Como os espiões russos utilizavam vídeos de Cristiano Ronaldo no Youtube para passar informações ao Kremlin
Perry Mason
(1957-1966) – Dean Harens
Andreas
e Heidrun Anschlag pareciam um casal normal. Viviam uma vida pacata na
cidade medieval de Marburgo, a norte de Frankfurt, com a sua filha. O marido
tinha um respeitável trabalho como engenheiro mecânico que aparentava sustentar
todo o agregado, permitindo à mulher cuidar da casa e da filha. Para os seus vizinhos, a única coisa estranha acerca do
casal era o sotaque "de leste" e o último nome "Anschlag",
que significa "ataque". No entanto, por trás dessa aparente
normalidade, Andreas e Heidrun eram espiões russos a operar na Alemanha há mais
de duas décadas, responsáveis por passar milhares de informações da NATO e da
União Europeia a Moscovo.
Com a cobertura de uma vida de classe média alemã comum, os
dois espiões, conhecidos em Moscovo pelos nomes
de código "Pit" e "Tina", utilizavam técnicas
sofisticadas para transmitir para Moscovo informações sensíveis. Aquilo que
pareciam ser comentários absolutamente normais
em vídeos de melhores momentos de Cristiano Ronaldo no Youtube escondiam as comunicações de uma das maiores
agências de serviços secretos do mundo. As mensagens eram cuidadosamente
compostas com sequências de pontuação que podiam ser convertidas em códigos
numéricos, que referenciam mensagens pré-combinadas.
Num dos vários exemplos que veio a ser descoberto pelas
autoridades foi possível ver uma das comunicações dos Anschlag com os serviços
secretos russos num vídeo
do internacional português. "Ótimo vídeo, e a música é incrível",
escreveu a espia, com o nome de utilizador @AlpenKuh1 (vaca alpina 1).
"Ele corre e joga como o diabo", responde a conta com o nome de
utilizador @crsitanofootballer, ligada ao Serviço de Inteligência Estrangeiro
(SVR) russo.
Mas a dupla de espiões utilizava também métodos
"tradicionais" do mundo secreto da espionagem, transmitindo mensagens
por satélite e entregas em pontos mortos. Foi através destas entregas que os
estes dois agentes russos, que fazem parte de uma rede de espiões infiltrados
conhecidos por "ilegais", obtinham informações de uma das suas
principais fontes. Todos os meses, Raymond Poeteray, um oficial do ministério
dos Negócios Estrangeiros dos Países Baixos, deixava pens USB com informações
sensíveis num esconderijo combinado, que era posteriormente recolhido por
Andreas. O político neerlandês recebeu 72 mil euros dos serviços secretos
russos em troca de documentos confidenciais da NATO, ao longo de quatro anos.
Em troca desta informação, os agentes recebiam 100 mil euros
por ano diretamente de Moscovo. Duas vezes por semana, Heidrun recebia
informações detalhadas do SVR através de um recetor de rádio de ondas curtas
que estava ligado a um decodificador e a um computador num dos quartos da
vivenda suburbana onde moravam com a filha, uma jovem estudante de medicina que
desconhecia a verdadeira identidade dos pais. A espia respondia às ordens do
SVR com comunicações por satélite.
Todo o esquema viria a acabar
rapidamente em 2011, quando uma equipa das forças especiais alemãs
arrombou a porta da casa e entrou pelo edifício adentro. Heidrun foi apanhada
em flagrante delito. Estava a meio de receber uma mensagem codificada no rádio
de onda curta e entrou em pânico, caindo da cadeira e arrancando a conexão por
cabo.
Andreas foi sentenciado a seis anos e meio de prisão e
Heidrun recebeu uma pena de cinco anos e meio, em julho de 2013. No entanto, no
final de 2015, os dois acabaram por ser libertados e deportados para a Rússia.
Duas crianças austríacas que tinham morrido
O casal
foi recrutado pelos serviços secretos russos ainda antes da queda do Muro de
Berlim, em 1989. Nascidos na Rússia, os dois espiões faziam-se passar
por cidadãos austríacos nascidos na América do Sul. O casal solicitou
separadamente passaportes austríacos em 1984, mostrando documentos falsos que
indicavam que ele tinha nascido na Argentina e que ela tinha nascido no Peru.
Os dois só se casaram em 1990, quando Andreas estudava engenharia mecânica na
Alemanha.
De acordo com os procuradores responsáveis pelo caso, foi a natureza dos passaportes dos espiões que fez soar o
primeiro alerta. Em 2011, a Áustria ordenou uma auditoria a todos os
passaportes emitidos na década de oitenta, o que terá revelado que os Anschlag
roubaram a identidade de duas crianças austríacas que tinham morrido. Esta é
uma técnica comum entre os espiões russos que operam como "ilegais"
no estrangeiro, obtendo documentos falsos com as identidades de crianças mortas
para depois passar anos a trabalhar lentamente para dar credibilidade à sua
história de vida no país-alvo.
Mas há suspeitas de que a origem da detenção venha de outro
lado. As autoridades acreditam que os dois
espiões foram alertados por Moscovo de que uma possível detenção poderia ser
iminente, durante uma viagem à Sérvia, no verão de 2011. Dias antes
de a polícia entrar pela casa do casal, Andreas tinha acabado de vender o carro
e de avisar a sua empresa de que ia deixar o emprego, pouco antes de ser
capturado.
Muitos suspeitam que o casal
foi exposto por Aleksandr Poteyev, um coronel do SVR e responsável
pelo programa de "ilegais", que desertou para os Estados Unidos
quando soube que os serviços secretos russos estavam a preparar testes de
polígrafo para encontrar a fonte das fugas de informações. Dias antes de ser
preso e condenado a 18 anos numa prisão de máxima segurança, as autoridades
americanas levaram a cabo uma das maiores detenções de espiões em solo
americano desde o final da Guerra Fria, capturando dez cidadãos russos que
viviam infiltrados no país há vários anos com identidades falsas.
Estes espiões já estavam sob vigilância há vários anos e
acredita-se que a sua detenção aconteceu assim que os serviços secretos
americanos souberam que Poteyev ia ser exposto. O FBI descobriu que os espiões
russos conseguiram chegar perto de um cientista americano que trabalhava no
desenvolvimento de bombas nucleares antibunker, bem como um financiador de Nova
Iorque com fortes ligações políticas. No entanto, as autoridades sugerem que os
russos não conseguiram obter informações relevantes em nenhum dos casos.
Fonte: CNN Portugal, 10 de agosto de 2025

Comentários
Enviar um comentário