Canadá. Trump faz depender acordo comercial de posicionamento sobre a Palestina
Black Mama
White Mama (1973) - Lynn Borden, Laurie Burton, Pam Grier
O presidente norte-americano, Donald Trump, afirmou que
seria "muito difícil" chegar a um acordo comercial com o Canadá após
o país ter admitido a possibilidade de reconhecer o Estado palestiniano. Mark
Carney, primeiro-ministro do Canadá, explicou que esta é a resposta ao
"sofrimento insuportável" infligido por Israel na Faixa de Gaza e aos
planos de anexação do território palestiniano. Os Estados Unidos deverão
aplicar a partir de sexta-feira uma tarifa de 35 por cento em todos os produtos
canadianos que não estejam abrangidos pelo acordo entre EUA, México e Canadá.
Agora, o entendimento entre os dois países parece ter ficado ainda mais difícil
após o anúncio de Otava sobre a questão israelo-palestiniana.
"Uau! O Canadá acabou de
anunciar que apoia a declaração de um Estado da Palestina. Isso vai fazer com
que seja muito difícil chegarmos a um acordo comercial com eles",
afirmou Trump numa publicação na rede social Truth Social.
O primeiro-ministro canadiano, Mark Carney, já tinha
indicado que as negociações com Washington para um acordo comercial estavam a
ser construtivas, mas que poderiam não resultar em entendimento até ao prazo de
1 de agosto. Apesar da “intensidade” das negociações, chegar a um acordo que
possa remover todas as tarifas será "improvável", reconheceu o chefe
do governo canadiano ainda antes do anúncio sobre a Palestina.
O Canadá é o segundo maior parceiro
comercial dos Estados Unidos depois do México e o maior comprador de exportações norte-americanos,
assim como o principal fornecedor de aço e alumínio. No mês passado, o governo
de Carney deixou cair um plano de tarifas a aplicar aos serviços digitais de
empresas de tecnologia norte-americanas de forma a facilitar as negociações.
Otava é mais um dos parceiros comerciais dos Estados Unidos
que procura alcançar à última hora um acordo comercial com o país antes do
prazo final de 1 de agosto. De recordar que foram vários os países a chegar a
um entendimento com Washington nas últimas semanas, desde o Japão, a União
Europeia, e mais recentemente a Coreia do Sul. Faltam ainda acordos com outros
parceiros comerciais de relevo como o Canadá, o México ou a China, bem como a
Índia.
Reconhecimento do Estado palestiniano
O anúncio do Canadá na última quarta-feira surge após uma
vaga de outros países terem também admitido dar o mesmo passo.
"O Canadá tem a intenção de reconhecer o Estado da
Palestina no durante a 80.ª sessão da Assembleia Geral das Nações Unidas em
setembro de 2025", declarou Mark Carney numa conferência de imprensa em
Otava.
"O Canadá condena o facto de o governo israelita ter
permitido o desenrolar de uma catástrofe em Gaza", acrescentou Carney,
considerando que o nível de "sofrimento humano" no enclave
palestiniano é "intolerável".
O primeiro-ministro explicou ainda que este passo é motivado
por uma convicção de "longa data" a favor de uma solução de Dois
Estados.
Mark Carney esperava que tal solução "fosse alcançada
através de um processo de paz com base num acordo negociado entre o governo
israelita e a Autoridade Palestiniana".
Uma possibilidade que, considera, está "a desvanecer-se
diante dos nossos olhos", argumentou.
A abordagem anterior "já não é sustentável"
perante o "terrorismo do Hamas" e a "rejeição violenta de longa
data por parte do grupo do direito de Israel à existência", mas também o
"fracasso persistente" de Israel em evitar uma catástrofe humanitária
em Gaza, a violência dos colonos israelitas na Cisjordânia e os planos de
anexação do território palestiniano.
Israel condenou de imediato o anúncio por parte do Canadá. Telavive denunciou uma "campanha distorcida de
pressão internacional" que reforça a "posição do Hamas
na mesa das negociações".
O MNE israelita considerou que o governo canadiano está a
"recompensar o Hamas" com esta decisão, ao mesmo tempo que
"prejudica os esforços para alcançar um cessar-fogo em Gaza" e o
processo de libertação de reféns.
Por sua vez, a Autoridade Palestiniana saudou o anúncio por
parte do Canadá, considerando que "marca um passo significativo"
sobre o direito à autodeterminação.
O ministério dos Negócios Estrangeiros da Autoridade
Palestiniana, que governa zonas da Cisjordânia ocupada por Israel,
indicou que considera a posição do Canadá como uma reafirmação do consenso
internacional sobre a solução de Dois Estados.
Ramallah pede ainda a todos os países que ainda não
reconhecem o Estado da Palestina a dar esse passo "com coragem e
determinação".
A posição de Portugal
Também na quarta-feira, a diplomacia portuguesa admitiu a
possibilidade de reconhecer o Estado da Palestina, posição assumida numa
declaração conjunta assinada no final da conferência sobre a solução "dois
Estados" que decorreu nas Nações Unidas.
"Antes da reunião dos chefes de Estado e de governo que
terá lugar durante a semana de alto nível da 80.ª sessão da Assembleia Geral
das Nações Unidas em setembro de 2025, (...) já reconhecemos, expressámos ou
expressamos a vontade ou a consideração positiva dos nossos países em
reconhecer o Estado da Palestina, como um passo essencial para a solução de
dois Estados", lê-se na declaração conjunta subscrita pelo ministro
português dos Negócios Estrangeiros, Paulo Rangel.
Portugal juntou-se a outros países europeus (Andorra,
Finlândia, França, Islândia, Irlanda, Luxemburgo, Malta, Noruega, Portugal, San
Marino, Eslovénia e Espanha) na assinatura deste documento, assim como ao
Canadá, Austrália e Nova Zelândia.
No caso de Espanha, Irlanda, Eslovénia e Suécia, estes
países já reconhecem o Estado palestiniano desde 2024. França, por sua vez, já
tinha anunciado na última semana que irá reconhecer o Estado da Palestina
durante a Assembleia Geral das Nações Unidas, em setembro próximo.
Os 15 países afirmam-se determinados em "trabalhar numa
arquitetura para o 'dia seguinte' em Gaza que garanta a reconstrução de Gaza, o
desarmamento do Hamas e a sua exclusão da governação palestiniana".
Expressam ainda "profunda preocupação com o elevado
número de vítimas civis e a situação humanitária em Gaza" e sublinham o
"papel essencial" das Nações Unidas e das suas agências na
"facilitação da assistência humanitária".
O Reino Unido não subscreveu esta declaração, mas o
primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, anunciou na segunda-feira que
Londres irá reconhecer o Estado da Palestina em setembro a não ser que o governo
israelita tome “medidas substanciais para acabar com a terrível situação em
Gaza”, sendo ainda incerto que esse reconhecimento se possa materializar
independentemente de um cessar-fogo entre as partes.
Fonte: RTP, 31 de julho de 2025

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