Londres está com problemas e não vale a pena fingir o contrário

Beyond Paradise

A indiferença classista das elites mediáticas perante o esfrangalhar dos laços sociais é obscena

Acabou de surgir uma nova opinião de alto estatuto: Londres está bem. Das suas casas eduardianas convertidas nos subúrbios arborizados, onde não se arranja um hambúrguer por menos de 15 libras, os pavoneados formadores de opinião londrinos recorrem ao X para proclamar que na capital está tudo em ordem. “Ignorem a conversa ‘trumpista’ sobre Londres ir pelo cano abaixo”, clamam entre goles de pinot noir — nunca a vida foi tão boa!

Imagina-se o esgar das pessoas do outro lado da cidade ao verem tais bitaites a pipocar nos telemóveis a que se agarram como a uma tábua de salvação, não vá algum chico-esperto numa Lime roubada sacar-lhos das mãos.

A internet está a fervilhar com esta grande questão: "Londres é uma merda (shithole)?". O curioso é que os verdadeiros londrinos têm esta conversa o tempo todo. Às vezes dizemos que sim, se tivermos tido um dia de cão; outras vezes estamos prontos a enfrentar qualquer forasteiro de sotaque esquisito que fale mal da nossa cidade. Mas agora a questão londrina, como tudo o resto, caiu no ciclo vicioso da guerra cultural. Tornou-se combustível para o exibicionismo digital. “É um inferno cheio de crime”, diz a direita viciada no Twitter. “Está tudo bem”, dizem os liberais endinheirados, em apartamentos arejados. E, como não é a primeira vez, ambos estão errados.

Os mais errados — ou pelo menos os mais irritantes — são os do grupo “Londres está bem”. Há qualquer coisa de Maria Antonieta nas suas mensagens digitais. Podiam muito bem gritar: “Que comam pão de massa mãe!” Este espírito está bem representado por Lewis Goodall, do The News Agents, o podcast para liberais ricos e melancólicos que ainda não ultrapassaram o Brexit. Londres, diz ele, está a ser falsamente retratada como um sítio horrível onde “o crime está completamente descontrolado… viajar sem pagar está fora de controlo… [e] o Metro parece Gotham City”. Está tudo “exagerado”, assegura.

Vou arriscar o pescoço e propor que a vida londrina de Goodall é bastante mais confortável e mimada do que a da maioria das pessoas. Há uns anos, disse ao Evening Standard que vivia em Norbury, um subúrbio muito classe-média e – desculpa lá, Lewis – insosso, no sudeste, onde o crime é baixo e a privação praticamente inexistente. Ao que parece, delicia-se com “pratos gauleses no Pique-Nique” – também nunca ouvi falar – e adora enfardar “pelmeni” em Soho com os seus igualmente estrelados amigos da comunicação social. Felizmente, para totós como eu, o Standard explicou o que são pelmeni: uns pastéis russos.

Ele faz aulas de boxe de ginásio em East Dulwich. Adora jardinagem porque “é o oposto da vida moderna”. Quer proibir os carros. Pois, é esse Londres. O outro Londres. O Londres que eu nem sabia que existia até chegar aos 20 anos. O Londres onde dificilmente se apanha um drogadito de crack no autocarro noturno – sobretudo porque se pode pagar Ubers – ou um mascarado ranhoso a resmungar: “Dá-me o telemóvel.” O coapresentador do Goodall, Jon Sopel, concordou com ele que falar mal de Londres é uma “importação trumpista”. É o mesmo Jon Sopel que vive em Belsize Park, vai para o trabalho com um “passeio maravilhoso por Primrose Hill”, compra fatos na Richard James em Savile Row e não se cansa de dizer a quem o quiser ouvir que “o Duke’s tem os melhores martinis de Londres”. Pergunto-me onde é que ele esquia?

Reduzindo a questão ao essencial, isto é apenas indiferença classista. “O meu Londres é fabuloso, do que é que vocês estão todos a resmungar?” Aposto que todos estes convertidos de repente à posição pró-Londres de alto estatuto vivem, claro está, em zonas da cidade imaculadas, sem trotinetes elétricas a subir passeios nem colunas manhosas a deitar música aos berros nos transportes públicos. Julgam que estão a fazer pouco da direita, mas na verdade só estão a exibir o seu desprezo feliz pelos restantes londrinos, que sabem bem viver em condições bem diferentes. Sacudindo as migalhas dos seus jantares gauleses dos fatos de Savile Row, dizem: “Espera, nem todo o Londres é assim? Paciência. Azar o vosso.”

Se estas pessoas alguma vez saíssem da bolha mediática que confundem com a cidade, talvez percebessem que, ainda que Londres não seja um inferno, anda um bocadinho estalado. Experimentem Harlesden. Ou Tower Hamlets. Levo-vos à minha terra natal, Burnt Oak, se quiserem — já conheceu dias melhores. Não têm pelmeni, mas têm frango frito de primeira. Toda a gente com quem falarem terá uma queixa sobre Londres. Lamentam o crime, a falta de simpatia, os cães perigosos, o cheiro constante a marijuana, os adolescentes a berrar, a grosseria, a incapacidade até da avó doente arranjar um lugar no autocarro. Não foram vítimas de propaganda trumpista — sentem mesmo que os laços em que assenta a vida urbana estão a desfazer-se.

Alguns centristas agitam gráficos a mostrar que o crime diminuiu em Londres. Perdem redondamente o ponto. É verdade que certos crimes caíram, mas outros dispararam. Como os furtos em lojas. Entre 2023 e 2024 houve um aumento de 54% nesse delito irritante e banal. Mas a questão não é Londres ser a nova Bogotá. É o facto de a cidade parecer irritadiça, azeda até, mais uma multidão de almas solitárias em choque constante do que um coletivo de cidadãos. Depois de um dia a ver gente a fugir ao bilhete que tu acabaste de pagar, a ser forçado a ouvir a treta barulhenta das chamadas em vídeo de toda a gente, e quase a perder a cabeça com um idiota numa e-bike a entregar hambúrgueres manhosos à classe média indolente, começas a sentir-te menos cidadão de uma grande cidade do que figurante (NPC) no videojogo da vida de outra pessoa.

A esquerda subestima, por sua conta e risco, o quão preocupante é este desgaste social, sobretudo para as classes trabalhadoras. “A insegurança quotidiana dói muito mais aos pobres do que aos ricos, que vivem calmamente nas suas comunidades fechadas”, diz Slavoj Žižek. E não há como negar, acrescenta: há “sinais claros da decadência crescente dos modos [e] de gangues juvenis a aterrorizar os espaços públicos”. E não é “reacionário” falar disso. Pelo contrário, a corrosão em câmara lenta dos pactos sociais que tornam a vida urbana possível e suportável é, segundo ele, um grande “domínio de insatisfação” para os trabalhadores, e os políticos deveriam enfrentá-lo.

Exatamente. Digo que devemos rejeitar tanto o negacionismo das elites do “London is fine”, confortavelmente instaladas nos seus condomínios morais fechados, como o catastrofismo dos direitistas digitais que talvez percebessem que Londres não é assim tão má se alguma vez se dessem ao trabalho de a visitar. Londres continua a ser a maior cidade do mundo. Está apenas a atravessar uma fase difícil, consequência da loucura hiper-individualista da política identitária e do relativismo moral das elites, que demasiadas vezes fecham os olhos ao mau comportamento. Esta cidade louca, combativa e sinfónica pode ser consertada – mas temos mesmo de querer.

Brendan O’Neill

Fonte: spiked 16 de agosto de 2025

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