arrow, que é não executivo, a pode levar a mudar-se para Londres. Além disso, também não há indicações sobre eventuais incompatibilidades dado que a empresa tem presença no mercado português.

Aliás, o país é mesmo um dos destaques no comunicado de resultados de 2015: "Aquisição da Whitestar e Gesphone em Portugal, criando escala e capacidade de gestão em várias classes de ativos". Compras que garantem a "sustentabilidade das receitas no longo prazo". No documento, em que menciona o "recorde de crescimento" no ano passado, a Arrow fala num investimento total de 216,3 milhões de libras (278 milhões de euros) em 2015: 180,3 milhões de libras representaram aquisições de carteiras. "Durante o ano, fizemos uma série de significativas compras de carteiras em Portugal e na Holanda". 

No topo da litigância

"Em Portugal, temos mais de 650 mil carteiras de clientes", revela ainda a Arrow Global.

O nome da britânica é desconhecido do grande público, mas não do portal Citius, que agrega informações do mundo da justiça em Portugal: a empresa é uma das grandes litigantes no país.

O ministério da Justiça publica informações sobre as empresas que intentaram mais de 200 ações, procedimentos ou execuções nos tribunais todos os anos. E, no último, a Arrow Global encontra-se na lista. Em 2015, foram mais de 501 cobranças. É a 23.ª da classificação, abaixo de operadoras de telecomunicações, bancos e outros especialistas na gestão de dívida privada.

A experiência da ex-ministra

De acordo com a história no site oficial, a Arrow Global foi criada em 2005 em Londres, como subsidiária da americana Arrow Financial Services, por sua vez fundada em 1961. A empresa está cotada em bolsa. Esta quinta-feira, as ações disparam 9,02% para 244,75 pence na bolsa londrina. A empresa vale 426,9 milhões de libras (550 milhões de euros), depois de apresentados os resultados, em que o lucro atribuível aos acionistas foi de 39,3 milhões de libras, mais do que os 18,3 milhões de libras do ano anterior. O mercado português foi um dos importantes para as contas.

"Congratulo-me com a entrada de Maria Luís Albuquerque na administração como membro não executivo", começa por dizer o presidente do conselho de administração da Arrow Global, Jonathan Bloomer (Bloomer foi, até 2012, responsável europeu pelo Cerberus Capital, um fundo de "private equity" que esteve na corrida pelo Novo Banco).

Maria Luís Albuquerque vai ser uma administradora não executiva da Arrow Global. No site oficial, há sete membros do conselho de administração, pelo que a antiga ministra será a oitava. No "board", há três executivos, três não executivos e o "chairman", que também não abarca funções de gestão diária.

"Enquanto deputada do Parlamento português que teve cargos de topo nas Finanças e no Tesouro do sector público português, Maria Luís vai trazer-nos uma riqueza de experiência na gestão de dívida e vai complementar a atual experiência da administração e a expansão da Arrow Global para novos mercados geográficos e para novas classes de ativos", conclui Jonathan Bloomer.

Fonte: Jornal de Negócios, 3 de março de 2016

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