Documentos britânicos revelam que os EUA previram que Israel usaria armas nucleares contra o Iraque durante a guerra de libertação do Kuwait
Perry Mason
(1957-1966) – Margaret Field, Frances Helm, John Bryant
Documentos
britânicos recentemente desclassificados revelam que os Estados Unidos previram
que Israel poderia utilizar armas nucleares contra o Iraque durante a guerra
para libertar o Kuwait da ocupação iraquiana
A 2 de agosto de 1990, as forças iraquianas invadiram e
ocuparam o Kuwait. Após o Iraque se ter recusado a retirar, apesar da
condenação global, uma coligação liderada pelos EUA lançou a Operação Tempestade no Deserto a 17 de janeiro de 1991 para expulsar o exército
iraquiano. Vários Estados
árabes, incluindo o Egipto, a Arábia Saudita e a Síria, aderiram à coligação.
Em resposta à campanha aérea da coligação, o Iraque lançou
ataques com mísseis Scud contra Israel e as forças da coligação estacionadas na
Arábia Saudita.
De acordo com os registos do gabinete do Reino Unido, duas
semanas após o início da guerra, os serviços de informação norte-americanos
avaliaram que o Iraque provavelmente utilizaria armas químicas "muito em
breve", possivelmente contra a Arábia Saudita, Israel ou ambos.
O vice-presidente dos EUA, Dan Quayle, disse ao
primeiro-ministro britânico, John Major, que os relatórios americanos
“consideravam certo” que o Iraque usaria armas químicas. Garantiu a Major que
os EUA e os seus aliados responderiam com “uma resposta convencional
esmagadora” a qualquer ataque desse tipo.
Durante a sua reunião em Londres, os dois líderes também
discutiram a posição de Israel. Questionado sobre se Israel continuaria a
mostrar contenção, Major disse acreditar que sim “por enquanto”, uma vez que
isso lhe valia aprovação internacional. No entanto, esperava que Israel
acabasse por retaliar.
Quayle concordou, mas alertou para um “problema real” caso
Saddam Hussein utilizasse armas químicas contra Israel. “No pior cenário, e se
houvesse milhares de vítimas, a resposta israelita poderia até ser nuclear”,
disse a Major.
Novas preocupações foram alimentadas pelo presidente
egípcio, Hosni Mubarak. Quase três semanas após o início da campanha aérea,
Mubarak alertou Major de que Saddam se estava a sentir cada vez mais
encurralado e poderia recorrer a armas químicas “assim que visse não haver
saída”. Aconselhou a coligação a tomar todas as precauções necessárias.
Duas semanas depois, Mubarak emitiu outro aviso a Washington. Numa chamada com Major, o conselheiro de Segurança Nacional dos EUA, Brent Scowcroft, confirmou que os EUA estavam a fazer tudo o possível para dissuadir o Iraque de usar armas químicas. Acrescentou que Mubarak tinha expressado “total apoio” à posição do presidente George H. W. Bush, alertando que “não devemos deixar-nos enganar pelos iraquianos”.
Na altura, o Reino Unido não tinha a certeza se o Iraque
tinha capacidade para lançar armas químicas a longas distâncias. Major disse ao
rei Fahd da Arábia Saudita que, se o Iraque tivesse esta capacidade, era
surpreendente que não a tivesse utilizado. Ainda assim, acreditava que o Iraque
poderia lançar tais armas a distâncias mais curtas e advertiu que a coligação
deveria preparar-se para a sua possível utilização em batalhas terrestres.
Assegurou ao rei que as forças da coligação estavam bem preparadas e
"retaliariam de facto muito severamente". Major revelou ainda que os
serviços de informação britânicos tinham “dúvidas” sobre a capacidade do Iraque
para lançar armas biológicas.
Israel, por sua vez, insistiu no direito de retaliar contra
os ataques com mísseis. O ministro da Defesa israelita, Moshe Arens, disse ao presidente
Bush que era "muito difícil" para Israel manter a contenção. Numa
reunião na Casa Branca, Arens afirmou que os ataques iraquianos causaram
"danos extensos" em Israel.
Mais tarde, Bush transmitiu a Major, numa conversa
telefónica, que Arens era “bastante exigente”. Major questionou se os
israelitas estavam realmente a pensar em retaliação ou apenas a tentar
“pressionar para garantir fundos”. Bush
respondeu que Arens não tinha proposto “qualquer preço específico”, mas
acreditava que Israel estava, de facto, a procurar um apoio financeiro extra
substancial dos EUA.
Documentos britânicos revelam também que grupos de pressão
pró-Israel pressionaram tanto os governos dos EUA como da Europa para classificar Israel como um “estado na linha da frente” na
crise do Golfo — uma designação que o qualificaria para assistência financeira.
O secretário de Estado dos EUA, James Baker, elogiou a
contenção de Israel duas semanas após o início da campanha. Informou o ministro
britânico dos Negócios Estrangeiros, Douglas Hurd, que os EUA apoiariam
qualquer esforço para tratar Israel como um estado na linha da frente,
argumentando que o estado sionista “sofrera danos relacionados com a guerra” e
“incorrera em custos financeiros devido à sua contenção”.
Entretanto, o Reino Unido liderava esforços de “partilha de
encargos”, procurando assegurar uma parte das contribuições financeiras do
Kuwait, da Arábia Saudita, do Bahrain, dos Emirados Árabes Unidos, do Qatar e
do Japão para financiar o esforço de guerra.
Na Europa, os ministros dos Negócios Estrangeiros da
Comunidade Europeia (agora UE) também concordaram em estender a ajuda
financeira a Israel.
Apesar destes esforços, as avaliações militares e de
inteligência dos EUA e do Reino Unido concluíram que Israel já estava bem
protegido. Durante uma visita a Londres, três semanas após o início da guerra,
o ministro da Defesa italiano foi informado sobre os extensos esforços da
coligação para intercetar ataques de mísseis SCUD iraquianos. O secretário da
Defesa do Reino Unido reconheceu que nem todos os mísseis tinham sido
intercetados, mas manifestou confiança de que o Iraque "já não era
capaz" de lançar um ataque de mísseis em grande escala contra Israel. Os
britânicos acreditavam que esta situação ajudou os EUA a persuadir Israel a
deixar as operações militares para a coligação, preservando assim a unidade da
coligação.
Pouco depois, o Pentágono minimizou a ameaça de ataques de
mísseis a Israel. Numa sessão informativa em Washington, o Grupo de Gestão de
Crises do Pentágono assegurou a uma delegação militar britânica que 94
lançadores de mísseis Patriot estavam posicionados em Israel — 60 à volta de
Telavive (36 operados pelos EUA, 24 pelos israelitas) e 34 a defender Haifa.
Até então, 50 mísseis iraquianos tinham atingido Israel, a maioria em áreas
abertas.
À medida que a guerra avançava, surgiram divergências entre
o Reino Unido e a França sobre restrições a armas na região após o conflito.
Durante uma visita a Londres em fevereiro, Pierre Morel, conselheiro
diplomático do presidente francês Mitterrand, insistiu que Israel deveria estar
sujeito a quaisquer futuras limitações regionais sobre armamento, incluindo
armas nucleares, biológicas e químicas.
Numa reunião com Charles Powell, chefe de gabinete do
primeiro-ministro Major, Morel enfatizou que o progresso na resolução
pós-guerra exigiria a conformidade de Israel. Powell, no entanto, argumentou
que as grandes potências precisavam de distinguir entre restrições rigorosas ao
Iraque — enquanto agressor do Kuwait — e controlos de armamento mais amplos e
flexíveis que pudessem aplicar-se a toda a região. No seu relatório, Powell
notou que Morel “tinha pouca ideia” de como estas restrições poderiam ser aplicadas
se Israel “simplesmente se mantivesse inflexível” durante a guerra de
libertação do Kuwait.
Fonte: Middle East Monitor, 16 de agosto de 2025







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